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Série B

Sem dinheiro, Paraná tem de “abraçar o diabo”

Orçamento enxuto obriga o Tricolor a manter parcerias com empresários, perdendo a autonomia sobre o departamento de futebol

Marcos Amaral (esquerda), conversa com o vice-presidente Aramis Tissot (centro) e o diretor de futebol Guto de Mello: empresário é um dos grandes parceiros do clube | Antonio More/ Gazeta do Povo
Marcos Amaral (esquerda), conversa com o vice-presidente Aramis Tissot (centro) e o diretor de futebol Guto de Mello: empresário é um dos grandes parceiros do clube (Foto: Antonio More/ Gazeta do Povo)

O Paraná é um clube dependen­­te. A autonomia da diretoria em setores importantes do clube foi reduzida consideravelmente. O Tricolor convive, no futebol pro­­­­­fissional e nas categorias de base, com a incômoda situação de ser refém de empresários.

Ouça trechos da entrevista com o vice-presidente de finanças, Celso Bittencourt

Conhecidos da torcida e há tempos circulando pela Vila Ca­­pa­­nema, Marcos Amaral e Luiz Alberto Oliveira têm, juntos, 14 jogadores no elenco, ou 40% do total. A maioria é de titulares.

"Hoje são bem poucos [jogadores que são do Paraná]. A maio­­ria chega com a condição de, se for vendido enquanto estiver aqui, o clube ganha uma participação", confessa Celso Bit­­ten­court, vice-presidente de finanças do clube.

A influência dos empresários é tanta que, em muitos casos, além de bancar contratação dos boleiros, eles ficam responsáveis por pagar grande parte dos salários deles. O goleiro Zé Carlos e o meia Dinélson, ambos ligados a Luiz Alberto, integram esse grupo. "Não sou empresário sugador. O Paraná tem livre arbítrio para decidir. Sou um parceiro", diz Marcos Amaral, que representa, entre outros, o meia We­­lington, o lateral-direito Lisa e o atacante Giancarlo.

A influência, contudo, nem sempre foi tão grande. A dupla de empresários esteve escanteada no início do ano, voltando a ga­­nhar poder após o rebaixamento do clube no Estadual. "Tínha­mos de me­­lhorar o time", justifica Bit­­ten­­court.

A saída do volante Júnior Urso, em agosto, é um caso emblemático da dependência paranista. Mesmo com contrato até o fim do ano, o jogador se transferiu para o Avaí sem qualquer res­­sar­ci­mento financeiro para o Tri­color. "Emprestamos ele para o Paraná, mas o Avaí pediu o jogador de volta e ele quis ir. Inúmeros outros jogadores eu segurei aqui", se defende Oliveira.

O Paraná também não possui autonomia sobre o Ninho da Gralha, o centro de treinamento destinado à revelação de jogadores. Após a terceirização das categorias de base, no acordo para a construção do CT, em 2008, 50% dos direitos econômicos de todos os garotos formados no clube ficam com a em­­presa que idealizou o local, co­­man­dada pelo vice-presidente de patrimônio, Renê Bernardi.

"Confiamos nele, mas temos in­­certezas sobre quem está lá, sobre onde os jogadores estão re­­gistrados... Porém, sem ele, nunca teríamos um complexo daquele", afirma o vice de finanças.

Bernardi, por sua vez, diz ainda estar no prejuízo com a parceria. "Eu que sou refém do Paraná, porque são eles que decidem quando vender. Fiz um investimento e o clube está pagando em prestações. Ainda não recuperei o que investi", diz.

Para a cúpula paranista, o clube só será independente de fato com a chegada de mais patrocinadores. "A gente pode até se abraçar com o diabo, mas não podemos virar a b... para ele. Tem de ser um abraço de frente, meio de longe", ironiza Bit­­ten­­court.

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