Spoiler: mais que ideologia, o que importa é o dinheiro
Spoiler: mais que ideologia, o que importa é o dinheiro| Foto: BigStock

Sem recorrer a dualismos simplistas, a resposta a esta pergunta seria: depende do que se entende por esquerda. Afinal, para quem ainda entende que o lado “canhoto” do espectro político é, em algum grau, herdeiro do filósofo alemão que pregava uma revolução popular que destronaria os detentores dos meios de produção e os entregaria ao Estado, dominado pela classe trabalhadora, o conglomerado de empresas que se convencionou chamar de “Big Techs” está longe, muito longe de atender aos requisitos de Karl Marx.

Tome-se por exemplo o quinteto de corporações envolvidas no imbróglio recente do bloqueio ao acesso às redes sociais conservadoras: Facebook, Apple, Twitter, Google e Amazon. Juntos, Mark Zuckerberg, Tim Cook, Jack Dorsey, Sundar Pichai e Jeff Bezos, comandam um império que vale 3,1 trilhões de dólares, repartidos entre centenas de milhares de acionistas entre os quais, é claro, estão os CEO - devidamente integrados à lista de bilionários da Forbes (exceto por Pichai, dono de uma fortuna estimada em 600 milhões de dólares).

Ocorre que, há muito, ser “de esquerda” não necessariamente implica em um compromisso concreto com os mais pobres. Vale ressaltar o que o vocabulário americano entende por “liberal”: um termo guarda-chuva que, hoje, engloba os que são simpáticos às causas identitárias - a luta contra o racismo através do apoio a movimentos como o Black Lives Matter, a promoção da agenda LGBT e a legalização do aborto, por exemplo.

O termo “liberal” nasceu como sinônimo da promoção das “liberdades individuais” frente ao que os costumes em voga consideravam moralmente aceitável e, é claro, especialmente no caso do racismo e dos casos concretos de discriminação contra o público LGBT, prestou sua contribuição ao debate público.

Ocorre que, diante da emergência de uma esquerda cada vez mais aliadas a estas pautas, e menos às reformas que, em tese, beneficiariam os mais pobres (independentemente de raça, sexo ou orientação sexual), o termo “liberal”, nos Estados Unidos, deixou de englobar, por exemplo, libertários e “liberais econômicos”, para referir-se a quem advoga por uma maior interferência do Estado na vida do cidadão, seja para corrigir distorções baseadas na identidade do indivíduo ou de classe social (ainda que esta vertente não esteja tão em voga).

Desde meados de 2016, quando as Big Techs foram ameaçadas, pela primeira vez, de interferir no processo eleitoral americano, por conta do escândalo envolvendo o Facebook e a Cambridge Analítica, especula-se qual é, afinal, o “norte ideológico” que orienta o seleto time de empreendedores que domina o mercado das comunicações (cujos ovos de ouro são os dados dos usuários). O debate se intensificou com os constantes relatos de remoção de conteúdo, quase sempre ligados à ala conservadora, que, segundo seus criadores, não se enquadrava nas categorias vedadas pela lei: incitação à violência, calúnia e ameaça.

Por diversas vezes, Zuckerberg, Dorsey e outros nomes de peso compareceram ao Congresso Americano para defender sua atuação; um debate que sempre se deu em torno dos limites da Seção 230 da Lei de Telecomunicações, segundo a qual pessoas ou empresas que se limitem a transmitir conteúdo de terceiros na internet não podem ser responsabilizadas legalmente pelo que ali for publicado.

Apesar de afirmar categoricamente que a empresa não faz curadoria de conteúdo para preservar a “liberdade de expressão” dos usuários, Jack Dorsey, o fundador do Twitter, já admitiu ser mais à esquerda e disse que empregados com pensamento mais conservador podem não se sentir à vontade para expressar suas ideias em sua empresa.

Um estudo feito pela Universidade de Stanford em 2017 mostrou que Dorsey não é exceção. Conduzida pelos professores de Economia Política David E. Brookman e Neil Malhotra, a pesquisa entrevistou mais de 600 empresários do Vale do Silício — entre eles, alguns dos grandes nomes destacados no começo deste texto — e chegou a conclusões relevantes.

Os pesquisadores chegaram à conclusão de que os empreendedores de tecnologia são bastante “liberais”, e são “alguns dos democratas mais esquerdistas que você pode encontrar”, como classificou o New York Times, em reportagem sobre o tema. O estudo completo, contudo, acrescenta nuances.

“As elites de tecnologia dos Estados Unidos são mais hostis à regulamentação das empresas de tecnologia e do mercado de trabalho do que os democratas. (...) Ideologicamente, as elites tecnológicas são mais propensas a acreditar nos benefícios dos mercados livres. Da mesma forma, eles são mais propensos a creditar os empresários pelo sucesso do país (...). Por último, eles têm um interesse próprio em menos regulamentação de seu setor”, diz o texto.

Ainda assim, a tendência à esquerda pode esbarrar na economia: “ (...) as elites de tecnologia apoiam ​mais a redistribuição e, especialmente, a taxação do que os eleitores republicanos; isso é parte da razão pela qual não esperamos que eles se tornem um eleitorado republicano central. No entanto, eles apóiam menos os programas administrados pelo governo e preferem que o governo financie programas administrados pelo setor privado. Isso os coloca em conflito com os constituintes democratas centrais”.

O Vale do Silício também é simpático às causas das minorias e não são avessos à ajuda governamental a estes grupos específicos. “Sua falta de ressentimento racial pode resultar de seus altos níveis de educação e exposição à diversidade. No entanto, sua crença em mercados livres os leva a apoiar mais a administração privada de programas financiados pelo governo”, diz o estudo.

Por fim, os pesquisadores de Stanford concluem que os magnatas da tecnologia são  “socialmente liberais porque não são autoritários”. “Essas preferências não são libertárias; (...) eles normalmente se alinham com o Partido Democrata. (...) No entanto, diferem de muitos democratas em várias áreas importantes: são mais hostis à regulamentação dos mercados de trabalho e da administração governamental de programas sociais; eles são fortes defensores das políticas neoliberais; e podem querer mover o Partido Democrata ainda mais para a esquerda nas questões sociais. Como resultado, o cenário está armado para um grande desacordo entre a elite tecnológica e os principais constituintes democratas”.

E o que aconteceu?

Três anos depois da pesquisa (publicada em setembro de 2017), a crescente influência de figuras como a deputada Alexandra Ocasio-Cortez e a própria vice-presidente eleita Kamala Harris no Partido Democrata mostra que, sim, o partido se moveu à esquerda nas questões sociais. Some-se a isto o fato de que, nas eleições de 2018, as Big Techs, juntas, doaram pelo menos 64,62 milhões de dólares para a campanha do presidente eleito Joe Biden e outras campanhas democratas (estão inclusas neste pacote o grupo Alphabet, ao qual pertence o Google, e a Netflix).

Enquanto isso, uma pesquisa do Pew Research Center realizada em junho do ano passado descobriu que cerca de três quartos dos adultos americanos afirmam que é muito (37%) ou um pouco (36%) provável que os sites de mídia social censurem intencionalmente os pontos de vista políticos que consideram questionáveis. Apenas 25% não acreditam nesta tese.

Segundo a pesquisa, a maioria em ambos os grandes partidos acredita que a censura está ocorrendo, mas essa crença é especialmente comum — e crescente — entre os republicanos. Nove em cada dez republicanos e independentes que se inclinam para o Partido Republicano dizem que é pelo menos um pouco provável que as plataformas de mídia social censurem os pontos de vista políticos que consideram questionáveis

Para não se submeter às leis nacionais de regulamentação sobre o discurso, Dorsey insiste que não faz a curadoria de conteúdo e que o banimento de Donald Trump precisamente neste janeiro de 2021 se justifica pelo endosso do presidente aos invasores do Capitólio, episódio que terminou com cinco mortos.

Entretanto, vale ressaltar que o patrimônio do dono do Twitter, triplicou durante o governo Trump, mais do que quase qualquer bilionário no país. Durante seu mandato, o presidente foi uma verdadeira “máquina de manchetes” para a rede, criando notícias ao censurar seus críticos e demitir membros de seu gabinete, tudo pelo seu perfil. Em outubro, a então candidata Kamala Harris escreveu uma carta a Dorsey pedindo que ele suspendesse a conta de Trump e nada aconteceu - até a última segunda-feira.

Outra pesquisa recente acrescenta uma nuance à situação: de acordo com uma pesquisa feita pelo portal POLITICO (ainda que de viés mais progressista), influenciadores e meios de comunicação conservadores e outros apoiadores do Partido Republicano dominaram as discussões online acerca de duas das questões mais quentes da eleição: a suposta fraude eleitoral e o movimento Black Lives Matter, de acordo com uma análise de postagens do Facebook, Instagram e Twitter. Some-se a isto o fato de a rede de Dorsey ter perdido 5 bilhões de dólares em valor de mercado após o banimento de Trump.

Situação semelhante aconteceu com o Parler, rede conservadora que já foi alvo de investigações por conta da veiculação de material ligado à pornografia infantil e permaneceu incólume nos mecanismos de busca e dowload de aplicativos da Amazon e do Gooegle até semana passada (cabe ressaltar, inclusive, que o YouTube já foi alvo deste tipo de processo e nunca foi retirado do ar).

Migalhas para a justiça

Em compensação pelos ganhos exorbitantes e como justificativa para banimentos arbitrários com base no que se convencionou chamar de “discurso de ódio” (não porque estes não existam, mas porque há piores intactos nas plataformas), as Big Techs dizem estar comprometidas com a justiça social.

Entretanto, um levantamento feito pelo portal americano The Verge questiona essa propaganda. "Apesar de uma pandemia que deixou milhões de pessoas sem empregos e forçou muitas grandes marcas a pedir falência, a maioria das grandes empresas de tecnologia está se saindo melhor do que nunca. (...) O dinheiro que eles prometeram [para campanhas de justiça social], no contexto, parece muito com alguns trocados”, diz o texto.

A publicação esmiúça o caso da Apple, que anunciou uma “Iniciativa de Equidade e Justiça Racial” no valor de 100 milhões de dólares. “Isso é uma grande soma, mas talvez não quando você considera a escala da Apple. A Apple é agora a empresa mais valiosa do mundo, tirando a coroa da empresa estatal de petróleo da Arábia Saudita, Saudi Aramco, em 31 de julho. Em média, a fabricante do iPhone teve lucro de US$ 6,3 milhões a cada hora no ano passado. Teoricamente, a empresa poderia ter recuperado todos os seus cem milhões de dólares no mesmo dia em que anunciou a iniciativa”, atesta o levantamento.

E a questão não fica restrita à empresa fundada por Jobs. “Descobrimos que enormes disparidades entre os compromissos de justiça racial e os lucros não eram exclusivas da Apple. A Amazon está comprometendo mais de 18,5 milhões de dólares, mas isso é apenas 0,16% do lucro da empresa no ano passado, e isso se traduziria em apenas 4,17 dólares do salário médio dos Estados Unidos. Enquanto os 209,5 milhões da Microsoft seriam a maior promessa de grandes empresas de tecnologia até o momento, é como se um trabalhador americano de classe média fizesse uma doação única de 92,55 dólares”.

“A maioria das doações corporativas equivaleria a menos de 100 dólares do salário médio do americano. Você pode gastar mais de sua renda em alguns videogames do que a maioria das empresas gasta com justiça racial", conclui a pesquisa.

Onde estão, afinal, os interesses?

Segundo a pesquisa de Stanford e de acordo com as próprias declarações de alguns destes figurões, os donos das Big Techs se dizem favoráveis à redistribuição de renda e à promoção da justiça social com base em critérios de identidade (embora gastem pouco com isso, na prática). Aceitam até que lhe aumentem os impostos. Ao que parece, só não toleram concorrência ou dar explicações sobre o que sai ou não do ar. O jornalista Glenn Greenwald, notório militante de esquerda, está entre os que denunciam o oligopólio das redes sociais, fruto de seu casamento bem-sucedido com Wall Street, as elites detentoras do capital e, atualmente, com o Partido Democrata.

“A Amazon, por exemplo, é um dos parceiros mais lucrativos da CIA, com um contrato de US$ 600 milhões para fornecer serviços à agência (...) No Facebook e no Twitter, encontram-se relatos oficiais dos regimes mais repressivos e violentos do planeta, incluindo a Arábia Saudita, e páginas dedicadas à propaganda em nome do regime egípcio. Alguém acha que esses gigantes da tecnologia têm uma preocupação genuína com a violência e o extremismo? Então, por que os políticos e jornalistas democratas se concentraram no Parler em vez de no Facebook e no YouTube? Por que Amazon, Google e Apple fizeram uma demonstração extravagante de remover o Parler da internet enquanto deixavam plataformas muito maiores com muito mais extremismo e defesa da violência fluindo diariamente?”, escreveu Greenwald, em seu portal oficial.

“Em parte porque esses gigantes do Vale do Silício — Google, Facebook, Amazon, Apple — doam enormes somas de dinheiro ao Partido Democrata e seus líderes, então é claro que os democratas os aplaudirão em vez de pedir punição ou sua remoção da internet. Parte disso se deve ao fato de Parler ser um novato, um alvo muito mais fácil de tentar destruir do que o Facebook ou o Google. E em parte porque os democratas estão prestes a controlar o Poder Executivo e as duas casas do Congresso, deixando os gigantes do Vale do Silício ansiosos para agradá-los silenciando seus adversários”, responde o próprio jornalista.

De volta à pergunta inicial: para responder se as Big Techs são de esquerda, pode-se falar em capitalismo de Estado ou de compadrio; pode-se falar em “marxismo cultural” (como a transferência da luta de classes para aspectos identitários) ou na boa e velha revolta das elites, prevista pelo cientista político americano Christopher Lasch e esmiuçada pelo professor da Universidade de Notre Dame, Patrick Deneen, em seu “Por que o liberalismo fracassou?”.

“Desde o princípio, o liberalismo prometeu uma nova aristocracia composta dos que prosperariam com a libertação dos indivíduos de sua história, da tradição, da natureza e da cultura, e com a demolição ou o desgaste dos apoios institucionais que foram redefinidos como limites ou obstáculos para a liberdade. (...) Contribui para a desvantagem deles a ‘secessão dos bem-sucedidos’, a remoção geográfica de uma elite social e econômica para umas poucas áreas concentradas, levando para longe aqueles em que outras épocas poderiam ter feito trabalho filantrópico na região e contribuído para a construção da sociedade civil local”, escreve Deneen.

Para afirmar que os donos das Big Techs são, nos moldes pós-modernos, “de esquerda”, há que se levar em conta que, no lugar da revolução popular, o que se vê é um casamento bem sucedido entre detentores de meios de produção de elite financeira e um Estado dominado pela… elite financeira. Acima de qualquer ideologia, as Big Techs professam a religião do dinheiro, cujos sumo-sacerdotes, hoje, professam o credo da justiça social. Em nome do lucro, os magnatas dizem "amém".

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