
Para uma Copa do Mundo concebida sob forte carga política, um ato político para celebrar a entrega do primeiro estádio. O Castelão abre hoje, em Fortaleza, às 19 horas, uma maratona de 12 meses, período em que o Brasil promete pôr para funcionar os 12 locais de jogos do Mundial de 2014. Os cearenses, porém, não verão jogadores, bola ou chuteiras no recém-plantado gramado. A estrela da festa será a presidente Dilma Rousseff e o coadjuvante, o cantor Fágner. Futebol, só no fim de janeiro.
Fazer a primeira inauguração em Fortaleza é uma vitória política do Palácio do Planalto. O Castelão é administrado pelo governo do Ceará, chefiado por Cid Gomes, do PSB, partido que Dilma tenta manter como aliado para 2014, especialmente após alguns embates diretos com o PT nas eleições municipais a capital cearense foi uma dessas cidades.
O triunfo petista é reforçado pelo fato de o Castelão ser entregue cinco dias antes do Mineirão, estádio cuja reforma teve participação direta do senador tucano Aécio Neves, virtual oponente de Dilma nas urnas daqui a dois anos.
Para inaugurar a primeira arena da Copa, o governo cearense precisou acelerar as obras. A previsão inicial era abrir o estádio dia 30 de dezembro, depois do Mineirão. Até sexta-feira ainda eram ajustados detalhes, como instalação dos telões. O que certamente não ficará pronto serão as vias de acesso.
"Lamento profundamente, mas é possível que o torcedor, nos primeiros meses, enfrente transtornos para chegar ao estádio", afirmou o secretário estadual de Copa, Ferruccio Feitosa, sem deixar de politizar o assunto.
"As vias de acesso competem à prefeitura, que infelizmente não andou no mesmo ritmo que as obras do estádio. O prefeito eleito [Roberto Cláudio] é do mesmo partido que o governador e ele já assumiu o compromisso de entregar o entorno o mais rápido possível", acrescentou.
O novo Castelão terá 67 mil lugares e foi construído ao custo de R$ 518,6 milhões "Sem nenhum aditivo de valor ou prazo", ressalta Feitosa. A gestão será feita pela Arena Castelão, uma sociedade de propósito específico. Duas secretarias de estado e um shopping atacadista também serão instalados no imóvel.
Para jogar lá, Ceará e Fortaleza pagarão de aluguel 7% (público inferior a 15 mil pessoas) ou 10% (público superior a 15 mil pessoas) da renda bruta. É o mesmo porcentual pago no velho Castelão, o que faz o governo estadual crer que o preço do ingresso será mantido mesmo com a nova arena. "Não há justificativa para majorar os preços", diz Ferruccio.
Os dois grandes clubes do estado farão sua estreia na nova casa no dia 27 de janeiro, sob os olhos do secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke. O intervalo de 42 dias entre a inauguração e os primeiros jogos é motivado pelo gramado, plantado em novembro, mas com a necessidade de um período de dois meses para maturação. Uma rodada dupla pela Copa do Nordeste, que começa com Ceará x Bahia e termina com Fortaleza x Sport, abrirá a programação. Sem divisão de torcidas.
"A gente não quer ter espaços fixos para torcidas. Queremos todo mundo junto. Temos uma estrutura ideal para garantir comodidade e segurança", disse o presidente da Arena Castelão, Silvio Andrade, à TV O Povo.
A separação da inauguração em duas partes agrada ao Comitê Organizador Local (COL) e à Fifa. As entidades recomendam que os estádios tenham eventos-teste de futebol e também de shows, atendendo ao conceito multiuso das arenas.
Para os estádios incluídos na Copa das Confederações, caso do Castelão, a exigência é que a entrega dos aparelhos ocorra, no máximo, até 15 de abril e os testes sejam realizados até três semanas antes do início do torneio, quando a Fifa passa a administrar as praças esportivas.
O Castelão vai receber três
jogos da Copa das Confederações: Brasil x México (19/6), Espanha x representante da África (23/6) e a semifinal entre o campeão do grupo espanhol e o segundo colocado da chave da seleção brasileira (27/6). Na Copa do Mundo serão seis partidas, incluindo a segunda do Brasil e a quarta de final da seleção, desde que ela vença o seu grupo.
"Desde 2007 demonstramos o desejo de abrigar jogos importantes. Temos a sensação do dever cumprido. Será importante para a economia do Ceará, para o estado se projetar internacionalmente e fortalecer o turismo", discursa Feitosa, sem verbalizar o capital político na carona do extenso calendário.



