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Vista de Doha, capital do Qatar. País tem 300 mil habitantes | Gabriela Maj/Bloomberg
Vista de Doha, capital do Qatar. País tem 300 mil habitantes| Foto: Gabriela Maj/Bloomberg

 Os estados árabes do Golfo Pérsico estão prestes a entrar numa crise regional sem precedentes. Nas primeiras horas da última segunda-feira (05), a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein e o Egito fizeram anúncios coordenados, afirmando quebrar relações diplomáticas com o pequeno e rico Qatar. 

Eles cortaram vínculos por ar, mar e terra e ordenaram que oficiais e cidadãos do Qatar que estivessem em seus países voltassem para casa. 

O Qatar, que tem pouco mais de três milhões de habitantes, tem um papel considerável na política internacional por ser rico em petróleo e gás natural. O preço mundial do petróleo já oscilou na segunda-feira, enquanto os dois lados afundaram com seus saltos. O pânico de um possível bloqueio saudita na única saída terrestre do Qatar fez com que as prateleiras dos mercados da capital Doha fossem esvaziadas por moradores assustados. 

A ação é um reflexo de frustrações de longo prazo com o Qatar que, de acordo com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes, financia grupos terroristas, além de ser cordial com o Irã, um arqui-rival regional. Uma situação complicada e incerta está se formando, com várias consequências possíveis — o Qatar é, afinal de contas, lar de uma base crucial do Comando Central Americano. Aqui vai nossa tentativa de explicar o que você precisa saber. 

O que está por trás da disputa? 

Por anos agora, funcionários do governo de Riyadh e Abu Dhabi estão irritados com o que veem como uma política externa ativa e contraditória do Qatar. Ao contrário do vizinho Bahrein, por exemplo, o Qatar já divergiu de outros membros no Conselho de Cooperação do Golfo, um bloco de seis monarquias árabes, e usou de seus próprios financiamentos para projetar sua influência para outros lugares. 

Depois das mudanças políticas da Primavera Árabe, por exemplo, o Qatar se uniu a partidos políticos islâmicos, como a Irmandade Muçulmana do Egito, praticando seu direito de apoiar movimentos com apoio popular genuíno. Para a ira de seus vizinhos, a rede de comunicação estatal Al Jazeera também adotou a causa desses grupos, estimulando a democracia numa região governada por autocracias seculares. E o Qatar foi um dos maiores fundadores de rebeliões islâmicas na Síria e Líbia. 

Agora, críticos do Qatar afirmam que o país falhou ao controlar alguns grupos militantes islâmicos aos quais deu suporte — como o Hamas ou a principal organização síria ligada à al-Qaeda. O Qatar também foi acusado de apoiar rebeldes do Iêmen, o que foi agravado pelo fato que, até um dia antes disso, o país fazia parte de uma coalizão que lutava contra esses grupos. 

“Os países da região podem ser divididos em dois grupos: um que procura avanço em seus interesses estrangeiros por meio do apoio dos islâmicos, e outro que guia a política externa como oposição ao crescimento islâmico”, escreveu o pesquisador do Oriente Médio Hassan Hassan. 

O Qatar, no esquema de Hassan, está no primeiro caso, enquanto os sauditas e emiradenses estão no segundo. 

Em uma declaração, o ministro de relações exteriores do Qatar disse que as medidas não tinham justificativa e que fechar as fronteiras é uma violação da soberania do país. “Isso foi baseado em alegações, não em fatos”. 

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes também apoiam grupos rebeldes e facções islâmicas em conflitos no Oriente Médio. Mas os dois países se posicionaram contra o islamismo político em lugares como o Egito, apoiando o atual presidente Abdel-Fattah el-Sissi, que chegou ao poder em 2014 ao retirar do poder a Irmandade Muçulmana. O Iêmen também quebrou relações com o Qatar. 

Os Emirados Árabes, em particular, sempre freou a participação do Qatar no apoio a grupos islâmicos na Líbia e em outros lugares e parece ter liderado o movimento de isolamento do Qatar. 

Mas isso não explica o motivo para isso acontecer agora. 

Existem várias teorias de por que as coisas ficaram tão extremas. Dois incidentes com hackers podem ter aumentado a rixa. Primeiro, umas declaração foi postada no site oficial do Qatar atribuindo aos Emirados Árabes comentários simpáticos ao Irã e ao grupo Hezbollah. Mesmo depois do Qatar ter rejeitado o post e afirmando que ele tinha sido uma ação de hackers, o boato continuou. 

Enquanto isso, os emails vazados do enviado dos Emirados Árabes aos EUA mostraram que o país tinha o desejo de quebrar a influência do Qatar já algum tempo. 

Alguns especialistas acreditam que Mohammed bin Zayed, príncipe herdeiro influente do emirado de Abu Dhabi, encontrou um parceiro ávido no príncipe adjunto saudita, Mohammad bin Salman, que presidiu a política internacional da Arábia Saudita nos últimos anos e formou uma aliança regional anti-Irã. 

Em um rumor fascinante reportado pelo Financial Times, oficiais do Qatar teriam pago US$ 1 bilhão para a liberação de falcoeiros catarenses que foram sequestrados enquanto caçavam no sul do Iraque. O dinheiro aparentemente chegou nas mãos do governo israelense e membros da milícia xiita. Essa foi a última gota para os críticos do Qatar do Golfo, de acordo com uma fonte consultada pela imprensa britânica. 

Mas um fator chave também é o presidente Donald Trump, cuja visita amigável a Riyadh no último mês e apoio à agenda saudita no Oriente Médio parece ter encorajado os oficiais do país. 

Os sauditas e emiradenses, segundo Andrew Bowen, visitante do Instituto Empresarial Americano, “viram esse como um momento chave para fazer do Qatar um inferno”. De acordo com um jornalista emiradense, o governo de Abu Dhabi quer extrair grandes concessões de Doha, incluindo a exclusão de empresas estrangeiras de mídia do Qatar. 

O que está em jogo? 

É difícil avaliar os próximos passos. Dois países ficaram no meio do conflito - Oman e Kuwait. Eles devem tentar usar sua influência limitada para forçar uma conciliação. Os EUA também poderiam tentar, ainda que a administração de Trump não tenha feito comentários significativos sobre o impasse na segunda-feira. 

Apesar do apoio americano, o Qatar tem reservas fiscais significativas, o apoio político do governo turco e é parceiro de países como a Rússia e a China. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes podem descobrir que isolar o Qatar não é uma tarefa fácil. 

“Eles acham que conseguem estrangular o Qatar e forçá-lo a capitular”, disse Theodore Karasik, analista sênior do Gulf State Analytics, para o BuzzFeed News. “Isso pode sair pela culatra. O primeiro problema é que isso força o Qatar a procurar parcerias seguras com a Turquia. Doha pode procurar também o Irã”. 

 “Eu me preocupo, acho que podem errar no julgamento da posição um dos outros, o que pode deixar o conflito maior”, disse Bowen para o Today’s WorldView. 

 O bate-boca mostra a complexidade das divisões do Oriente Médio, que normalmente é reduzido a um simples binário entre um bloco sunita liderado pela Arábia Saudita e um Irã xiita. 

“A tensão entre Qatar e seus vizinhos mostra que as linhas geopolíticas antigas não explicam mais o Oriente Médio”, escreve Hassan. 

 Ainda não sabemos como Trump, que exaltou sua recepção em Riyadh, irá lidar com esse desafio. Afinal de contas, a Casa Branca insistiu que o presidente “se uniu com o mundo islâmico de um jeito que não acontecia há anos”, como anunciaram no último mês. Os eventos dessa semana mostram como essa afirmação foi ridiculamente falsa.

Tradução de Gisele Eberspächer
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