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Hoje está bem claro: os militantes que pegaram em armas para combater a ditadura militar brasileira nunca tiveram chance concreta de vitória. Em primeiro lugar porque eram poucas pessoas: algumas centenas (a Comissão da Verdade estima que foram 434 mortos e desaparecidos e 1800 vítimas de torturas), com pouco dinheiro e armamento antigo, contra todos os milhares de policiais e militares que atuavam no país na época. Em segundo porque nunca conseguiram mobilizar camadas expressivas da população. Agora, se a situação mudasse e os guerrilheiros chegassem ao poder entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1970, o que eles fariam? Qual era o plano em caso de vitória? O Brasil contaria com uma ditadura do proletariado. 

Os militantes observavam os métodos de dois exemplos recentes e bem-sucedidos no objetivo de tomar o poder: Cuba e da China. Nos dois casos, como se sabe, os líderes Fidel Castro e Mao Tse-Tung não instalaram nada parecido com uma democracia. “O objetivo imediato era derrubar a ditadura militar. O objetivo de longo prazo era estabelecer uma área libertada, de caráter comunista”, diz Renato Tapajós, cineasta e escritor que participou de um desses grupos armados, a Ala Vermelha do Partido Comunista do Brasil (leia o depoimento dele abaixo). 

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“A meta era a ditadura do proletariado. A ideia de consolidar uma democracia só surgiu depois de 1979, com a anistia”, afirma a historiadora Beatriz Kushnir. “A ditadura do proletariado iria instaurar uma sociedade em que a pirâmide social fosse invertida.” 

Sucesso passageiro 

Houve um momento em que os guerrilheiros pareciam perto de vencer. Entre 1969 e 1970, eles constrangeram o governo brasileiro ao sequestrar o embaixador americano Charles Elbrick, o cônsul japonês Nobuo Okushi, o embaixador alemão Ehrenfried Anton von Holleben e o embaixador suíço Giovanni Bucher. Realizavam assaltos a bancos e tomavam emissoras de rádio para disseminar suas mensagens. 

Mas, no momento em que o efeito surpresa passou e o governo organizou uma reação, os militantes foram massacrados. Em 1974, já não havia oposição armada no Brasil. O marco do encerramento de qualquer ação de fôlego contra o regime foi a queda da guerrilha do Araguaia, um antigo plano do Partido Comunista do Brasil, iniciado em 1966. 

As ações de guerrilha contra a ditadura começaram com o atentado ao aeroporto dos Guararapes, em Recife, em julho de 1966. Uma bomba foi detonada no saguão do local, matando duas pessoas e ferindo 17. Tornaram-se corriqueiras entre 1967 e 1972, quando dezenas de grupos surgiram e se dividiram – surgiram, na época, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a Ação Libertadora Nacional (ALN), o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), o Partido Operário Comunista (POC) e o Comando de Libertação Nacional (Colina). 

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Os militantes trocavam de nome, produziam documentos falsos e se mudavam para apartamentos comunitários, que eles chamavam de aparelhos. Era necessário comparecer a pontos de encontro em locais públicos todos os dias, para que as lideranças soubessem com agilidade quando os militantes eram presos. Desertores ou acusados de traição podiam ser assassinados por seus próprios colegas. E não só eles, como também pessoas consideradas ligadas à ditadura. Por exemplo: em 15 de abril de 1971, o industrial norueguês Henning Boilsen, presidente da Ultragás, foi assassinado no centro de São Paulo por integrantes da ALN. Presos dias depois, dois envolvidos na ação foram mortos – um baleado, outro espancado. 

Corrida contra o tempo 

Quando um militante era detido, os agentes da ditadura sabiam: era preciso descobrir rapidamente o paradeiro dos colegas mais próximos. Isso porque, no momento em que o guerrilheiro não comparecesse ao ponto de encontro, o aparelho onde ele vivia seria rapidamente desocupado. Então, para ganhar tempo e chegar a mais prisões, a tortura começava imediatamente. 

“Eles começaram a prender gente, que estava na periferia do movimento. Com uma boa dose de tortura, fizeram algumas pessoas falarem e nós fomos obrigados a mergulhar cada vez mais na clandestinidade”, diz Renato Tapajós. “Éramos submetidos a espancamentos generalizados, e depois éramos levados ao pau de arara, onde utilizavam choques elétricos. Nesse processo vários companheiros não aguentaram e falaram o que sabiam”. 

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Esses guerrilheiros tinham um perfil bem específico. “Eram jovens urbanos vindos de ambientes universitários. Havia também uma parcela de jornalistas que haviam rompido com o Partidão”, explica a historiadora Beatriz Kushnir. “Era uma geração nascida no pós-guerra, que tinha a lembrança de seus pais combatendo a ditadura varguista, a politização dos meios de comunicação, os jornais fazendo uma divulgação de opiniões mais fortes”. 

Derrota previsível 

“O contato com as ideias da esquerda começava, normalmente, via movimento estudantil”, afirma Isabel Cristina Leite, pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História da UFF e autora de uma tese sobre um desses grupos, o Colina). “Nos anos 60 e 70, no interior, as pessoas se informavam muito por rádio. Como as notícias que eram transmitidas eram filtradas pela censura, dificilmente haveria algo que despertasse a indignação.” 

Mas o Brasil não seguiu o exemplo de Cuba ou da China. Com a perda de militantes e a força da ditadura melhorando progressivamente seu nível de conhecimento dos grupos guerrilheiros, até mesmo manter os aparelhos ficou inviável – simplesmente não havia dinheiro suficiente para pagar aluguel, água, luz e comida, muito menos para adquirir armas e munição. 

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Isabel Cristina Leite lembra que, para chegar ao poder, era preciso cumprir uma meta inicial: “O objetivo principal era derrubar a ditadura que cerceava direitos, censurava, torturava e matava e desaparecia com pessoas. No entanto, a vitória destes guerrilheiros era impossível de acontecer, dada a desigualdade de forças entre eles e o Estado”. 

“Democracia radical” 

Renato Tapajós, escritor e cineasta, comenta sua atuação na guerrilha 

“Nasci em Belém e vivi na Amazônia até os 19 anos. No Pará, a gente caçava muito. Meu pai, um velho militante comunista, era um pediatra que tinha uma bela coleção de armas. Desde criança eu tinha familiaridade com diversos tipos de armas. Em 1964, eu tinha 21 anos e morava em São Paulo, estudava Ciências Sociais na USP da rua Maria Antônia, quando fui recrutado pelo PCdoB, o Partido Comunista do Brasil. Participei da criação da Ala Vermelha do PCdoB, que tinha o objetivo de participar da luta armada. Eu participava das ações e treinava os militantes que não estavam acostumados a usar armas. 

Fizemos panfletagens em portas de fábrica, protegidos por homens armados, e também ocupamos emissoras de rádio. Quanto tomávamos a emissora, colocávamos uma fita com um programa pré-gravado. Deixávamos no local uma maleta com tijolos. Dizíamos que era uma bomba com controle remoto que seria disparada se a transmissão fosse interrompida. E íamos embora. Muitas dessas transmissões duravam 20, 30 minutos, antes que alguém as tirasse do ar. 

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Mudei para a clandestinidade e, em 1969, fui preso juntamente com os outros companheiros que moravam no mesmo aparelho, no bairro da Lapa. Entre 1969 e 1970, a Ala Vermelha foi praticamente destruída. Nosso objetivo era conseguir nas cidades recursos para estabelecer uma base no campo. Queríamos era criar, no interior de Goiás, uma guerrilha rural, que pudesse obter o apoio das populações e criar um foco guerrilheiro. Mas nunca chegamos a esse ponto. Não conseguimos sair das cidades. 

A nossa organização era comunista. O objetivo imediato era derrubar a ditadura militar. O objetivo de longo prazo era estabelecer uma área libertada, de caráter comunista. A ideia era que a população que vivesse dentro dessa área fosse organizada em organizações de massa, que teriam uma influência direta no governo. Queríamos instalar uma espécie de democracia radical, com governo direto, sem a estrutura de uma democracia parlamentar.”

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