
Sentado em uma cadeira de sua academia, a Universidade da Luta (UDL), em Curitiba, Maurício Rua não consegue esconder a ansiedade. De frente para um octógono, o campeão dos meiopesados do Ultimate Fighting Championship apenas assiste ao treinamento de alguns de seus pupilos. Por ordem médica, Shogun apelido do atleta não está autorizado a fazer o que mais gosta. Há quase três meses o paranaense precisou operar o joelho esquerdo pela terceira vez, adiando para 2011 seu retorno ao mundo da luta.
Com o acentuado sotaque curitibano, o lutador de 28 anos falou à Gazeta do Povo sobre sua recuperação, analisou a carreira e também comentou sobre sua vida pessoal. Prometeu que ainda tem "muita lenha para queimar" em pelo menos mais sete anos de carreira.
Quando você acredita que vai defender seu cinturão?
Se tudo continuar a se encaminhar bem, meu médico falou que eu poderia voltar a lutar em dezembro. Mas para eu ter uma luta mais confortável, mais tranquila, prefiro voltar em janeiro ou fevereiro. Quero dar tempo ao tempo. O UFC já é parceiraço nosso, eles não me apressam, me deixam bem confortável para decidir.
Ainda mais agora, com moral de campeão...
(Risos) Realmente tenho um carinho especial pelo UFC, pelo Lorenzo [Fertitta], pelo Dana White [donos do maior campeonato de artes marciais mistas do mundo]. Eles me acolheram com o maior conforto possível em Las Vegas depois da cirurgia. Fiquei cinco semanas lá, em reabilitação. Me deixaram à vontade para voltar quando eu quisesse, não vai ter [disputa de] cinturão interino. A partir da data que o médico me liberar, eu penso certinho na data.
Você já pensa em quem pode ser seu adversário?
Na verdade, não. Sei que vai vir um cara bom, um cara top. A luta vai ser difícil. Com quem eles "casarem", estou "felizão". Vou treinar muito, seja contra quem for. Sou lutador, não posso ficar escolhendo adversário.
Tem algum nome que você tem vontade de enfrentar?
Tenho desejo de lutar com o Randy Couture, que é uma lenda do MMA, mas já está para se aposentar. O Forrest Griffin, que é outro cara top da categoria, também [nota da redação: Griffin derrotou Shogun no UFC 76, em 2007].
Você lutaria com o Anderson Silva (campeão dos médios e que também representa Curitiba)?
Como eu já falei, eu e o Anderson Silva fomos amigos muito tempo atrás. Lutaria com ele com certeza, mas não tenho esse desejo. Lutaria por profissionalismo. Sou funcionário do Ultimate, e se for uma luta que eles querem, então, se eles querem eu também quero.
O que mudou na sua vida depois do título conquistado contra o Lyoto Machida no UFC 113, em maio?
Estou muito feliz. É um sentimento de missão cumprida. É algo que almejei desde quando entrei no UFC e graças a Deus estou com o cinturão. Agora tenho de colocar outras metas, pegar outras coisas como motivação. E treinar bastante. Cada luta vai ser encarada como a luta da minha vida. Vou dar o máximo para deixar o cinturão por muito tempo aqui em Curitiba.
Hoje você tem sucesso, fama, dinheiro. Você imaginava que conseguiria tudo isso através da luta?
Sempre tive o sonho de ser campeão mundial. Mas comecei na luta por amar o que eu faço. Nunca pensei em ganhar dinheiro do jeito que eu ganho. Meu intuito sempre foi lutar porque amo lutar. E acho que é por isso que faço bem feito. Quando a gente ama, faz com prazer.
Está sendo melhor do que você esperava?
É difícil falar. Sempre busquei estar onde estou. Sempre batalhei pra isso, sempre ralei para isso. Algumas vezes abri mão da minha família para me dedicar aos treinamentos. Não é que eu sabia que iria estar aqui, mas batalhei e treinei duro para isso.
Muito suor também...
Muito suor, muito sangue. Até é engraçado que tem pessoas que acham que a gente precisa se preparar só fisicamente e tecnicamente. Não, a gente tem de se preparar psicologicamente, espiritualmente. Temos de estar completos em todas as áreas. E cada luta que você passa desgasta muito. Não é só stress físico, é psicológico também. É muito desgastante a pesagem. Não é fácil. Você tem de estar focado 100%.
Onde você vai fazer sua recuperação?
Na verdade eu estava em dúvida se ia fazer no Reffis do São Paulo FC ou no Coxa, que é meu time do coração. Mas tive várias reuniões no CT do Coritiba e decidi fazer aqui em Curitiba mesmo. Conheci toda a estrutura, os médicos, o fisiologista Raul [Furlani], que é um ótimo profissional, me senti muito confortável com eles e resolvi ficar aqui.
Nesse ano você ganhou uma torcedora especial, certo?
A Maria Eduarda está com sete meses agora e para mim é mais uma motivação. Tenho mais uma boquinha para sustentar (risos). Agora eu entendo porque meu pai e minha mãe eram "chatos" na preocupação comigo, e dou razão a eles. Estou com 28 anos e até hoje minha mãe se preocupa. Tenho certeza que minha filha vai me preocupar até quando eu viver. Quando for começar a namorar, levar o namorado lá em casa vou dizer: assiste às minhas lutas, que depois a gente conversa (risos).
Como é sua rotina em época de competição?
Nos últimos três meses antes da luta, me dedico a três coisas: descanso, treino e alimentação. Acordo, vou para a academia, treino, volto para casa, como e durmo. Divido os treinos em três períodos, de manhã, à tarde e à noite, e nesse intervalo tento me alimentar e descansar.
E como é a sua alimentação?
Acredito que um atleta de alta performance tem de comer de tudo, se alimentar bem. E é o que eu faço. Com certeza eu ingiro bastantes calorias (risos). Como muito em churrascaria. Gosto de carne, arroz, batata frita. O Michael Phelps deu uma entrevista uma vez dizendo que come pizza o dia inteiro. Fiquei feliz porque não sou só eu.
O que ainda falta para o Shogun lutador?
Tenho de melhorar muito ainda. Muay thai, jiu-jitsu, principalmente a parte de wrestling. Se achar que estou bem, paro de evoluir. Me sinto realizado, mas tenho muitos sonhos para cumprir. Com certeza ainda tenho muita lenha para queimar. Penso em lutar mais sete anos. No mínimo.



