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Nos países com mais liberdade e menos discriminação por sexo, homens e mulheres se tornam mais diferentes, não mais iguais, em escolhas de carreira
Nos países com mais liberdade e menos discriminação por sexo, homens e mulheres se tornam mais diferentes, não mais iguais, em escolhas de carreira| Foto: BigStock

Em 2010, a ciência da natureza humana ganhou um aliado improvável: um comediante e sociólogo norueguês, Harald Eia. Se tivéssemos de imaginar que tipo de pessoa faria uma obra influente a respeito disso, dificilmente escolheríamos essas características. A obra foi Lavagem Cerebral, uma série documental em sete episódios em que Eia, num estilo não-confrontativo e bem humorado, conversa com especialistas de instituições locais sobre esse tema, e depois, geralmente em viagens internacionais, pergunta aos biólogos e psicólogos que não ignoram a biologia se o que os especialistas pagos com impostos disseram estava certo. Geralmente, não estava.

O primeiro episódio trata do paradoxo da igualdade de gênero, ou seja, do fato de que, nos países com mais liberdade e menos discriminação por sexo, homens e mulheres se tornam mais diferentes, não mais iguais, em escolhas de carreira. Um dos entrevistados é Richard Lippa, autor de um estudo publicado dois anos antes da entrevista. O estudo impressiona pela escala: 200 mil participantes em 53 nações.

No estudo, Lippa mostra a importância da igualdade entre os sexos: os índices de “desenvolvimento de gênero” e de “empoderamento de gênero” da ONU se correlacionam de forma muito alta com a renda por pessoa. Faz sentido: quando a pessoa individual tem dinheiro, ele faz valer os seus direitos, e vice-versa. Mas a descoberta maior do estudo é que a realidade biológica do sexo foi a melhor explicação para as diferentes escolhas de carreira entre homens e mulheres. Mais de uma década após o estudo de Lippa, ele continua relevante.

“Eu escolhi minha profissão. Como é possível a explicação ser biologia?”

É importante notar que homens e mulheres são mais parecidos do que diferentes, afinal, são a mesma espécie. As diferenças estão na média, no agregado, nos padrões que vemos nos grupos. Esses padrões revelam tendências que têm uma parte biológica nos neurônios e nos genes, e nossa personalidade é parte do fenômeno, tem bases biológicas. Então, não é o caso de o indivíduo ser desprovido da capacidade de decidir, mas que ele tende a decidir guiado pelo que ressoa mais com o que brota espontaneamente dentro de si.

Em países livres e prósperos, os indivíduos podem escolher profissões que realizam as suas preferências. Em países pobres e sob regimes autoritários é a sobrevivência, e não o conforto entre a labuta e a personalidade, o que dita as decisões. Alegar que os países livres e ricos são patriarcados opressivos que conspiram contra a suas mulheres, e que isso explicaria sua maior diferença em escolhas de carreira, seria puro conspiracionismo.

A personalidade de homens e mulheres, na média, é diferente. Profissões diferentes atraem personalidades diferentes. Logo, homens e mulheres são atraídos por profissões diferentes em proporções diferentes. Elas são mais atraídas por profissões em que lidam com pessoas e cuidados. Eles são atraídos por profissões em que lidam com objetos inanimados. Isso se reflete até dentro de especializações: na medicina, eles vão preferir a radiologia, elas vão preferir a pediatria. Na programação de computadores, elas vão preferir a interface com o usuário, eles vão preferir a estrutura por trás disso. Sempre há exceções. Mas os padrões são informativos e têm a ver com biologia.

Quando os padrões são desafiados, é interessante notar que homens e mulheres que fazem escolhas de carreiras atípicas para seu sexo são, também no agregado, atípicos para seu sexo. É simplesmente verdade que há mais gays e lésbicas nesses grupos. Não é para se concluir que todos que optaram assim são gays e lésbicas, mas para se reconhecer a verdade de que há um agregado de gays e lésbicas em certas profissões, quando são livres para escolher, e que gays e lésbicas são atípicos para seu sexo pois a maioria das pessoas é heterossexual.

Também não se trata de afirmar que só a biologia explica essas coisas. Porém, seria insistir na ignorância ignorar a importância de seu papel, como fizeram vários dos entrevistados de Harald Eia.

As diferenças de personalidade

Diferentes métodos são usados para aferir os componentes da personalidade. Uma das teorias mais populares hoje é que a personalidade pode ser partida em cinco grandes características (Big 5): abertura a experiências, conscienciosidade (ser organizado, pontual, regrado), extraversão (se é introvertido ou extrovertido), agradabilidade (se é alguém aprazível ou sisudo) e neuroticismo (se tem tendência a emoções negativas).

Como explicam David P. Schmitt, do Departamento de Psicologia da Universidade Bradley, e colaboradores, observam-se diferenças de moderadas a grandes em agradabilidade, busca de sensações novas (correndo riscos, por exemplo), agressividade física, interesse em coisas versus interesse em pessoas, atitudes com relação ao sexo e comportamentos sexuais como masturbação e uso de pornografia. Você que está lendo é capaz de adivinhar para qual dos sexos cada uma dessas diferenças vai. Outras diferenças existem, e são menores.

O debate científico sobre as diferenças entre sexos no cérebro

Em 2015, na revista científica PNAS, um grupo liderado pela cientista israelense Daphna Joel publicou um artigo em que sugeria que a maior parte das pessoas têm um “cérebro mosaico” com relação ao sexo, o que parece sugerir que o padrão da humanidade é a ambiguidade sexual cerebral e que as aparentes diferenças naturais seriam construídas pela cultura. O artigo, por confirmar vieses progressistas, causou um imenso alarde na imprensa. Já as respostas ao artigo, na mesma revista e mesmo edição, que utilizaram os mesmos dados dele para mostrar o contrário, foram ignoradas.

Joel, junto à escritora Cordelina Fine e a neurocientista Gina Rippon, encampam uma oposição ao mainstream do estudo das diferenças de sexo que faz muito barulho na mídia popular e no departamento de relações públicas de instituições científicas, mas tem pouco entusiasmo na área. Melissa Hines, Larry Cahill e Simon Baron-Cohen são alguns dos pesquisadores que estudam essas diferenças.

No caso do último, estudioso do autismo, o assunto é importante porque meninos têm mais autismo que meninas, e Baron-Cohen propõe que o autismo poderia ter algo a ver com uma exacerbação no desenvolvimento de áreas do cérebro mais pronunciadas na masculinidade.

A dra. Hines desenvolve pesquisas brilhantes na área, um de seus resultados mais recentes foi que meninas com hiperatividade de glândulas adrenais, que produzem hormônio masculino em seu organismo, têm mais dificuldade em serem socializadas em normas sociais e são mais rebeldes.

Já o dr. Larry Cahill alerta para o perigo de presumir que os sexos são iguais no cérebro: ele conta, por exemplo, que as mulheres estavam tomando uma dose alta demais recomendada pela bula de um sonífero por causa da confusão da “igualdade”.

Hoje há uma pressão política para que todas as profissões atinjam 50% de vagas para cada sexo. Enquanto há profissões que atraem homens e mulheres nas mesmas proporções, essa é uma expectativa irreal para profissões que tocam nas diferenças naturais de cérebro e personalidade entre sexos. Leva a injustiças, como afastar os interessados e bajular os desinteressados. E à infelicidade, pois as pessoas não gostam de se dedicar a profissões que não ressoam com suas preferências e personalidades.

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