
"Quando entro em campo é para conseguir mais um prato de comida". Para quem já viu a "fome" com que João Paulo corre atrás da bola, a revelação do volante paranista parece ainda mais força de expressão. Mas não é.
Ser hoje titular e destaque do renovado time do Paraná é bem mais do que o jogador poderia esperar. E daí vem toda essa dedicação. Não faz muito tempo, ele foi pedreiro, trabalhou em fábrica, fez de tudo até conseguir se tornar atleta profissional.
"Minha família é de classe baixa, minha vida nunca foi fácil. Estudei e sempre tive de ajudar meu pai e minha mãe. Sabe como é, sou o filho mais velho, então a minha responsabilidade é maior", diz João Paulo, 24 anos.
Se hoje ele pode dizer que realizou o sonho de criança, durante alguns anos o futebol esteve mais próximo de um pesadelo. Como quase todo jogador, o volante passou todo o tipo de enrascada até conhecer um nível mínimo de profissionalismo.
"Uma vez fui para Santo André fazer um teste na onda de um empresário. Cheguei lá e ele não apareceu. Dormi na rodoviária, e quando fechou, acabei indo dormir na rua. Minha mãe precisou emprestar um dinheiro do patrão da lanchonete em que ela trabalhava para comprar minha passagem de volta", lembra.
Decepções que, entretanto, nunca abalaram o garoto forjado na Suburbana de Curitiba. Nascido em Francisco Beltrão, mas curitibano por adoção (a família se mudou para a cidade quando ele tinha 9 anos), João Paulo despontou no Bairro Alto, time do bairro onde mora.
"Foi na Suburbana que me viram jogar. Do Bairro Alto fui para o São Caetano, Força Sindical, São José dos Campos (todos de São Paulo), Londrina, União Barbarense e Iraty", enumera.
No Azulão, ele foi destaque no Paranaense deste ano. Adir Leme, seu representante, procurou o Paraná e soube que o clube já estava interessado. Assim, foi fácil acertar o empréstimo até o final do Campeonato Brasileiro da Série B.
"É a minha grande chance na carreira, sem dúvida. Quero abraçar de todas as formas. Sempre esperei por essa oportunidade", diz.
No Paraná, ele mal chegou e já foi para campo, escalado para a estreia da equipe diante do Bahia.
Apesar do começo ruim do time do técnico Zetti (duas derrotas e um empate nas três primeiras partidas), conseguiu mostrar seu valor e ganhar a condição de titular absoluto, graças ao poder de marcação aliado ao bom passe. Estilo inspirado em Guiñazu, volante do Internacional.
"Gosto muito dele, um guerreiro, corre para dois, três companheiros. Ele é mais pegador do que eu, mas sai bastante para o jogo, do jeito que eu gosto de atuar", comenta João Paulo.
Com essa moral na Vila Capanema, já dá para planejar o futuro? Ele prefere "desconfiar" do novo status na carreira. "Só penso agora em colocar o Paraná na Primeira Divisão e tentar comprar uma casa para a minha mãe".







