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Entrevista

Só caso extremo fará Fifa rever lei do impedimento, diz médico

Especialista diz que solução é mudar a regra ou recorrer à tevê

Intrigado pela lei do impedimento, o espanhol Francisco Maruenda estudou por 16 anos (de 91 a 2007) a viabilidade fisiológica da sua aplicação em campo. Por e-mail, o médico apaixonado por futebol respondeu à Gazeta do Povo sobre os principais pontos desse trabalho.

O que lhe motivou a fazer um estudo sobre o impedimento no futebol?

Em 1991 estava vendo pela TV uma partida pela Copa dos Campeões (Real Madrid x Spartak Moscou). O Real marcou um gol que foi anulado por impedimento. Os comentaristas da TV concordaram na hora. Eu também escutava o jogo pelo rádio, cujos comentaristas concordaram com o impedimento. A jogada foi repetida por câmeras localizadas em três diferentes ângulos, e todas elas acusavam a posição irregular do jogador do Real. Mas em uma quarta repetição em um novo ângulo deu para perceber com toda a clareza que não havia impedimento, pois um jogador do Spartak dava condição de jogo ao atacante espanhol. O gol, portanto, tinha sido mal anulado pelo árbitro assistente. Neste dia começou a minha investigação, pois pensei que poderia haver algo que impedia o olho humano de assinalar corretamente o impedimento em certas ocasiões.

Qual sua conclusão?

Hoje em dia não é possível julgar sempre corretamente todos os lances de impedimento em tempo real. De acordo com a regra, deve ser observado o exato momento do passe da bola para o atacante – exatamente nesse momento, nunca no seguinte. Mas acontece que quando a bola é passada, o olho humano necessita realizar movimentos oculares para detectar a localização geográfica de todos os jogadores que intervêm no lance. Para realizar essa ação, o olho precisa de aproximadamente 230 milésimos de segundo. Mas enquanto esse tempo transcorre, os jogadores, que possuem velocidade e aceleração para mudar de lugar no campo, já não estão mais em sua posição original (no momento do lançamento da bola), mas em lugares diferentes. O assistente teria de ver e analisar a posição de pelo menos dois jogadores da equipe que ataca, dois da que defende e a bola.

A solução seria apelar para a ajuda eletrônica?

Hoje em dia só há uma forma possível de ver e julgar um impedimento, que é quando se repete e congela a imagem pela TV no momento do lançamento. Nesse momento buscamos com os olhos a localização geográfica exata dos jogadores e a relação entre eles, verificando se os atacantes participaram ativamente da jogada ou não. Mas isso impede o julgamento em tempo real, e não podemos esquecer que é justamente isso que exige a regra. Essa ajuda tecnológica só poderia acontecer se houvesse a repetição da imagem da TV e se alguém, como o quarto árbitro, dissesse se houve ou não o impedimento.

Considerando a impossibilidade de aplicar a regra como ela é hoje, você acredita que seria melhor mudá-la?

Esta regra deveria ser eliminada, com toda a repercussão que isso traria, ou modificada, utilizando a repetição das jogadas da TV. Mas isso traria um problema, pois só se poderia aplicar a regra em jogos de futebol profissionais. O que seria feito nas categorias amadoras? Seria necessário muito dinheiro para adotar esse sistema.

Como o seu estudo repercutiu junto à Fifa?

Ela não gostou das mudanças propostas. Mas cedo ou tarde terá de reconhecer o seu erro e modificar ou eliminar a regra. O motivo a desencadear isso provavelmente virá de alguma final importante, como em uma decisão de Copa do Mundo, quando alguma seleção ganhar com um gol impedido. Aí talvez alguém se lembre dessa investigação e pressione a Fifa a eliminar o impedimento. (FM)

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