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Infra-estrutura

O elefante branco do Itiberê

Há aproximadamente um ano e meio, sobre o manguezal de Paranaguá, foi inaugurada uma invejável estrutura esportiva, com estádio de futebol para 22 mil pessoas, pista de atletismo, além de piscina térmica e coberta. Era um sonho. Tornou-se pesadelo.

O Complexo Fernando Charbub Farah – obra bancada pelo poder público municipal, calculada em R$ 8 milhões – está praticamente inutilizado, apesar da aparente estrutura impecável. Nada funciona direito na área, conhecida como "Gigante do Itiberê" (menção ao rio que passa ao lado) ou ainda "Caranguejão".

São problemas técnicos e de conservação – pontuados por um claro embate político. A atual administração municipal responsabiliza a gestão anterior pelos equívocos, justamente os idealizadores do complexo. Da mesma forma, quem saiu do governo ataca a suposta omissão dos que entraram.

"Herdamos um abacaxi. Sofremos com os erros do passado", conta Oriel da Costa Schneider, presidente da Fundação de Esportes de Paranaguá. "As coisas não estão funcionando por incompetência de quem comanda", rebate Marcos Roque, o ex-chefe da autarquia e espécie de "pai" da obra.

A crise começou a ganhar força quando a Federação Paranaense de Futebol (FPF) vetou o estádio para os jogos do Rio Branco no Estadual, no fim do ano passado. A comissão de vistorias da entidade considerou o gramado impróprio e pediu ainda a construção de mais uma saída para o público.

"Colocaram um tipo de grama que é impróprio, chamado esmeralda. De tão ruim, não resistiu ao tempo. Agora estamos buscando parecerias para plantar o modelo de maior qualidade, a bermuda", adianta Oriel. "Estragaram o piso com um monte de jogos de casados contra solteiros. Foi isso...", contra-ataca Roque.

A falta de calendário para o uso da piscina marca um outro round. Coberta, térmica e com 50 metros de comprimento (medida olímpica), ela estaria custando (dado oficial) R$ 20 mil por mês apenas para a manutenção. Assim mesmo, ninguém mergulha em uma das oito raias.

"Quando eu a vi pela primeira vez, meus olhos brilharam. Só depois descobri que houve um desacerto na construção. Faltam 3 metros de largura – 1,5 m de cada lado. Sem contar que com 1,80 m de profundidade, sequer podemos ensinar as crianças a nadar", lamenta João Carlos Frumento, diretor de esportes de Paranaguá. "Balela. Contratem professores de natação e ensinem a comunidade, que vem nadando no rio poluído", contesta o antigo gestor.

A Federação de Desportos Aquáticos relatou à Gazeta do Povo que seria possível disputar competições, mesmo com tais imperícias. Para isso, seriam necessárias algumas adaptações e a implantação das plataformas de salto. A deficiência apresentada no "Gigante" é similar à constatada na do UnicenP, uma das melhores de Curitiba. Assim mesmo, esta comporta competições com certa regularidade.

A pista de atletismo também não passa impune. Inaugurada em setembro de 2004, já não possui mais nenhuma serventia. Não bastasse cada raia medir 80 centímetros (o certo é 1,20 m), tem um percurso de 396 metros(quando o correto exige 400 m). Pior: o material sintético de revestimento do solo já está todo esfarelado e solto.

"Fizeram economia e colocaram apenas uma camada de borracha no chão. A nossa região, litorânea, pede um reforço. Seriam necessários quatro volumes. Custa caro? Sim, mas o que foi feito saiu muito pior", cobra o atual presidente da Fundação de Esportes. Ao seu estilo, Marcos Roque mais uma vez retruca. "Imagine se você deixa sua casa um ano sem limpar. Perde o patrimônio. Foi isso que fizeram. E mais: só faltou ter corrida de cavalo na pista. Assim não tem nada que resista."

O prefeito de Paranaguá, José Baka Filho (PDT), encaminhou nove representações no Ministério Público contra seu antecessor, Mário Manoel das Dores Roque (PSB), que administrou a cidade de 1997 a 2004 e é pai de Marcos Roque.

Mas nenhuma das denúncias protocoladas diz respeito ao imbróglio socioesportivo. Assim mesmo, acusa-se o grupo que comandou a cidade portuária de ter usado indevidamente dinheiro do Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e da Valorização do Magistério) para construir o complexo.

Enquanto isso, o Caranguejão busca hoje alguma dignidade abrigando torneios de xadrez, tênis de mesa, turmas de hapki-do e jogos do futebol amador.

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