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Na saída da estação de metrô mais próxima do Lincoln Financial Field, na Filadélfia, manifestantes com bandeiras palestinas gritavam "Palestina livre" enquanto os fãs de Ed Sheeran seguiam para o estádio, na noite de sábado, 19 de setembro. Alguns hesitaram na calçada antes de entrar. Brandon Ateke, estudante de 18 anos da Universidade Brown, desistiu do ingresso, ficou do lado de fora e disse à agência AFP que o cantor tinha sido cúmplice no silenciamento de um colega. Lá dentro, Sheeran subiu ao palco sem artista de abertura e tocou as primeiras músicas sozinho, com violão e pedal de loop. Mais tarde chamou cinco músicos que, segundo ele, tinham aprendido o repertório em três dias, e agradeceu por terem aparecido numa semana em que ninguém queria dividir o palco com ele.
Sheeran construiu uma das carreiras mais rentáveis da música pop com canções de amor que tocam em festas de casamento, como Perfect e Thinking Out Loud, e nunca ofereceu ao público outra coisa. Nas últimas duas semanas, passou a ser julgado como se tivesse prometido militância, por causa de uma disputa que começou com o rapper que ele contratou para abrir seus shows e foi decidida por um bilionário dono de estádio.
Duas noites no MetLife Stadium
Macklemore abriu as apresentações de Sheeran no MetLife Stadium, em Nova Jersey, nos dias 4 e 5 de setembro. Nas duas noites declarou solidariedade aos moradores de Gaza e da Cisjordânia, gritou "Palestina Livre" e cantou Hind's Hall, faixa cuja letra diz “Onde o genocídio se encaixa na sua definição, hein?”". Na segunda-feira seguinte, estava fora da turnê.
A versão do rapper, publicada em comunicado, é que Sheeran lhe contou ter recebido um aviso de Robert Kraft, dono do New England Patriots e do Gillette Stadium, em Massachusetts: Macklemore não se apresentaria na casa dele. Kraft, ainda segundo o relato, reuniu donos de outros estádios e passou a Sheeran um ultimato coletivo, pelo qual a permanência do rapper na programação custaria ao cantor as datas de todos os shows de sua turnê. Kraft defendeu o veto em público, alegando que Macklemore tinha feito sua defesa dos palestinos às custas da comunidade judaica. Sheeran, em nota divulgada no meio da semana, atribuiu a decisão final à promotora da turnê, a Messina Touring Group, e aos estádios. Disse ter conversado com Kraft e com outros proprietários para tentar reverter a exclusão e negou ser cúmplice dela.
A saída de Macklemore puxou a dos outros. Finneas, produtor e irmão de Billie Eilish, deixou a turnê. O dinamarquês Lukas Graham saiu em seguida, com uma nota na qual escreveu que dinheiro não dá a ninguém o direito de ser dono da conversa. O irlandês Aaron Rowe, amigo pessoal de Sheeran, disse que perderia o respeito por si mesmo se continuasse como se nada tivesse acontecido, e ainda assim fez questão de defender o cantor ao anunciar a decisão. A banda folk irlandesa Beoga, que dividia com o próprio Sheeran uma parte do show, foi embora agradecendo a amizade e culpando o que chamou de lobbies sionistas pelo silenciamento de Macklemore.
A conta chegou a Filadélfia antes do primeiro acorde. Segundo a AFP, os ingressos daquela noite circularam mais depressa no mercado de revenda ao longo da semana, com queda forte de preço. O estádio ficou quase cheio, e a turnê Loop segue como a de maior bilheteria do mundo neste momento. O prejuízo que se vê no palco é de outra ordem: um espetáculo desenhado para uma banda de apoio e uma sequência de artistas convidados passou a depender de cinco instrumentistas recém-contratados e da disposição do público em relevar os tropeços.
O discurso antes da primeira música
Sheeran pediu licença à plateia para dizer algumas palavras sobre a semana. Contou que está acostumado a ter o próprio trabalho criticado, mas que dessa vez a crítica era sobre algo muito mais importante. Chorou ao dizer que vinha tomando decisões difíceis, que estava cometendo erros e que sentia muito. Afirmou que seus shows sempre foram um espaço seguro para todos e que isso importava enormemente para ele. Disse estar profundamente preocupado com a ideia de que estádios pré-aprovem o conteúdo das apresentações, prática que encontra em muitos países onde toca e que, segundo ele, nunca deveria acontecer no mundo livre. Depois explicou que tentou a carreira inteira não ser comentarista político, porque queria que sua música tratasse de união e de humanidade, e que nunca quis ser um músico ativista.
Na mesma fala, disse que o ataque ao festival Nova, em Israel, em 7 de outubro de 2023, foi horrível e somou-se a séculos de dor judaica, que o que acontece em Gaza é catastrófico, injustificável e desproporcional, e que a injustiça sistemática na Cisjordânia não pode ser ignorada. Terminou pedindo desculpas aos pais que tinham levado crianças ao estádio pela primeira parte da noite. O cantor que passou quinze anos fugindo do palanque subiu nele por obrigação, diante de uma plateia de famílias que tinha comprado ingresso para ouvir a balada pop Shape of You.
Nem tanto quanto o Rage, mas um pouco como o U2
Em 1992, o Rage Against the Machine estampou na capa do disco de estreia a fotografia do monge Thich Quang Duc ateando fogo ao próprio corpo numa rua de Saigon, em 1963, em protesto contra a perseguição aos budistas no Vietnã do Sul. Vinte anos depois, integrantes do coletivo Pussy Riot entraram na Catedral de Cristo Salvador, em Moscou, para cantar contra Vladimir Putin diante do altar, e duas delas passaram quase dois anos presas. Quem compra ingresso para um desses grupos sabe o que vai ouvir, e a militância está embutida no que o artista vende.
O catálogo de Sheeran pertence a outra prateleira, a mesma da queridinha do pop Taylor Swift. Ela declarou voto em Kamala Harris em 2024 e foi cobrada nas redes sociais por não se manifestar sobre Gaza, mas atravessou a sua turnê Eras sem ver um artista de abertura abandonar o palco dela. A cobrança que recai sobre Sheeran tem a mesma origem, mas outra intensidade. Ele não foi chamado a opinar por alguma coisa que cantou, e sim por aquilo que um convidado cantou no palco que ele próprio cedeu.
No entanto, vale lembrar que Sheeran tem convicções políticas e já as expôs quando quis. Em 2022, poucos meses depois da invasão russa, regravou sua música 2step com a banda ucraniana Antytila e destinou a renda do clipe a um fundo de ajuda humanitária. Em fevereiro deste ano, apareceu em Yours Eternally, faixa do EP Days of Ash, do U2, ao lado de Taras Topolia, vocalista do Antytila e soldado em serviço. O clipe, montado por militares ucranianos a partir de imagens reais da frente de batalha, estreou em 24 de fevereiro, data do quarto aniversário da invasão. O guitarrista The Edge apresentou o disco dizendo que a banda acredita num mundo onde fronteiras não são apagadas pela força.
Tudo culpa de Roger Waters
Macklemore herda um modelo antigo de cobrança entre músicos. Roger Waters, cofundador do Pink Floyd, apoia desde 2011 o BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções, na sigla em inglês), movimento que pede o isolamento econômico e cultural de Israel, e há anos pressiona colegas a cancelar shows no país. Em 2017, assinou com o arcebispo sul-africano Desmond Tutu e o cineasta Ken Loach uma carta aberta pedindo que o Radiohead desistisse de tocar em Tel Aviv. Thom Yorke, vocalista do grupo, respondeu em público, e a banda fez ali um dos shows mais longos de sua história recente. No mesmo ano, a campanha mirou Nick Cave, que também cumpriu suas datas em Israel. Tempos depois, Cave publicou a carta em que explicava a Brian Eno, outro defensor do boicote, que não conseguiria tratar seus fãs israelenses com o desprezo necessário para atender ao pedido.
Em 2024, Cave voltou ao assunto num podcast e classificou a postura de Waters de constrangedora e profundamente prejudicial. Waters respondeu com um vídeo no Instagram, dirigido ao australiano pelo primeiro nome, repetindo que a questão não tinha complicação nenhuma e que cantar em Israel servia para encobrir a ocupação. A cobrança de Waters tinha endereço, era feita de fora e deixava ao colega a decisão de ir ou não ir. Macklemore, que em Hind's Hall acusa a indústria musical de cumplicidade por silêncio, levou a cobrança para dentro da turnê de um colega, com o público no meio do fogo cruzado.
Macklemore já fez chacota com judeus ortodoxos
Em maio de 2014, Macklemore fez uma apresentação surpresa no museu Experience Music Project, em Seattle, numa festa em que os convidados deviam se fantasiar de seu ídolo musical. Apareceu de peruca preta em corte tigela, barba postiça, nariz protético avantajado e terno escuro semelhante aos usados por judeus ortodoxos. O ator Seth Rogen, que é judeu, escreveu no Twitter que, se pedisse a alguém para montar uma fantasia antissemita, a lista de compras seria exatamente aquela. Macklemore disse primeiro que se tratava de uma fantasia qualquer, comprada às pressas, e depois publicou em seu site um pedido de desculpas no qual admitia que o disfarce podia ser lido como caricatura judaica. A Liga Antidifamação (ADL, na sigla em inglês) aceitou a retratação e disse que tomaria o rapper pela palavra quanto à ausência de má intenção.
As fotos voltaram a circular nas últimas semanas. O episódio mostra que ele próprio já precisou da boa vontade alheia e a recebeu. Doze anos depois de uma retratação aceita pela principal entidade de combate ao antissemitismo dos Estados Unidos, Macklemore segue com carreira, plateia e voz no debate. A mesma indulgência não alcançou, até agora, um cantor que chorou no palco pedindo desculpas por decisões que, segundo ele, nem foram suas.
Do segundo ao décimo oitavo lugar na Billboard
Os melhores anos de Macklemore foram divididos com o produtor Ryan Lewis. O disco The Heist, de 2012, chegou ao segundo lugar da parada de álbuns da Billboard, a Billboard 200, e colocou Thrift Shop e Can't Hold Us no topo da parada de singles no ano seguinte. This Unruly Mess I've Made, de 2016, alcançou o quarto lugar. O primeiro disco solo depois da parceria, Gemini, voltou ao segundo lugar em 2017. Já Ben, lançado em março de 2023, parou no décimo oitavo e mostra que o rapper está empacado na fase atual de sua carreira.
No entanto, na semana em que foi retirado da Loop Tour, os streams das faixas solo de Macklemore saltaram de 282 mil no domingo para 767 mil na terça-feira, alta de 172% em dois dias, segundo levantamento da Billboard. O rapper anunciou a doação de US$ 1 milhão a ações humanitárias para os palestinos e desafiou Kraft a doar o mesmo valor. Um porta-voz do empresário respondeu que Kraft e Sheeran vão doar US$ 2 milhões cada, sem informar para onde vai o dinheiro. Sheeran continua a turnê com os cinco músicos que aprenderam suas canções em três dias, e Macklemore, a quem bastaria uma frase para tirar o colega do banco dos réus, ainda não a disse.




