São Paulo
São Paulo: eleições deste ano mudaram o eixo do poder| Foto: Pixabay

A redemocratização do Brasil trouxe a ascendência de São Paulo no cenário nacional. Sarney (MDB-MA) e Collor (PRN-AL) funcionaram como uma espécie de mandato tampão das oligarquias nordestinas. Um emedebista de Minas Gerais, surpreendentemente, causou o fim da hiperinflação ao colocar um sociólogo marxista na pasta da Economia, e o resto é história: de 1994 a 2014, as eleições presidenciais foram disputadas entre PT e PSDB, dois partidos nascidos no seio do departamento de sociologia da USP.

Nesse período, os atores mais constantes na vida nacional foram estes dois partidos, mais a dupla egressa do bipartidarismo da era militar: MDB (ou PMDB), antigo partido democrático de oposição, e DEM (ex-PFL, surgido da ARENA), antigo partido de situação. Esse bipartidarismo imposto de cima fez com que não fosse possível falar em partido paulista ou partido mineiro, como na República Velha. Ao cabo, DEM e MDB (usemos seus nomes atuais) acabaram por se identificar com cacicados locais. São partidos regionalistas, que costuram uma colcha de retalhos para entregar à Câmara e ao Senado. Em Brasília, os partidos paulistas tinham de se haver com essas bancadas entregues pelos cacicados locais.

Em 2018, a primazia paulista na eleição presidencial se esfacelou: o PSDB não só não foi ao segundo turno, como ficou em quarto lugar, com míseros 4% dos votos válidos. Logo à sua frente, estava uma liderança nordestina, Ciro Gomes (PDT-CE); e atrás, com 2,5% dos votos, o neófito Amoedo (NOVO). Em primeiro lugar ficou Jair Bolsonaro, político periférico do Rio de Janeiro, que concorreu com uma legenda de aluguel.

Em 2020, esse processo de despaulistização avança. Pela primeira vez na história desta democracia, nenhuma capital elegeu o PT. E o PSDB levou quatro, sendo apenas uma de um grande colégio eleitoral: São Paulo, sua casa. O PSDB perdeu Belo Horizonte para um outsider reeleito. Sobraram-lhe uma no Nordeste (Natal) e duas na Amazônia (Porto Velho e Palmas).

Principais partidos com identidade pelo país

Existem aqueles partidos amorfos ao qual se chama popularmente de Centrão. PP, Avante, Republicanos, Patriotas, PSL etc. Não os coloco na análise porque a filiação a esses partidos não é muito informativa; muitas vezes funcionam como legenda de aluguel para quem queria sair avulso como candidato. O MDB, embora seja um saco de gatos, tem história, e é reconhecível por sua organização regional.

Até aqui, listei quatro partidos importantes (DEM, MDB, PSDB, PT), e agora acrescento mais três partidos: PSB, PDT e PSOL. PSB e PDT são, hoje, partidos de oligarquias nordestinas: a do falecido Eduardo Campos, candidato à presidência em 2014 (substituído por Marina Silva), e a de Ciro Gomes. São o poder do Recife e de Sobral no mapa regional, e ganharam, somados, 4 capitais, todas no Nordeste. (Como o partido herdeiro do varguismo gaúcho se tornou o partido da oligarquia de Sobral é assunto para verdadeiros cientistas políticos.)

E o último é o PSOL, uma espécie de seção do PT voltada para o funcionalismo público — não é de admirar, portanto, que tenha despontado no começo entre cariocas e gaúchos, cidadãos assombrados pelo fantasma de Brizola. Este ano o PSOL ficou melhor do que o PT, porque levou uma capital (Belém), e levou Boulos ao segundo em São Paulo. Isso pode dar a impressão de que o PSOL está substituindo o PT, mas acho mais apropriado falar em uma fusão. Afinal, o PT deixou de lançar candidaturas próprias em algumas cidades para apoiar o PSOL. Este foi o caso de Belém, Manaus e Florianópolis.

As esquerdas no Brasil

Não existe nenhuma capital do Brasil em que o PT e o PSOL tenham disputado relamente votos. Há briga verdadeira entre PSB e PT (vide os primos no Recife), mas não entre PT e PSOL. Assim, prefiro dizer que em alguns estados o PSOL absorveu PT na capital. À exceção do Pará — onde, aliás, o PSOL ganhou —, isso só aconteceu do Sudeste para baixo: Minas, São Paulo e Santa Catarina. É de se presumir que o psolista Edmilson, ex-petista e político tradicional do Pará, não tenha adotado um discurso tão ideológico quanto o dos seus correligionários ao sul. O voto deve ter sido mais pessoal e menos partidário.

Deixando teoria política de lado, e adotando o vocabulário eleitoral brasileiro da década passada, podemos dizer que esquerda significa adesão ao lulismo. PT e PSOL são, no frigir dos ovos, a mesma coisa. Já os nordestinos só aderem depois de descobrir que não podem ganhar para o PT. Campos e Ciro são satélites por falta de opção; querem que o PT seja o seu satélite. Daí, brigam.

Há estados em que um dos dois partidos nordestinos foi a principal força política de esquerda da capital, desbancando os lulistas leais. São eles: Ceará, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Acre, Rio de Janeiro e Paraná. Só obtiveram vitória no Nordeste. (Repito: considero aqui os 7 partidos analisados. Houve lugares em que o Cidadania, ex-PPS, teve mais destaque, mas o Cidadania não é relevante, e não adere sempre a Lula.)

E há estados cujas capitais tiveram o PT como principal força política de esquerda, sem chance para oligarcas nordestinos esquerdistas: Amazonas, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Bahia, Espírito Santo, Goiás e Mato Grosso do Sul. Em todas, perdeu.

Por fim, há dois estados onde todas as forças de esquerda são pífias: Roraima (que tem a crise da Venezuela no nariz), Rondônia e Mato Grosso.

É digno de nota que no Rio de Janeiro, na Bahia e em Goiás os candidatos mais votados desses partidos de esquerda tinham o nome de urna com uma patente, ou seja, candidatavam-se como Delegada Fulana ou Major Sicrana. Isso é um marco daquilo que podemos caracterizar como candidaturas do contra. As lideranças locais sentiram o declínio do petismo, e mimetizaram os do contra.

Onde estão os do contra

Digo “do contra” apenas para sinalizar uma ruptura incondicional com essa ordem paulista do Brasil, vigente até 2018. Não necessariamente são bolsonaristas, mas são necessariamente antipetistas e desprezam os tucanos.

O único estado onde um do contra levou a capital foi o Espírito Santo. Lá se elegeu o Delegado Pazolini, de 38 anos de idade, que ingressou na vida pública em 2018, ano que foi marco da ruptura.

Por pouco, dois do contra não levam as capitais do Pará e do Ceará, estado sede do clã Ferreira Gomes. Em Belém, um completo neófito em legenda de aluguel, com zero experiência de vida pública, desbancou políticos tradicionais e quase ganha a prefeitura, que terminou elegendo um psolista. Terá sido a rejeição ao PT a causa de sair um candidato filiado ao PSOL? Sikêra Júnior, fenômeno de audiência sediado no estado vizinho, viajou para Belém na antevéspera da eleição, e estava em cruzada contra o partido da “lacração”. (Que a audiência de programa popular já conheça o termo, é coisa digna de nota). É sensato apontar um grande sentimento de ruptura no Pará, uma vez que por pouco não trocam um político conhecido por outro totalmente desconhecido, e que lá o PT nem saiu candidato.

Em Fortaleza, quase ganha do candidato de Ciro Gomes um do contra em legenda de aluguel. O Capitão Wagner ingressou na política em 2011 como policial amotinado (uma espécie de Cabo Daciolo sóbrio), mas nunca alçou voos altos. Desde 2018, cresceu na vida pública, e pela primeira vez ousou tentar a prefeitura.

No Recife, o sucesso da esquerda pode ser atribuído a Bolsonaro. Tradicionalmente, o ex-ministro da educação, Mendonça Filho (DEM), disputa com a prole de Arraes. Mas Bolsonaro fez campanha por uma delegada desconhecida que terminou em quarto lugar, com 14% dos votos válidos. Mendonça ficou com 25, apenas 2 atrás de Marília Arraes, e não pôde ir ao segundo turno. Que Bolsonaro tenha tanta força no Recife, é digno de nota.

O país

É verdade que os eleitores votam pensando em ônibus e IPTU, mas isso não significa que o desempenho dos partidos seja irrelevante para ver o cenário nacional. Afinal, as elites políticas conversam entre si, e escolhem ou criam partidos. Por que se filiar ao PT e não ao PSOL? Ao DEM e não ao MDB? As capitais são importantes para enxergarmos as escolhas partidárias feitas pelas elites.

No Nordeste, há três elites políticas tradicionais com notoriedade nacional: Ciro Gomes do Ceará, Arraes/Campos de Pernambuco e ACM da Bahia. Todos filhos e netos de políticos. O Nordeste não mudou. E o grosso da região (especialmente a Bahia) está sempre pronto para apoiar qualquer governante que se sedimente em Brasília. Essa foi a única região onde os estados todos votaram todos pela manutenção do status quo na eleição de 2018.

Na Amazônia, há uma confusão tremenda: legendas de aluguel vão parar no segundo turno. Há políticos tradicionais, mas nem sempre eles estão em legendas tradicionais. Os partidos do segundo turno nas capitais dos dois maiores estados da região foram PSOL, Patriotas, Avante e Podemos. Em 2018, os únicos estados que votaram pela manutenção do status quo foram o Pará e Tocantins. A capital de um elegeu a muito custo o PT disfarçado de PSOL, e a do outro foi uma das 4 capitais do PSDB.

No Centro-Oeste, o PSD (uma espécie de alternativa ao MDB criada por Kassab) levou Campo Grande e foi para o segundo turno em Goiânia. O MDB levou Goiânia e Cuiabá.

No Sul, sem grandes mudanças. A capital da Lava Jato elege fácil um político antipetista tradicional, os catarinenses nem têm a chance de votar oficialmente num petista (só no PSOL), e os gaúchos põem a lulista pra correr no segundo turno. O Sul parece continuar mais ou menos o mesmo.

No Sudeste, o Rio continua o mesmo, e São Paulo é um capítulo à parte. Olhemos para Minas Gerais: esse importante estado, que por tanto tempo aderiu à polarização paulista (vide Aécio e Pimentel), pôs já em 2016 na sua capital um outsider; em 2018, pôs no governo do estado uma zebra completa, e agora reafirma sua posição. O prefeito Kalil e o governador Zema têm em comum o fato de serem empresários populares, de serem outsiders, e de tentarem ter luz própria, em vez de se venderem como bolsonaristas. Será uma tendência a ser repetida nacionalmente?

Kalil ganhou pelo PHS em 2016, concorreu agora pelo PSD e ganhou no primeiro turno. Em segundo lugar ficou um bolsonarista com quase 10%. Os belo-horizontinos tiveram a chance de votar no primeiro ministro de Direitos Humanos indicado por Lula, responsável por uma Cartilha do Politicamente Correto. Ele ficou com 1,88%. O PSOL foi bem maior, e teve 8,33%.

Meu chute

Teríamos sido espertos se prestássemos atenção à capital de Minas Gerais em 2016: ela prenunciava ruptura. Minas é aquele estado que sempre vota no presidente eleito. É urbano e rural, é populoso e diverso.

Se Minas sinalizar o futuro do Brasil, então teremos uma eleição mais digital, mais pragmática, menos ideológica e mais pessoal. Com o WhatsApp se criou um novo estilo de campanha menos impessoal, mais formiguinha. De minha parte, acho um bom Brasil. Quem reagirá a ele? Toda aquela elite empresarial-amiga inflada por São Paulo — vide a herdeira da Andrade Gutiérrez financiando Boulos). Toda a imprensa tradicional que não consegue sobreviver na internet. O funcionalismo, classe inflada pelo PT.

A ver no que vai dar. De tédio, não morreremos.

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