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Paranaense

Operários da bola movem a Segundona local

Torneio deficitário, com dez clubes pequenos do estado, se torna chance para boleiros realizarem sonho na profissão

O meia Marquinhos Alagoano, hoje no Foz , diz ter chegado a ganhar R$ 16 mil por mês em Iquitos, cidade encravada na Amazônia peruana | Christian Rizz/Gazeta do Povo
O meia Marquinhos Alagoano, hoje no Foz , diz ter chegado a ganhar R$ 16 mil por mês em Iquitos, cidade encravada na Amazônia peruana (Foto: Christian Rizz/Gazeta do Povo)
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A série B do Campeonato Para­­naen­­se começa amanhã com dez clubes e 240 jogadores que já rodaram o país por equipes pequenas, com direito a passagens por mercados inexpressivos da bola (como Moçambique e Peru) em busca da realização profissional. Para esses atletas, que vivem uma realidade muito distante dos clubes de elite – um exemplo são os salários, cujas folhas somadas não chegam nem à metade do R$ 1,4 milhão pago por mês somente pelo Coritiba a seu elenco –, o sonho do futebol ainda está para ser conquistado.

O meia Marquinhos Alagoano encarna essa realidade. Aos 27 anos, o Foz é a nona equipe do atleta, que saiu de Maceió ainda adolescente, aos 13 anos, para tentar a vida no futebol. "Não me arrependo da escolha que fiz. É claro que tenho saudades dos meus pais e dos meus irmãos. Mas minha esposa sempre está comigo", conta.

No começo do ano passado, ele encarou a maior aventura da carreira. Levado por um grupo de empresários canadenses, desembarcou na Amazônia peruana, onde jogou pela equipe do Colégio Nacional Iquitos. Apesar do isolamento da selva e da pobreza da cidade de mesmo nome, o "cigano da bola" diz que não pensaria duas vezes em retornar se surgisse a oportunidade.

"Lá eu recebia R$ 16 mil por mês. Um salário desses aqui, só jogando na série A ou B do Campeo­­nato Brasileiro", argumenta o meia, que pretende fazer da Se­­gundona do Paranaense o trampolim para uma equipe de maior representatividade. "Como juvenil e júnior, joguei pelo Sport Re­­cife e Bahia. E quem já jogou em time grande, mesmo que no começo da carreira, sempre quer voltar", resume.

Esse, aliás, é o objetivo de todos os jogadores do nanico torneio. Mesmo para outros que já estão com a idade mais avançada para o esporte, como o zagueiro Carlão, do Arapongas, de 28 anos.

"Pretendo mostrar meu futebol e ir para um clube maior. Até porque já estou quase passando da ida­­de de me firmar em uma equipe gran­­de", conta o boleiro, paulista de Taquaritinga, que jogou pela Cal­­dense-MG no 1.° semestre.

Das sete equipes dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná em que atuou, a de maior representatividade até agora na carreira de Carlão foi o Botafogo de Ribeirão Preto-SP. "Quem sabe o Arapongas não seja a largada para eu chegar a um clube grande?", confia o zagueiro.

Rodolfo, goleiro do São José, de São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, não lamenta o fato de ainda não ter vestido a camisa de um time grande. "Sou um vencedor. Sei que vou chegar lá. E se não chegar, fico de cabeça erguida por ter tentado", resume o goleiro, que nos últimos anos passou por times pequenos do Rio Grande do Sul até chegar ao São José há pouco mais de um mês.

De uma família de agricultores do interior da Bahia, caçula de nove irmãos, Rodolfo sabe reconhecer o que o futebol lhe trouxe, mesmo que sem os holofotes dos clubes top. "Até três anos atrás, minha família tinha outra visão sobre minha vontade de buscar um lugar no futebol. Mas hoje tenho orgulho de poder ajudá-los", revela o jogador, que deposita praticamente todo o salário na conta de um dos irmãos na Bahia.

Ao comentar que até tentou ganhar a vida como vendedor de loja antes de se dedicar exclusivamente ao esporte, o camisa 1 explica o que o levou a ser atleta. "Eu não tenho o futebol como glamour. Tenho como meu trabalho. Assim como o mecânico conserta carro, eu jogo bola. É o que eu gosto de fazer", resume.

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