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Novak Djokovic: Aberto da Austrália
O sérvio no aberto de Turim (Itália), em outubro de 2021. Agora Novak Djokovic e Aberto da Austrália sofrem com a cultura do cancelamento.| Foto: EFE

A cultura do cancelamento bateu forte no mundo do tênis. O surto do 1º lugar no ranking da ATP, que desde o início das vacinas mantém “sigilo” sobre sua picada, virou gás para a turma do politicamente correto. Querem ele longe de um dos quatro maiores torneios do mundo: Australian Open e Novack Djokovic não podem ficar juntos.

Sem comprovar vacinação, na terça (4), o Djokovic recebeu permissão especial para disputar o Aberto da Austrália. Após muita gritaria, o primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison, ameaçou barrar o atleta, o que efetivamente aconteceu nesta quinta-feira pela manhã (horário de Melbourne): ele teve visto suspenso.

Barrado, o atleta ficou retido em um hotel da imigração australiana reservado a refugiados, onde esperou a audiência até esta segunda (10). A família do tenista reclamou do tratamento dado, dizendo que era uma espécie de cativeiro. A audiência veio e o juiz federal Anthony Kelly decidiu a favor de Djokovick.

Devidamente vacinado, jogador amador do esporte (café com leite, vá lá, mas faço aulinhas há um tempo e acompanho torneios) e jornalista que escreveu (notícias, fatos, não colunas) desde antes de a pandemia ser declarada pandemia, pergunto: tenho direito à opinião? Espero sim.  Ok, vamos lá.

Não sou fã do Djoko. Acho o sérvio abobado, apesar da genialidade no tênis. Ama aquela polêmica como alguns amam ser “Do Contra” independentemente da liturgia do cargo. Na escalada da pandemia, em junho de 2020, promoveu festas em Belgrado e apadrinhou um torneio chamado Adria Tour, na Sérvia e Croácia. Infectado, pediu desculpas “por cada caso de Covid”. “Foi errado e foi muito cedo”, disse.

Ele adotou uma postura antivacina desde sempre. Em maio de 2021 já esperava que ela não fosse mandatória para torneios da ATP. Mas o tempo passou, a vacina chegou a grande parte dos países desenvolvidos e o Australian Open disse que ela seria mandatória, a menos que houvesse “um bom motivo” para isso.

Djokovic conseguiu convencer a organização do torneio e o próprio governo australiano. Este, contudo, se rendeu à pressão da já conhecida “turma do politicamente correto”. Vamos aos fatos:

As condições do Australian Open a Djokovic e outros antivax

Segundo comunicado oficial do torneio, havia uma previsão para exceções médicas que deveriam seguir as regras Australian Technical Advisory Group on Immunisation (ATAGI) para passar por análise. Para simplificar, é algo como um grupo de trabalho que apoia o Ministério da Saúde e a Anvisa daquelas bandas do mundo.

Na última terça (4), os organizadores do Grand Slam (como chamam os quatro maiores torneios de tênis) chegaram à decisão que o atleta sérvio poderia competir (ainda que não seja bem-vindo por muitos colegas e australianos). Segundo divulgou o Australian Open: Djokovic aplicou por uma exceção médica, que foi concedida após um rigoroso processo envolvendo dois painéis independentes de especialistas médicos.

Bom, vale saber que a Austrália adotou uma política chamada de Estratégia Covid Zero, que teve fim em novembro.  Além disso, a Austrália está com 77% da população com a vacinação completa contra Covid-19 e mais de 90% em maiores de 16 anos (duas doses ou uma no caso da Janssen). E é bom lembrar que especialistas, por exemplo, dizem que atividades como aulas presenciais poderiam voltar com 70% das pessoas vacinadas.

Por que, então, em um país bem-sucedido no combate à Covid-19 não pode ter a “honra da presença” de um jogador que venceu nove vezes o Australian Open, nunca perdeu uma final desse torneio, incluindo a última edição, em 2021?

Vão dizer que Djoko tem que dar o exemplo… por que você exige que ele tenha uma opinião igual à dos iluminados? Afinal, quem não quer ele lá são os bastiões da moralidade ou os donos da verdade?

Réveillômicron e alta de casos, mas o problema é Djoko

Todos pareciam motivados com o Aberto da Austrália ainda que o país enfrente uma alta de casos, com quase 50 mil infecções confirmadas na terça (4) e 38 mil na segunda-feira (3). E ninguém parecia ligar muito para o fato de o torneio ter capacidade total de público mesmo antes e após o Réveillômicron, já que a variante Ômicron do coronavírus se espalha mais rápido, ainda que se suspeite ser menos letal em vacinados.

Nesse sentido, será que o problema é Djoko? Parece que é o tenista que vai agir como um Godzila espalhador de vírus, tossindo e cuspindo em todos, e não porque as próprias regras locais estão mais frouxas.

Aliás, é evidente que o sérvio recebeu tratamento especial do torneio, ainda que o diretor do Australian Open e CEO do Tennis Australia, Craig Tiley, jure que o contrário, e que tenistas antivacina “não tiveram a mesma sorte”. Em entrevista ao programa Today, da Austrália, o executivo confirmou que 26 atletas pediram exceção, mas não revelou quantos ganharam o tratamento de Djokovic, nem seus nomes.

É hipocrisia? É favorecimento? Claro que é! Mas quem disse que Djokovic precisa ser cancelado do planeta Terra porque faz estripulias dignas de vilão de Sessão da Tarde?

Australian Open, Djockovic e os protocolos

Além de passarem por testes de Covid-19 (o que é obvio), os tenistas devem (ou pelo menos deveriam) usar máscaras nos vestiários, ou em ambientes fechados. Um guia de regras da ATP de março de 2021 destaca isso: “Todas as áreas de jogadores devem ser separadas do público. Postos de segurança e de voluntários ficam em pontos de acesso. Apenas pessoas credenciadas são permitidas – máscaras devem ser utilizadas a todo o tempo”.

Por teimosia ou ser amante de tretas, tem quem nem sempre faça isso. Na própria final do Australian Open, Djockovic deixou a sua de lado, na mala ou no vestiário em 2021, ao entrar na quadra:

Nas Olimpíadas de Tóquio, em 2021, usou (ou foi obrigado a usar) durante a entrevista coletiva:

Então, quer dizer que ele e outros usarem máscara, na teoria, não diminui uma possível transmissão? Ou apenas a presença dele é uma ameaça à saúde pública e ao cérebro de “pobres inocentes” que seriam convencidos a tomar atividades antivacina? Não faz sentido esse cancelamento do atleta, até porque “os jogadores e sua equipe de suporte credenciados devem respeitar o distanciamento físico e precauções de Covid-19 aplicadas a cada evento”, destaca o guia da ATP.

Então, responda sinceramente: Djoko está trapaceando como a nadadora trans que quebrou recordes na natação feminina? Ou joga, como dizem por aí, dentro das quatro linhas?

Ah, os coitados dos juízes de linha do Australian Open

Outra ameaça que deve ser descartada é o contato e “bafo de jogadores” na cara dos juízes de linha do Australian Open: Novak e outros tenistas, provavelmente, não precisarão jogar perto deles. O Tennis Australia CovidSafe Plan (nome bonito, não?) prevê o uso do juiz de linha eletrônico (uma espécie de VAR do tênis), que acusa a saída da bola, tirando do jogo aquele pessoal que fica meio agachado gritando quando a bolinha pinga fora da quadra.

Mas e os boleiros? Bom, essa rapaziada (geralmente jovens / adolescentes) vai estar lá com máscara, coitados. Alguém precisa jogar bolinhas novas para os tenistas. Espero que eles não cocem o olho nos jogos do Djockovic no Australian Open, mas se quiserem eu faço o serviço. É só mandar a passagem e hospedagem (estou vacinado!).

Quem diria... jogar tênis é seguro e faz bem

Tem outro motivo também para o pessoal suspirar aliviado. Segundo ranking elaborado pela Texas Medical Association, em 2020, jogar tênis é a atividade esportiva de menor risco possível de contrair Covid-19. Aliás, está no “nível 2” ao lado de comer em ambiente aberto, colocar gasolina e acampar. Só perde para o nível 1: abrir a caixa do correio.

Parece óbvio, mas tênis não há contato com outras pessoas e seu adversário (ou mesmo dupla) costuma estar a (bem mais) que 1 metro e meio de distância. E jogar é recomendável. Olha só: faz bem para a saúde! Pelo menos é o que diz este estudo publicado no Britsh Journal of Sports Medicine, com quase 48,8 mil pessoas, que mostra que pessoas que não praticam esportes tem risco significantemente maior de hospitalização e óbito em casos de Covid-19.

Eu, honestamente, teria prazer em conversar sobre isso e jogar tênis com qualquer pessoa. Inclusive com os comentaristas que detonam Novak Djokovic e o Aberto da Australia. Dizem que ele nunca chegará aos pés de Rafael Nadal e Roger Federer por mais Grand Slams que ganhe. Olha, posso até concordar: acho Nadal e Federer muito mais sensatos. Parecem ser caras engraçados. Mas não é por isso que o rival sérvio merece ser cancelado pela turma politicamente correta e abolido da competição que defende o título.

O fato é que Novak tem o direito de ser abobado, e não cancelado. Assim como certas pessoas têm o direito de serem hipócritas após curtir aglomeração de Réveillômicron. Aqui ou na Austrália.

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