
Emanuel completou ontem um ano de parceria com o jogador Alison. Naquele 22 de janeiro de 2010, estreava com vitória e alívio após uma decisão muito difícil. Desfazer a mais vitoriosa dupla do vôlei de praia do país, por amor. Para ficar ao lado da esposa Leila no Rio de Janeiro, deixou João Pessoa onde treinava com Ricardo.
Deste então passou por uma intensa adaptação técnica e pessoal. Nas areias, mudou seu estilo. Em casa, ganhou um filho. "Reciclado" e mais tranquilo, o atleta curitibano comenta, nesta entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, o atual momento profissional e pessoal.
Você abandonou uma parceria de extremo sucesso para conciliar a vida privada e os treinos. Um ano depois, qual a avaliação que você faz dessa mudança?
Estou realizado, vivendo um momento feliz. Minha grande conquista em 2010 foi o Lukas, de quatro meses. Ele é perfeito. Era um sonho meu e da Leila. Queríamos muito consagrar nosso casamento com um filho. Profissionalmente aceitei o desafio com uma parceria mais jovem. O Alison é quase doze anos mais novo do que eu (tem 26, enquanto Emanuel tem 37). Ele é um ícone dessa nova geração. Consegui me adaptar e ele também se adaptou ao meu estilo. Minha experiência e a jovialidade e a força dele se juntaram. Isso foi muito importante em 2010.
Houve uma reflexão da sua parte no sentido de que a dupla com Ricardo estava desgastada ou sem grandes objetivos?
Fomos uma parceria que quebrou muitos paradigmas, como o fato de uma dupla não render em dois ciclos olímpico seguidos. Fomos campeões [Atenas-2004] e medalha de bronze [Pequim-2008]. Acredito que teríamos mais motivação ainda. Agradeço ao Ricardo por tudo, mas estou muito mais feliz pessoalmente e essa parte não me deixou pensar muito no outro lado. Aqui perto da Leila estou indo para a quadra tranquilo. Como atleta sempre fui muito egoísta, mas passei 2009 pensando muito na Leila. Ficava longe e isso não atrapalhava o lado profissional e sim o pessoal.
No processo de mudança, em janeiro do ano passado, você anunciou como treinadora a Letícia Pessoa (duas vezes vice-campeã olímpica com Adriana Behar / Shelda). No aspecto técnico, qual o ganho que você teve com a mudança?
Gosto mesmo de renovar. Não que ela vá me dar muitas coisas novas. Mas temos um sistema de treinos diferenciado, com mais saque, mais defesa e isso me motivou. Essa mudança de equipe é positiva. Absorvi tudo que podia da minha equipe antiga e estou fazendo o mesmo com essa.
Qual foi a maior dificuldade neste período? A adaptação técnica e pessoal?
O que mais senti foi a mudança de estilo de jogo. Em 2010 o jogo mudou, ficou mais veloz e mais forte e tive de me adaptar a isso. O Alison jogou muito bem e precisei me preparar de uma forma diferente para aguentar jogando o ano todo. Consegui evoluir meu chip de um modelo 2003 e transformar em 2010 [risos].
Você e o Ricardo tinham um estilo copiado por muitos rivais? Como foi para se libertar daquela velha fórmula?
Eu sou um jogador que gosta de agregar coisas novas. De cada parceiro absorvia isso e agora estou agregando essa vivacidade, essa energia. O Alison é rápido e estou absorvendo essa força mais jovem, uma ativação maior. Pessoalmente temos uma relação muito boa, conversamos sobre tudo. Ele gosta muito de música e até nisso fiquei mais jovem. Reciclei. E foi bacana porque as músicas que ele ouve são as mesmas que o meu filho Mateus [13 anos] escuta.
Apesar da evolução, com vitórias em etapas do nacional, você não alcançou o topo do ranking. Por quê?
Confesso que me surpreendi muito com o vice-campeonato mundial. Com uma nova parceria você nunca sabe como vai enfrentar o tempo todo longe do Brasil, como vai lidar com as vitórias e derrotas, o tempo de hotel e até pequenas coisas, como perder bagagem, por exemplo. Uma vez fiquei sem a minha mala e o Alison tentou me emprestar as roupas dele. Claro que não deu certo, ele tem 2,03 m e eu 1,90 m [risos]. Essa amizade entre a dupla é necessária. Neste contexto geral acho que fomos muito bem. Só não fomos campeões mundiais porque os americanos (Todd Rogers e Phil Dalhausser) venceram nove das 14 etapas. Fizemos quatro finais contra eles e perdemos todas, mas sempre evoluindo o nosso jogo e serviu para aprendermos o que temos de melhorar esse ano.
Qual a trajetória traçada para chegar novamente à Olimpíada?
A partir de abril serão 16 etapas do circuito mundial e mais 8 do circuito de 2012. Serão 24 campeonatos e todos contam pontos. Nas classificações anteriores podíamos tirar só os oito melhores resultados. Agora a disputa é muito mais intensa pois decidiram valorizar todas as etapas. É muito pesado. Precisamos estar muito bem preparados até junho de 2012. O tempo todo. Será um desafio e tanto para a nossa comissão técnica, especialmente para o preparador físico, Ricardo Inocêncio.
Financeiramente, valeu a pena? Você não precisou abrir mão de patrocinadores ao abandonar uma "sociedade" tida como imbatível?
Nessa hora é que a gente vê que a parceria é importante. Entre atletas, CBV [Confederação Brasileira de Voleibol] e patrocinadores. Consegui ficar com todos os patrocinadores, que permaneceram também com o Ricardo. Nem caracterizo como patrocinadores e sim como parceiros, pois estamos há sete anos juntos. Consegui prorrogar no ano passado e praticamente fechar para este ciclo olímpico de 2012.
E quais são seus planos para 2016?
Reconheço muito bem o meu momento. Darei o meu melhor até 2012 e depois vou reavaliar, para em 2014 ter uma posição. Vou estar lá [nos Jogos do Rio], na parte administrativa ou jogando. Estarei com [pausa] 42 anos!
Como é a sua rotina como pai?
Eu gosto muito. A relação com o filho rejuvenesce. Brinco bastante. Ele é muito tranquilo. Quando estou com o Lukas estou por inteiro.
Como está o seu projeto social em Curitiba?
Estou muito feliz com os Leões do Vôlei. O projeto está completando três anos. Trabalhamos em oito escolas em oitos regiões diferentes de Curitiba e com cerca de 50 crianças em cada uma, ensinando o vôlei. Eu e o Giba planejamos muto isso e estamos satisfeitos. A Mate Leão [patrocinadora] tornou-se propriedade da Coca-Cola e a intenção agora é ampliar para mais dois núcleos este ano.




