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Balanço

“Nanicos” levam a China ao topo

Projeto esportivo que privilegia modalidades menos badaladas faz país asiático terminar, pela primeira vez, na liderança do quadro de medalhas

Wang Liqin, Ma Lin e Wang Hao no pódio individual do tênis de mesa, esporte dominado pelos chineses. | Teh Eng Koon/ AFP
Wang Liqin, Ma Lin e Wang Hao no pódio individual do tênis de mesa, esporte dominado pelos chineses. (Foto: Teh Eng Koon/ AFP)

Quando Berlim foi escolhida sede dos Jogos de 1936, a Alemanha queria mostrar ao mundo sua nova cara. Adolf Hitler via o palco perfeito para afirmar a pretensa superioridade da raça ariana. Uma falsa hegemonia que mergulharia o mundo na sua Segunda Grande Guerra três anos depois.

Quando Pequim foi escolhida sede dos Jogos de 2008, a China queria mostrar ao mundo sua nova cara. O governo local via o palco perfeito para mostrar as maravilhas que o socialismo de mercado proporcionou ao país, sem qualquer pretensão de superioridade. Embora ainda registre índices preocupantes de trabalho escravo e cerceamento às liberdades individuais, a única "ameaça" que o gigante asiático representa é a de se tornar a maior economia do planeta.

Mesmo com sutis semelhanças e diferenças significativas, as edições na Alemanha e na China têm algo marcante em comum. Foram as únicas, nos últimos 72 anos, em que o topo do quadro de medalhas não foi ocupado pela bandeira estrelada com listras dos Estados Unidos ou a foice e o martelo da União Soviética – em 1992, as 15 já ex-repúblicas socialistas soviéticas ainda competiram juntas e ficaram em primeiro, sob o nome de Comunidade dos Estados Independentes.

A vantagem chinesa no quadro final de medalhas é incontestável: 51 ouros, 21 pratas e 28 bronzes, 100 no total. Quinze ouros a mais que os norte-americanos, vencedores das três últimas edições dos Jogos.

Uma vitória que acima de tudo valoriza o modelo esportivo chinês, com centenas de centros de treinamento espalhados pelo seu território captando crianças de 4, 5 anos que tenham condições de brilhar em esportes individuais e "invisíveis". A explicação para um país que estreou nos Jogos apenas em 1984 ocupar, 24 anos depois, a liderança geral da competição.

A China não conquistou nenhum ouro em modalidades coletivas. O máximo que conseguiu foi uma prata no hóquei feminino e um bronze no vôlei feminino. Também fez mera figuração no atletismo e natação, disputas mais esperadas das Olimpíadas. Somados, os dois esportes distribuíram 81 medalhas de ouro. Apenas uma, a dos 200 m borboleta feminino, foi parar em pescoço chinês, o de Zige Liu.

Nos esportes "nanicos" – ao menos para o gosto ocidental –, contudo, foi raro não ver a bandeira vermelha e amarela no alto do pódio. O país levou 7 das 15 medalhas de ouro no levantamento de peso e 7 de 8 nos saltos ornamentais. No tênis mesa, modalidade mais popular da China, os anfitriões conquistaram todas as medalhas possíveis: ouro, prata e bronze no individual masculino e feminino; ouro nas competições por equipes. Só não ocupou os outros dois lugares no pódio na disputa coletiva porque o COI permite a inscrição de apenas um time por nação.

Na única briga direta com os norte-americanos, a China também levou a melhor. Sua contestada equipe de ginástica artística – suspeita de usar atletas com menos de 16 anos, idade mínima permitida – abocanhou nove ouros, contra apenas dois do time norte-americano.

Além disso, contou com o fracasso dos Estados Unidos no atletismo, modalidade em que a ainda maior nação esportiva do planeta pretendia tirar a diferença no número de ouros. O país deixou Pequim falando em profunda renovação para os Jogos de Londres. Reflexo dos tímidos sete ouros conquistados na pista e no campo – um a menos do que Michael Phelps conquistou sozinho nas piscinas.

O desempenho pífio no Estádio Nacional fez os americanos adotarem uma prática digna dos tempos da Guerra Fria. Na imprensa do país, a consagrada classificação pelo número de ouros foi trocada pela contagem total de medalhas. Assim, no seu território, os EUA venceram mais uma. Mas o resto do mundo sabe quem foi o verdadeiro ganhador dos Jogos Olímpicos de 2008.

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