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A história do engenheiro que lutou para salvar igrejas da destruição comunista

Eugeniu Iordachescu, engenheiro romeno que salvou igrejas condenadas sob o regime comunista, morre aos 89 anos

  • Harrison Smith Washington Post
Iordachescu, que ficou conhecido como
Iordachescu, que ficou conhecido como "o engenheiro do céu" e o "anjo da guarda" das igrejas na Romênia por colocar cerca de 30 prédios em segurança, tinha 89 anos quando morreu, em 4 de janeiro DANIEL MIHAILESCU/AFP
 
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Com um quinto da capital da Romênia destruída, arrasada por escavadeiras e máquinas de demolição que muitas vezes apagavam a existência de um prédio do dia para a noite, os moradores de Bucareste desenvolveram um novo termo para a mutilação de sua cidade no início dos anos 80. 

Pior do que a Segunda Guerra Mundial, mais devastador que o forte terremoto de 1977, o projeto de redesenvolvimento foi apelidado de Ceausima, um marco que evocou o nome do ditador comunista Nicolae Ceausescu — que pretendia construir a "primeira capital socialista para o novo homem socialista" — e o bombardeio atômico de Hiroshima. 

Leia mais: Como a Romênia comunista destruiu uma geração inteira de crianças

No entanto, quando a demolição começou, Eugeniu Iordachescu, um professor de engenharia que também trabalhava para o governo da cidade, viu-se atraído por uma pequena igreja ortodoxa chamada ‘Schitul Maicilor’, ou o ‘Convento das Freiras’. Construída por volta de 1726, era uma das muitas igrejas destinadas à destruição e "uma joia que precisava ser salva, não importava o custo", disse Iordachescu mais tarde à Agência France-Presse. 

Procurando uma maneira de salvar o prédio, Iordachescu atormentou seu cérebro durante meses até que, como ele disse, "Deus me iluminou". 

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Usando um sistema inspirado no "garçom que carrega os copos numa bandeja sem derramar uma gota", ele inventou um método no qual uma "bandeja" de concreto era colocada sob as fundações do prédio, a igreja era erguida com macacos hidráulicos e guinchos, e esteiras eram usadas para transportá-la ao longo de um conjunto de trilhos. Como um trem lentamente percorrendo os trilhos, a igreja foi movida por mais de 250 metros, recebendo um novo lar em 1982, atrás do que hoje é a sede do Serviço de Inteligência da Romênia. 

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A pequena igreja ortodoxa ‘Schitul Maicilor’, ou ‘Convento das Freiras’, primeira construção salva pelo engenheiroReprodução

Iordachescu, que ficou conhecido como "o engenheiro do céu" e o "anjo da guarda" das igrejas na Romênia por colocar cerca de 30 prédios em segurança — incluindo uma dúzia de igrejas, um banco, um hospital e vários prédios de apartamentos, completos com linhas de gás e água. Tinha 89 anos quando morreu em 4 de janeiro. 

Sua morte foi anunciada pela Igreja Ortodoxa Romena, que anteriormente lhe concedeu sua maior honra para leigos, mas não disse onde ou como ele morreu. Uma nora, Ligia Iordachescu, disse à Associated Press que a causa foi um ataque cardíaco. 

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Embora os edifícios históricos fossem às vezes desmontados para realocação, havia poucos modelos para as operações de movimentação maciça de Iordachescu, que se estendiam de Bucareste para incluir várias estruturas em todo o interior da Romênia. Menos de uma década antes, o prédio de oito andares da Cudecom em Bogotá foi movido a 20 metros de cilindros de aço — uma migração que, embora significativa, empalidece em comparação com os feitos de engenharia de Iordachescu. 

"Ficamos impressionados com essas operações, comparando-as com o pouso na lua de um país como a Romênia", disse Valentin Mandache, historiador da arquitetura que assistiu à várias mudanças de igreja, ao Guardian em 2016. 

O trabalho de Iordachescu ocorreu quando Ceausescu instituiu um projeto de redesenvolvimento nacional conhecido como sistematização. Inspirado em parte por uma viagem à Coréia do Norte, o líder comunista buscou modernizar a Romênia reconstruindo aldeias e vilas inteiras, instalando blocos de apartamentos e, em Bucareste, erguendo um palácio colossal chamado Casa da República, hoje sede do Parlamento do país e apelidado de Casa do Povo. 

Nossas Convicções: Os limites da ação do Estado

Desde que chegou ao poder em 1965, Ceausescu tolerava, mas mantinha um rígido controle sobre a Igreja Ortodoxa Romena, cujos líderes mantinham um relacionamento confortável com o regime a ponto de colocar o aniversário de Ceausescu no calendário da igreja. Com a sistematização, no entanto, o ditador fez relativamente pouco esforço para poupar os edifícios da igreja e, às vezes, parecia fazer questão de derrubá-los. Iordachescu contabilizou mais tarde 29 igrejas e outras estruturas religiosas que foram demolidas como parte do Ceausima

"As igrejas incomodavam Ceausescu", disse à AFP Alexandru Budisteanu, antigo arquiteto-chefe de Bucareste. "Não importava se eles demoliam ou mudavam, contanto que não estivesse mais à vista." 

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Para Iordachescu, que muitas vezes falava em ser guiado pelo divino, as igrejas eram fontes de significado religioso e histórico, centenários centros comunitários que ofereciam consolo em uma cidade que era cada vez mais desprovida de cor, charme e vínculos com o passado. Um dos edifícios mais antigos da cidade, o Mosteiro Mihai Voda, foi construído na década de 1590 e realocado a 290 metros do local original.

Outra estrutura, o Palácio Sinodal, pesava 9.000 toneladas, mas foi erguida nos trilhos e movia-se alguns metros por dia antes de ser instalada à sombra de um prédio alto. A equipe de Iordachescu terminou o trabalho em temperaturas abaixo de zero para cumprir o prazo dado pelo Estado, disse ele em um documentário sobre a igreja, mas foi forçado a demolir uma parte do prédio depois que a esposa de Ceausescu, Elena, insistiu que ainda era visível da rua.

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O Palácio SinodalReprodução

No entanto, o governo romeno pagou por cada um dos projetos de realocação — talvez permitindo que eles avançassem, sugeriu certa vez Iordachescu, devido à cobertura noticiosa crítica do Ocidente. "Quando vejo as igrejas hoje", disse ele ao jornal ‘The Guardian’, "ainda não consigo acreditar". 

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Iordachescu nasceu na cidade de Braila, no leste da Romênia, em 8 ou 9 de novembro de 1929; as fontes variam sobre a data exata. Ele se formou no Instituto Bucareste de Engenharia Civil em 1953, de acordo com uma biografia da AGIR, a sociedade de engenharia romena, e em 1984 recebeu o doutorado em engenharia. 

Ele era casado e tinha dois filhos.

Iordachescu continuou seu trabalho de ensino e engenharia nos anos após a Revolução Romena, que foi concluída em dezembro de 1989 com a execução dos Ceausescus e um anúncio na rádio nacional romena: "Oh, que novidade maravilhosa nesta noite de Natal. O Anticristo está morto " 

Na época, Iordachescu ainda estava concluindo seu projeto final de realocação, garantindo que a Igreja de Santo Estevão, com cerca de 200 anos, chegasse ilesa à sua nova casa, como todas as outras igrejas que ele salvou.


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