É possível que “Capitão China” seja mais eficaz para angariar a simpatia em favor do povo chinês do que as obras encomendadas pela ditadura.
É possível que “Capitão China” seja mais eficaz para angariar a simpatia em favor do povo chinês do que as obras encomendadas pela ditadura.| Foto: Reprodução

Nos últimos anos, o regime comunista chinês tem intensificado suas ações na área da cultura, com o objetivo de vender mundo afora a imagem de um país moderno e poderoso. A saga dos filmes “Wolf Warrior”, por exemplo, faz parte desse projeto. Mas, apesar da aparência (e do epíteto de “O maior super-herói comunista do mundo”), o HQ “Capitão China” não faz parte desse esforço de guerra cultural.

A história do gibi remete ao Grande Salto para a Frente, a política autoritária implementada por Mao Tsé-Tung para promover o “progresso” chinês nos anos 1950. Na história, o herói faz parte de um projeto do regime comunista para a criação de um soldado invencível. Com o fracasso da iniciativa, em 1961, ele é preservado graças à criogenia e trazido de volta à vida cinco décadas mais tarde, parte como um projeto de reafirmação da ideia da Grande China, parte como golpe de marketing de um publicitário americano.

Os cinquenta anos de diferença causam algumas dificuldades de adaptação do herói, forjado sob a fase mais dura e anticapitalista do regime. Mas, rapidamente, o Capitão China aprende que as coisas mudaram e que seu país agora preza pela diplomacia. Não por acaso, o maior desafio do Capitão China na primeira edição da HQ é a proteção do presidente americano, que faz uma viagem diplomática ao país asiático.

O enredo traz, inclusive, algumas críticas ao regime comunista. A história descreve o Grande Salto Para a Frente como um “desastre”, faz referência ao racismo na China e não trata os americanos como inimigos. “A China que eu conheci não existe mais. Meu país agora é um mundo novo e corajoso, com infinitas possibilidades", afirma o super-herói.

O Capitão China não é uma simples peça de propaganda porque foi produzido de forma independente, fora do radar do regime comunista. Chi Wang, o criador do super-herói, é um escritor de origem chinesa que vive na Flórida. No currículo, ele tem passagens discretas como colaborador de grandes selos, como a Marvel. "Eu encarei a história da perspectiva de um personagem que se vê entre o antigo e o novo, sobre o que significa ser um herói sob as demandas do comunismo e do capitalismo ao mesmo tempo", explica ele no posfácio da primeira edição.

Como ponto positivo, “Capitão China” tem a originalidade e o traço bem-feito. Como ponto negativo, o roteiro pouco empolgante. A história não foge dos clichês de super-heróis, como a dos vilões que explicam todos os seus segredos ao herói antes da batalha decisiva. Assim como o Capitão América, aliás, o Capitão China não tem poderes sobre-humanos: é apenas uma espécie de soldado com anabolizantes, cujo maior diferencial é uma pistola poderosa (batizada de “o canhão da revolução”).

Publicada em inglês e chinês, a HQ foi lançada pela Excel Comics e tem dois números disponíveis na Amazon. Não há sinais de que o produto tenha alcançado um grande sucesso comercial. Mas, mesmo com suas falhas, é possível que “Capitão China” seja mais eficaz para angariar a simpatia em favor do povo chinês do que as obras ufanistas produzidas por encomenda da ditadura.

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