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Paranaense

Leandro exalta o trabalho, mas recusa comparação com Muricy

Entre apitos, berros e broncas, técnico da surpresa do Estadual sossega apenas quando vê o que pede executado com perfeição

Leandro Niehues mantém elevada a exigência: “Não pode baixar a guarda. Quem não render sai do time. `Desço o cacete´ neles" | Albari Rosa/Gazeta do Povo
Leandro Niehues mantém elevada a exigência: “Não pode baixar a guarda. Quem não render sai do time. `Desço o cacete´ neles" (Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo)

Por trás da surpreendente campanha do J. Malucelli no Campeonato Paranaense há um sujeito obcecado por trabalho. A comparação não agrada a Leandro Niehues, mas é quase impossível desvinculá-lo de Muricy Ramalho. O técnico do Jotinha tem muito em comum com o são-paulino. A filosofia, por exemplo, é a mesma. "Isso aqui é trabalho, meu filho!", costuma dizer o treinador do clube paulista, ao analisar a constante boa fase da equipe. "Só chegamos até aqui por causa do trabalho", ressalta Niehues, em referência ao desempenho do Jotinha no Estadual.

Os dois são típicos workaholics, expressão de origem americana usada para designar alguém viciado em trabalho. "Dizem que sou parecido com o Muricy pelo fato de ficar gritando e gesticulando à beira do gramado. Não é nada disso. Faço por necessidade. Se o meu time estiver ganhando por 4 a 0, não vou ficar lá pulando feito um palhaço", explica ele. "Não me espelho em ninguém", emenda.

Nada no Ecoestádio passa despercebido ao olhar atendo de Niehues, de 36 anos. A Gazeta do Povo acompanhou o treinamento do Jota na manhã de quarta-feira. O treinador não para. Rodeado por bolas e com o inseparável apito sempre a mão, o professor de Educação Física, formado em Londrina, só "sossega" quando o que pede é executado com perfeição. Antes disso, apitaços, berros e broncas. Muitas broncas. "Eu valorizo muito a semana de trabalho. Dar treino qualquer um dá. O que peço e trabalho hoje (olha a palavra aí de novo), posso cobrar no domingo", comenta, antes de destrinchar mais um mandamento: "Jogador meu não começa a semana como titular. Ele precisa ficar com uma dúvida na cabeça, senão treina meia boca."

A poucos dias do momento de decisão do regional, a briga ponto a ponto contra a dupla Atletiba pelo título obrigou o técnico a alterar a programação – o J. Malucelli é o terceiro colocado na segunda fase, com dez pontos, um atrás dos rivais. Treinos que definem a escalação da equipe são realizados em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, fechados para imprensa.

Há, ainda, a preocupação com uma possível queda de rendimento das principais peças do elenco, alvos de cobiça de diversos clubes no país. "Não pode baixar a guarda. Quem não render sai do time. ‘Desço o cacete’ neles", crava.

Niehues não se permite relaxar. Quando está em casa, passa horas em frente à tevê acompanhando programas esportivos. Gosta de ouvir jogadores, técnicos e dirigentes falar. "Nem tudo presta, mas consigo tirar coisas interessantes", explica ele, seis taças estaduais no currículo dirigindo os times de base de PSTC e Atlético. "Só consigo me desligar um pouco quando vou à Igreja", diz o evangélico, integrante da Comunidade Deus Vivo. "Trabalho muito a parte espiritual, independentemente da religião."

A entrevista, em um dos bancos de reservas do Ecoestádio, vai chegando ao fim. O copo de plástico com café está quase vazio. Há tempo, porém, para mais uma sentença emblemática. "Se chegarmos ao jogo com o Paraná (na última rodada) dependo somente da gente, vamos morrer para ganhar esse campeonato", avisa, tomando o último gole de café preto. Muricy Ramalho iria gostar de ouvir.

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