
Londres abre oficialmente hoje a partir das 17 h (de Brasília) a 30.ª Olimpíada da era moderna preparada para abrigar a mais organizada das edições dos Jogos, mas com o Reino Unido pressionado a retomar o crescimento econômico e com o orçamento sob críticas de economistas.
Em entrevista coletiva ontem, o primeiro-ministro britânico David Cameron transmitiu o clima que a cerimônia de abertura terá para o governo: o de uma festa comedida.
"Sim, quero medalhas para a Grã-Bretanha. E não haverá apoiador mais apaixonado da delegação britânica do que eu. Mas tenho um trabalho a fazer neste verão [no Hemisfério Norte], e uma grande parte dele é apoiar os negócios britânicos", declarou o chefe do governo do Reino Unido em uma cúpula com investidores para debater como os Jogos poderão capitalizar mais recursos ao país.
O discurso tem um por quê. O Reino Unido enfrenta a pior recessão das últimas sete décadas. No primeiro trimestre deste ano, o balanço comercial do país apresentou queda de 0,2%, índice influenciado pela crise da zona do euro e considerado péssimo por Cameron.
Com tal cenário, o 1 bilhão de libras (quase três vezes a mais em reais) que a Grã-Bretanha espera lucrar por alojar a Olímpiada é mais do que bem-vindo, mesmo representando quase nove vezes menos do que o investimento oficial para a abrigar a disputa.
Além de catalisar novos negócios, a Olimpíada também permitiu que Londres revitalizasse uma de suas áreas mais pobres, o bairro de Stratford, onde está o Parque Olímpico. Dois pontos que aliviam as críticas ao fato de o país realizar os Jogos justamente em um período de crise. Para os especialistas econômicos, entretanto, a Olimpíada pouco ajudará na luta contra recessão.
"Duvidamos de que o slogan mais rápido, mais alto, mais forte possa ser aplicado ao impacto econômico dos Jogos", aponta estudo recente da Capital Ecomomics, que contabilizou a contribuição dos Jogos em apenas 0,1% do Produto Interno Bruto britânico em 2012.
Além da estrutura montada para a Olimpíada, a economia de 500 mil libras do orçamento é o que mais orgulha o Logoc o dinheiro foi depositado em um fundo de contingência para ser utilizado em caso de necessidade durante a competição.
Entretanto, pesquisa da Universidade de Oxford publicada há um mês mostra que o orçamento final, de 9,3 bilhões de libras, calculado em 2007, teria extrapolado em quase 100% os 4,2 bilhões de libras previstos em 2005, quando Londres foi confirmada como sede de 2012.
O tabloide Daily Mail é mais agudo na crítica. O jornal chega a calcular em 24 bilhões de libras o total gasto na Olimpíada, levando em conta os 6,5 bilhões de libras usados nas melhorias do sistema de transporte de Londres para atender à demanda dos Jogos. "Os custos são obscuros e continuarão sendo", disse à AFP Julian Cheyne, membro do Games Monitor, uma associação de "vigilância cidadã" dos Jogos Olímpicos.
Só para comparação dos gastos, a edição carioca de 2016 estaria hoje orçada em R$ 38 bi.
Comitê cria "atmosfera" de suspense
Marco Sanchotene, especial para a Gazeta do Povo
Apesar de mais de 100 mil pessoas terem visto os ensaios para a cerimônia de abertura da Olimpíada até agora, pouco se sabe sobre o que o diretor de cinema inglês Danny Boyle preparou para o espetáculo de hoje.
Assim que detalhes começaram a vazar no começo do mês, o comitê organizador dos Jogos em Londres decidiu criar a campanha Save the Surprise (Guarde a Surpresa) para os sortudos que puderam ver o show antes da hora não comentarem nada até hoje. Na quarta-feira, cerca de 60 mil pessoas conferiram mais um teste para o evento, que deve ser acompanhado por até 1 bilhão de pessoas no mundo todo.
O que foi oficialmente divulgado até agora e que o espetáculo de 27 milhões de libras (cerca de R$ 84 milhões) foi batizado de Isles of Wonder (Ilhas da Maravilha) e inspirado na peça A Tempestade, de Shakespeare. Ele começa às 17 horas (de Brasília), com as badaladas do maior sino afinado harmonicamente do mundo que tem dois metros de altura por três de largura e pesa 23 toneladas.
Cerca de 10 mil artistas voluntários fazem parte da apresentação, que também terá a participação dos 16 mil atletas das 204 nações que competem nos Jogos.
Também já foi revelado que o palco de 15 mil metros quadrados no Estádio Olímpico foi transformado em uma paisagem rural britânica.
Boyle, ganhador do Oscar de melhor diretor pelo filme Quem Quer Ser um Milionário?, de 2008, deve usar vários animais campestres. Só que a maior parte da apresentação de três horas permanece um segredo.
De acordo com a imprensa, os telões do estádio exibiram a mensagem Save the Surprise durante os ensaios de quarta e segunda-feira. Há relatos de que alguns poucos vídeos feitos no teste e publicados ontem no YouTube foram retirados do ar a pedido do comitê organizador. Trechos da apresentação, como o acendimento da pira, não foram ensaiadas na frente do público de propósito, o que aumenta ainda mais a aura de mistério.
Ninguém sabe ao certo também qual será a trilha sonora do evento, cuja direção ficou a cargo do duo de música eletrônica Underworld, dos britânicos Rick Smith e Karl Hyde parceiros de Boyle em outros projetos, como o filme Trainspotting.
Rumores dão conta que grupos famosos como os Rolling Stones, The Who e Coldplay podem dar uma canja. Outro forte boato é que o ex-Beatle Paul McCartney vai fechar a apresentação com Hey Jude.
O que dá para ter certeza é que quem subir ao palco vai ser ouvido por grande parte da cidade. Isso porque o sistema de som tem nada menos do que um milhão de watts, o dobro do usado no festival de Glastonbury, o maior do Reino Unido, que atrai cerca de 150 mil pessoas todo ano.
5 coisas sobre a abertura
5 - Mistério: os elementos de uma cerimônia são sempre cercados de suspense: quem participará, que recursos serão usados e como a pira será acesa.
4 - Bond, James Bond: o ator Daniel Craig, intérprete do agente 007, está cotado para participar da festa de hoje.
3 - Ilustre: em Atlanta 1996, o ex-boxeador Muhammad Ali, que sofre do mal de Parkinson, foi o responsável por acender a pira.
2 - Corre, galera!: a organização de Londres pediu para os atletas do desfile de delegações apertarem o passo, para que a cerimônia não demore muito.
1 - Bandeira olímpica: três atletas desfilarão e participarão dos Jogos sem país. Eles são de nações sem comitê olímpico, no caso o Sudão do Sul, recém-independente, e dois de Curaçau, que passou por reformas administrativas e deixou de integrar as Antilhas Holandesas, extintas.



