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Jogos eletrônicos

Games viram base de treino para atletas profissionais

Dos simuladores de corrida ao futebol virtual, consoles ajudam esportistas a se preparar para os desafios reais por vitórias

Lico Kaesemodel, piloto da Stock Car, desembolsou R$ 38 mil para comprar o simulador em que treina para competir na pista de Interlagos e em circuitos da Europa | Marcelo Elias/ Gazeta do Povo
Lico Kaesemodel, piloto da Stock Car, desembolsou R$ 38 mil para comprar o simulador em que treina para competir na pista de Interlagos e em circuitos da Europa (Foto: Marcelo Elias/ Gazeta do Povo)

Os primeiros testes para a estreia na Stock Car 2010, em Interlagos, feitos em um game de corrida de Fórmula 1. Um título do Campeo­­nato Paranaense de futebol en­­saiado no Wining Eleven. Luta­­dores de tae kwon do treinando no Street Fighter para a Olimpíada de Pequim. Não se trata do Second Life (um mundo virtual na internet), tampouco de algum filme nacional nos moldes de Avatar: é na vida real mesmo.

O videogame começa a virar suporte para setores imprescindíveis da sociedade. A polícia do Amazonas, por exemplo, utiliza um jogo de simulação para a reciclagem de seu policiais. Na Medicina, o médico James Rosser Jr., de um hospital de Nova Iorque, tem um X-Box e um Playstation 2 e neles se prepara para realizar cirurgias delicadas. E se no esporte a utilização do brinquedo para fins "sérios" não é uma novidade tão grande, está ganhando cada vez mais espaço como forma de planejamento e treinamento.

"De certa forma, tudo que so­­­ma conhecimento para a gente acaba sendo usado", afirma Ra­­fael da Costa, presidente da Tech Front, empresa curitibana que criou jogos como Dracula Files, Burger Island e Puzzle City, conhecidos mundialmente. "Na maioria desses casos o game funciona como simulador. Se olhar na Fór­­mula 1, por exemplo, o Lewis Ha­­milton, no ano de estreia, conheceu todas as pistas do mundial assim (jogando)", lembra.

Não é preciso ir tão longe. O piloto curitibano de Stock Car, Lico Kaesemodel, utiliza os games desde 2004 como parte de sua preparação. Na época, corria na Maserati e foi convidado para participar de uma corrida em Monza, com pilotos de Fórmula 1. Não conhecia o circuito. "Comprei um CD de computador com um jogo de Turismo e fiquei jogando. Ajudou muito, principalmente no traçado", conta o corredor. Ele reclama apenas de não existir ainda nenhum jogo da Stock brasileira. "Mas a gente treina ao menos em Interlagos, que tem em qualquer jogo de Fórmula 1", comenta.

Empolgado com a novidade, Lico mandou fazer um simulador ao custo de R$ 38 mil. Nele, senta no cockpit, à frente de uma tevê de 42 polegadas, e disputa várias provas do game Fórmula 1, que roda em um Playstation 3, misturando diversão com treino.

Essa talvez seja a forma mais direta e conhecida do auxílio dos games ao esporte. Mas há variações. Na Inglaterra, às vésperas da Olimpíada de Pequim, a seleção de tae kwon do do país agregou aos treinos o jogo de luta Street Fighter, para aumentar a atenção e motivação dos atletas.

"Hoje em dia o aspecto motivacional em uma luta é muito importante. E o uso do videogame é uma situação diferente. E tudo que é diferente ajuda nesse sentido", afirma Fernando Madureira, técnico da seleção do Brasil.

Mais curioso é imaginar que os games, criados como uma forma de simular a realidade, estão alterando-a. Nos Estados Unidos, por exemplo, o quarterback Kyle Orton, do Denver Broncos, tinha apenas 28 segundos para virar uma partida de futebol americano e conseguiu graças a uma jogada que aprendeu no game licenciado da NFL. No Brasil, ano passado, Jorge Henrique e Elias garantiram a vitória do Corinthians sobre o Santos copiando um lance que haviam usado no videogame da concentração. No Paraná, em 2007, uma das armas para o ACP conquistar o paranaense teria sido o Wining Eleven. Ao menos é o que garante o zagueiro do Pa­­raná, Diego Correia, na época no Vermelhinho.

"No Paranavaí, o Amauri (treinador) e o Robert (auxiliar) montavam o esquema no videogame e depois arrumavam em campo", conta.

A única divergência sobre o assunto no futebol é quanto à verdadeira semelhança do jogo com a realidade. Vale aqui a lembrança do conhecido caso do goleiro Marco Amelia, do Palermo, que em 2008 pegou um pênalti batido por Ronaldinho e afirmou ter se baseado nas características do brasileiro no game Fifa.

"Aí já não acredito. É muito diferente. Isso deve simplesmente ter sido coincidência", opina o goleiro Neto, do Atlético. "Para mim, videogame é muita mentira, o futebol é bem menos fantasioso", completa Marcos Paulo, volante do Coxa.

Mas o especialista os contraria: "Nesses jogos as características do jogador não foram copiadas, mas são exatamente as mesmas. Pois é feito com uma tecnologia que captura os movimentos dos atletas que vendem os direitos com sensores. Sou capaz de dizer que, daqui a alguns anos, quando os atuais jogadores pararem, o videogame servirá como uma espécie de livro de história virtual", afirma Rafael da Costa.

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