Imagem da NASA de 22 de maio de 1969 mostra o módulo de comando da Apollo 10 visto a partir do módulo lunar após a separação na órbita lunar
Imagem da NASA de 22 de maio de 1969 mostra o módulo de comando da Apollo 10 visto a partir do módulo lunar após a separação na órbita lunar| Foto: NASA / AFP

A Lua está tendo seu momento de estrela. Julho marcará o 50º aniversário do pouso lunar da Apollo 11, e o governo Trump ordenou à NASA que leve astronautas de volta à Lua até 2024.

Nada disso, no entanto, deve mudar a mente das pessoas que vivem em um universo paralelo de crenças, onde a NASA simulou os pousos na Lua.

A farsa do pouso na Lua é uma teoria clássica da conspiração – elaborada, estranhamente duradoura, e exige a existência de agentes malévolos com uma agenda secreta. Os criadores da farsa do pouso na Lua são supostamente tão competentes que podem enganar o mundo todo (mas não tão competentes que possam realmente colocar humanos na Lua).

Pesquisadores sugerem que as teorias da conspiração estão se espalhando mais facilmente no universo atual da informação, com a internet funcionando como um supercondutor. A crescente ciência do conspiracionismo procura entender quem são essas pessoas, por que elas abraçam essas ideias e se há algo que possa remover uma teoria de conspiração da mente de um verdadeiro crente.

Pesquisas mostram que cerca de 5 ou 6 por cento do público concordam com a teoria da farsa do pouso na Lua, disse o ex-historiador da NASA Roger Launius. Esse é um número modesto, mas essas pessoas apareciam em peso sempre que Launius dava uma palestra sobre o assunto: "Eles são muito incisivos – e adoram um confronto".

Enquanto a NASA celebra a Apollo 11, a agência espacial deve decidir se, e como, responderá à teoria da conspiração da farsa lunar.

Em resposta a uma pergunta do Washington Post, o porta-voz da NASA, Allard Beutel, divulgou um comunicado dizendo que há "uma quantidade significativa de evidências que mostram que a NASA levou 12 astronautas à Lua de 1969 a 1972" e especificou algumas dessas evidências: "381 quilos de rochas lunares coletadas por astronautas estudadas por cientistas em todo o mundo por décadas; você ainda pode lançar lasers desde a Terra para os espelhos retrorrefletores colocados na superfície lunar pelos astronautas da Apollo; o Lunar Reconnaissance Orbiter da NASA fez imagens dos locais de pouso em 2011".

E assim por diante. Mas é uma situação difícil para a NASA.

As evidências de que as alunissagens foram reais são exatamente o que um conspirador esperaria que fosse fabricado por uma agência comprometida em enganar o público. Este é o eterno enigma para os desmascaradores.

Em uma iteração da teoria, que diz que as missões Apollo foram filmadas pelo lendário diretor de cinema Stanley Kubrick, que dirigiu "2001: Uma Odisseia no Espaço".

Bill Kaysing, um ex-escritor técnico, publicou um livro em 1976 intitulado "Nós nunca fomos à Lua", que se tornou um texto fundamental na mitologia da farsa do pouso na Lua.

Em 2001, a rede Fox TV exibiu um documentário chamado "Teoria da conspiração: Nós pousamos na Lua?" com o ator Mitch Pileggi da série de TV "Arquivo X" (que tinha como um dos seus temas “Não confie em ninguém”) atuando como narrador.

A teoria da conspiração continua aparecendo.

Durante um debate em um podcast com outros jogadores da NBA em dezembro, o superastro de basquete Stephen Curry lançou a ideia de que os humanos não tinham ido à Lua. (Ele logo recuou, pediu desculpas e teve uma conversa amigável com o astronauta Scott Kelly.)

Uma característica fundamental da ideia da farsa lunar é que as fotografias tiradas pelos astronautas da Apollo (supostamente!) simplesmente não parecem corretas. Por exemplo, onde estão as estrelas? Além disso, não há cratera de impacto sob o módulo lunar.

A NASA pode explicar todos esses pontos.

A câmera não conseguiu captar a luz fraca das estrelas atrás dos astronautas e outros objetos brilhantes na superfície banhada pelo Sol. E no campo de gravidade suave da Lua, o motor de descida da sonda não precisou produzir muito impulso para se fixar na superfície da Lua.

A NASA respondeu ao livro e ao filme divulgando uma declaração citando as rochas lunares como evidência incontestável: "As rochas e partículas, que ainda estão sendo estudadas por cientistas de todo o mundo, foram claramente formadas em uma atmosfera sem oxigênio e água e mostram grandes diferenças químicas de quaisquer rochas da Terra previamente conhecidas".

O astrônomo Phil Plait dissecou a hipótese de farsa em um post de 2001 que se tornou o desmascaramento definitivo da teoria da conspiração. "As evidências deles são tão tênues quanto o próprio vácuo do espaço", escreveu Plait.

Uma resposta mais direta veio do astronauta Edwin "Buzz" Aldrin, da Apollo 11, quando ele foi hostilizado por Bart Sibrel, um teórico da conspiração, diante de um hotel de Beverly Hills em 2002.

Sibrel, brandindo uma Bíblia e pedindo a Aldrin para jurar sobre ela, disse: "Você é o cara que disse que andou na Lua mas não andou.... Você é um covarde, um mentiroso e um ladrão."

BAM.

Aldrin o nocauteou com um cruzado de direita.

Os perigos das teorias da conspiração

As teorias da conspiração podem parecer estranhas e marginais, mas elas não são inofensivas. Elas costumam transmitir crenças racistas, antissemitas e islamofóbicas. Em sua forma mais tóxica, essas teorias levaram à violência, incluindo tiroteios em massa. Por trás de muitas teorias da conspiração esconde-se uma raiva generalizada. Muitos pesquisadores e comunicadores que lidam com teorias conspiratórias marginais enfrentam ameaças e perseguições venenosas e misóginas.

Uma teoria da conspiração não precisa fornecer todas as respostas. Só tem que abrir a narrativa de consenso e expor lacunas ou anomalias potenciais naquilo que sabemos. A teoria clássica da conspiração é, portanto, uma narrativa aberta. A única coisa que o teórico da conspiração sabe ao certo é que o que os especialistas estão dizendo não é verdade.

Em um artigo de 2012 intitulado "Morto e Vivo: Crenças em Teorias da Conspiração Contraditórias", pesquisadores mostraram que pessoas com alto grau de conspiracionismo podem adotar duas narrativas mutuamente exclusivas, desde que ambas rejeitem o consenso geral. Por exemplo, pessoas mais inclinadas a acreditar que a princesa Diana fingiu sua morte também estavam mais inclinadas a acreditar que ela foi assassinada. Ambos os casos não podem ser verdadeiros ao mesmo tempo.

Em um artigo de 2013, o cientista cognitivo Stephan Lewandowsky e dois colegas descobriram que o pensamento conspiratório contribui para a rejeição do consenso científico em questões como mudanças climáticas, segurança das vacinas e HIV / AIDS. Pessoas suscetíveis a conspirações começam com uma mentalidade – que o mundo está cheio de forças secretas com agendas malignas – e podem ser induzidas a acreditar em conspirações recém-fabricadas.

A ideia da farsa da Lua está intimamente relacionada à teoria da "Terra plana", que ganhou adeptos nos últimos anos graças a mídias sociais e vídeos virais.

"Na realidade, você está realmente em um gigantesco planetário, e terrário, e palco de efeitos especiais, e quintal dos fundos em Hollywood, que é tão grande que você e todos que você conhece e todos que você já conheceu nunca descobriram isso", declara o terraplanista Mark Sargent no documentário "A Terra é Plana" (Behind the Curve).

Na versão de Sargent da Terra, a Antártica é uma parede de gelo de 60 metros de altura que circunda o disco da Terra como o sal colocado na borda de uma taça de margarita. O Sol e a Lua são duas luzes que circulam o céu como aviões que circulam em uma trajetória oval enquanto esperam para pousar em um aeroporto.

Quando Asheley Landrum, psicóloga da Texas Tech University, assistiu à primeira Conferência Internacional da Terra Plana na Carolina do Norte, em 2017, ela descobriu que 29 das 30 pessoas que ela entrevistou aceitaram o argumento da Terra plana depois de assistir a vídeos no YouTube, e a única exceção tinha ouvido sobre isso de membros da família que assistiram a esses vídeos.

Normalmente, eles estavam assistindo a vídeos de conspiração sobre assuntos como o tiroteio na escola de Sandy Hook ou os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, e o YouTube recomendou os vídeos sobre Terra plana. Eles seguiram a trilha iluminada por algoritmos de computador.

As pessoas que Landrum entrevistou relataram ser céticas em relação à noção de Terra plana inicialmente. O processo de conversão envolveu investigação contínua – o que Landrum descreveu como uma mudança de atitude proveniente de uma "abordagem sistemática ponderada ou consciente". Eles estavam tentando acertar.

Landrum disse que descobriu que as pessoas são mais propensas a estarem abertas à ideia da Terra plana se elas tiverem baixa escolaridade científica e alta mentalidade conspiratória. Sua pesquisa sugere que os defensores da Terra plana ocupam todos os pontos do espectro político tradicional, mas compartilham uma desconfiança comum sobre o governo e as autoridades.

Na conferência, todas as pessoas que ela entrevistou disseram que os pousos na Lua foram simulados. Eles não acham que a Terra é um planeta. A Terra é um disco e seu centro é o Polo Norte (como qualquer um pode ver claramente no emblema oficial da Organização das Nações Unidas).

"A coisa mais básica que [a teoria] afirma é que as pessoas são especiais. Nós não somos uma partícula de poeira flutuando neste vasto espaço; a Terra é o centro das coisas. Nós não estamos nos movendo. Não somos um planeta. É assim. O céu está acima da Terra, o inferno está abaixo da Terra", disse Landrum.

Teorias de Donald Trump

Uma teoria da conspiração ajudou a moldar a carreira política do presidente dos EUA Donald Trump. Muito antes de concorrer à presidência, Trump alimentou a crença de que o presidente Barack Obama não nasceu nos Estados Unidos e não era constitucionalmente elegível para servir como presidente. Em seu recente livro de memórias, a ex-primeira-dama Michelle Obama disse que a promoção dessa teoria por Trump foi "perigosa, deliberadamente destinada a provocar os malucos e irracionais", e colocou a segurança de sua família em risco.

Trump repetidamente chamou o aquecimento global de "fraude". Ele deu a entender que o ministro da Suprema Corte Antonin Scalia morreu de causas criminosas. Enquanto era candidato à presidência, ele afirmou que, antes do assassinato do presidente John F. Kennedy, o pai de seu principal rival, o senador republicano Ted Cruz, havia se encontrado com Lee Harvey Oswald.

"Eu poderia dizer, com algum grau de certeza, que ele usa teorias da conspiração para motivar seus apoiadores. Se ele acredita nelas ou não, é uma questão completamente diferente", disse Joseph Uscinski, professor da Universidade de Miami e co-autor do livro "American Conspiracy Theories".

Por anos, Trump endossou uma das teorias mais perigosas da conspiração: que as vacinas causam autismo. (Ele recentemente mudou de opinião e pediu aos pais que vacinassem seus filhos.) Líderes do movimento argumentam que os pediatras, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças, fabricantes de vacinas, revistas médicas e epidemiologistas em todo o mundo estão escondendo essa terrível verdade. Os antivacinas espalharam desinformação e dissuadiram os pais de protegerem seus filhos. Este é um fator no surto recorde de casos de sarampo que ainda está acontecendo neste ano nos Estados Unidos.

Para que qualquer uma dessas conspirações fosse verdadeira, elas teriam que ser vastas em escala, implacáveis ​​na implementação e impressionantemente eficientes – sem vazamentos por parte dos conspiradores. O projeto Apollo enviou 24 astronautas para próximo da Lua e 12 caminharam sobre ela, e nenhum deles revelou seu grande segredo.

Naomi Oreskes, professora de história da ciência em Harvard, diz que toda essa propagação de conspirações importa quando se trata de questões como mudanças climáticas e segurança de vacinas.

"Sem confiança na autoridade institucional – e particularmente sem confiança na ciência – não nos resta maneira de corrigir a desinformação", disse Oreskes. "E a partir daí, é uma espiral descendente."

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