
As paranaenses Amanda e Mayara Fier são exceções na seleção feminina de handebol. As duas estão entre a minoria campeã mundial que defendem clubes brasileiros. Das 16 atletas que ficaram com o ouro no Mundial da Sérvia, em dezembro, apenas quatro atuam em solo brasileiro, as demais, seguem jogando na Europa.
Ao se tornar uma "legião estrangeira" a seleção chegou ao ponto de superar equipes do Velho Continente, mas a emigração do elenco teve como efeito colateral a exposição do desnível técnico e financeiro entre o time nacional e o handebol feminino profissional no país.
Prova disso está na principal disputa em solo brasileiro, a Liga Nacional. A competição tem mudado de formato nos últimos anos para atender às necessidades financeiras das poucas equipes que a disputam. No ano passado, o campeonato foi dividido em duas fases regionais em que os dois melhores de cada grupo seguiam para as semis isso que dos 11 times, apenas um, de Goiás, não estava nas regiões Sudeste ou Sul para diminuir os custos com transporte e estadia.
"O handebol brasileiro está deficitário. Estou preocupado porque todo mundo só quer investir em futebol por causa da Copa do Mundo. Nem mesmo tendo uma atleta campeã mundial formada aqui, a Deonise, conseguimos atrair mais investidores", diz o diretor técnico do Cascavel/FAG, Neudi Antonio Zenatti. Para manter um grupo de 18 jogadoras no ano, ele precisa de um orçamento de R$ 300 mil. O valor equivale a três dias de salário do Neymar no Barcelona.
A armadora da seleção Amanda, 23 anos, recusou propostas da Europa e continua jogando pelo Concórdia (SC), mas por questões pessoais.. "Faço faculdade e me caso em março", conta a atleta natural de Iporã, interior do Paraná. A atleta reconhece que o nível técnico dos times da Liga Nacional ainda é muito mais baixo que o das principais equipes do mundo. "A Liga tem melhorado conforme os anos, mais ainda não há como comparar", fala.
No ano passado, a Liga Nacional feminina durou três meses. O curto calendário é um dos fatores que afasta patrocinadores e reduz o interesse de investidores. Para resolver esse impasse, a CBHd recorreu à esfera pública: pediu mais investimentos ao Ministério do Esporte para dar suporte às Ligas masculina e feminina, para que este ano o torneio comece em agosto, com duração de cinco meses, com 12 times em cada naipe.
A intenção é que a verba cubra transporte, estadia e alimentação das equipes. Uma reunião com os clubes está prevista para final de abril e nem todos os custos estão garantidos até agora. "O momento é manter acesa essa chama do título mundial para conquistar mais apoiadores", afirma o presidente da Confederação Brasileira de Handebol (CBHd), Manoel Luiz Oliveira.
O vice-presidente da Federação Paranaense de Handebol, Roberto Ferreira Niero, destaca que o esporte ainda não conseguiu despertar o interesse da iniciativa privada. "Assim, 95% dos times acabam sendo bancados por prefeituras", ficando à mercê de orçamentos públicos. "A Liga é pobre, falta estrutura e não temos como vendê-la como produto televisivo, por exemplo. Faltam as estrelas. A confederação não tem captado verba para a Liga, vai tudo prioritariamente às seleções, em uma divisão extremamente desigual. Tem de lembrar: essas meninas que hoje estão na Europa começaram em algum lugar", diz o supervisor do Copel/Unipar/Umuarama/Paraná, Newton Trindade Junior.
O time, de orçamento de R$ 300 mil e fundado em Cianorte, mudou-se há dois anos para Umuarama, onde teria mais recursos para seguir jogando.
"Perdemos o filé mignon", diz treinador
No masculino, uma das principais equipes do país, com sede em Londrina, anunciou seu fim em agosto do ano passado, após 15 anos de existência, tendo conquistado dois títulos na Liga Nacional, em seis finais disputadas. Também foi campeão Pan-Americano em 2010 e formou vários jogadores para a seleção brasileira. A causa da morte: falta de investimento.
"Este é o momento do handebol nacional. E nós, de Londrina, ficamos de fora. Uma pena para o Paraná que não houve esforço para não deixar a equipe morrer. Esse título mundial da seleção feminina, a Confederação buscando verba para as Ligas Nacionais... Estivemos na batalha por 15 anos e estamos fora na hora do filé mignon", lamenta o técnico Giancarlo Ramirez, que comandava o time londrinense e foi um dos fundadores da equipe.
Faltaram R$ 30 mil para completar a cota de contrapartida social que o time londrinense teria de retornar à prefeitura da cidade, afirma Ramirez. Da verba que a prefeitura concedia ao projeto de alto rendimento, precisaria haver um retorno não pecuniário, como trabalho social e parcerias com médicos, fisioterapia ou academia, por exemplo, que totalizassem o valor estipulado em contrato. Mas, em 2013, o time não conseguiu bater essa cota.
Com o fim da equipe, Ramirez abriu um restaurante no Centro de Londrina. "Tínhamos três pilares que sustentavam o time: a prefeitura, o patrocinador master, que era a Sercomtel [empresa de telefonia, também municipal] e a Unopar [universidade local]. Quando a nova gestão da prefeitura assumiu, diminuiu nossa verba de R$ 230 mil para R$ 120 mil, isso quando eu já não tinha mais patrocinadores para pagar de volta a parte das contrapartidas que devia ao município. A Sercomtel já tinha saído e a Unopar foi vendida para um grupo empresarial que não estava interessado em apoiar o time já em 2012", lamenta o treinador.
Da CBHb, Ramirez conseguiu o benefício de manter o direito de inscrever uma equipe na competição nacional. Com esta carta na manga, tentou montar um novo time em outra cidade. Chegou próximo de um acerto com um município do interior paulista, mas não deu certo. Decidiu então ficar em Londrina, ajudando a federação estadual da modalidade até aparecer uma nova oportunidade no esporte.
Agora, o Paraná tem apenas um time na Liga Nacional Masculina, o Maringá, que voltou à competição no ano passado, depois de seis anos fora da disputa.



