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Sem telas e com cursos de masculinidade: os jovens na China vão na direção oposta ao Ocidente
Sem telas e com cursos de masculinidade: os jovens na China vão na direção oposta ao Ocidente| Foto: EFE

Não é difícil encontrar livros, estudos e reportagens que retratam os jovens nascidos a partir da segunda metade da década de 1990, a “geração Z”, sobretudo no Ocidente. Solitários, engajados com causas progressistas e vítimas das maiores taxas de depressão e ansiedade da história - principalmente graças aos hábitos digitais convertidos em vícios - este público já representa cerca de 30% da população mundial e é alvo de pesquisas substanciais, sobretudo nos Estados Unidos (publicado no Brasil em 2019, o livro “iGen - Por que as crianças superconectadas de hoje estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes e completamente despreparadas para a vida adulta”, da psicóloga Jean Twenge, é um dos mais referenciados da área).

Acontece que, enquanto este lado do globo investe em apetrechos tecnológicos para crianças em idade escolar, sem a devida contrapartida em exercícios físicos (colhendo uma epidemia de obesidade infantil), e em treinamentos de pró-diversidade - em muitos dos quais professores são convidados a “desconstruir” suas identidades “brancas, cisgênero e heteronormativas” -, a China prepara uma geração para caminhar na contramão do Ocidente.

Em fevereiro deste ano, o ministro da Educação do gigante asiático anunciou um projeto para atacar a "crise da masculinidade", entendida como um “efeito colateral” da política do filho único, e fomentar a criação de meninos “fortes e viris”. Isso porque, segundo o comunicado oficial, a presença de professoras em escolas infantis e a popularidade de celebridades da cultura pop - entre elas, garotos magros, de roupas de marca e acessórios coloridos - teria tornado os meninos “fracos, inferiores e tímidos”.

À guerra pela masculinidade, segue-se a luta contra o vício em telas (apontadas pela mídia estatal chinesa como um dos fatores responsáveis pela “fraqueza” dos meninos, junto com a masturbação e a falta de exercícios): desde o último mês de agosto, menores de idade 18 anos são proibidos de passar mais de três horas por semana em frente ao computador, em nome do combate ao que as autoridades chinesas já classificaram como um “ópio espiritual”.

A começar pelas emergentes “escolas de masculinidade”, as medidas preocuparam acadêmicos e ativistas, que alertaram para o risco do aumento de casos de bullying com jovens que não se encaixem nos papéis exigidos pelo Estado e com o público LGBT, além da desvalorização das meninas em um país onde bebês do sexo feminino foram, por décadas, considerados “descartáveis”; enquanto grandes empresas de videogames se preparam para o baque no consumo do país que abriga 665 milhões de jogadores. Com os efeitos do anúncio na bolsa de valores, o comunicado do governo não foi menos assertivo: “os adolescentes são o futuro da nossa pátria. Proteger sua saúde física e mental é uma das prioridades vitais de nosso povo”. Com as lentes do liberalismo moderno, é quase impossível não endossar os alertas. Do lado de dentro do “Grande Firewall” - a rede de internet chinesa -, contudo, as reações são bem diferentes.

“A principal preocupação das famílias chinesas e do governo é, sem dúvida, a produtividade econômica. As questões de gênero e sexualidade não parecem estar muito na mente das pessoas comuns (exceto para aqueles que pertencem a comunidades minoritárias, como LGBT etc.). Embora existam alguns conflitos nas redes sociais sobre essas questões, trata-se de um tema muito menos visível na sociedade, em geral, do que no Ocidente”, diz Ryan Mitchell, formado em Direito pela Universidade de Hong Kong e doutor pela Universidade de Yale, à Gazeta do Povo. O limite de acesso às telas, por sua vez, pode ser contornado com a supervisão de um adulto: “pode ser mais correto dizer que essas restrições reforçam o papel de tomada de decisão dos pais”.

A mais antiga das civilizações

Para quem atribui à Europa a alcunha de “Velho Mundo”, é mesmo fácil esquecer de que é na Ásia que residem algumas das mais antigas e intocáveis civilizações da humanidade. E é neste passado desconhecido e distante das reformas liberais que marcaram o mundo ocidental que jazem as raízes das tradições que o Partido Comunista Chinês, hoje, insiste em preservar.

Um século antes de Platão (que viveu entre 420 a.C. e 340 a.C.) lançar as bases da democracia ateniense, Confúcio construía e propagava sua filosofia política que, embora não negasse a existência de um mundo transcendente, era focada no mundo material. Ainda que não tenha se popularizado desde o princípio, o confucionismo se consolidou na China a partir dos anos 200 a.C., com a ascensão da dinastia Han, que dominou a região por cerca de 400 anos. Até hoje, a maior etnia da China se considera descendente desta família.

“Toda filosofia confuciana é construída num contexto de organização social-familiar clânica e patriarcal da China antiga. E é uma filosofia que justifica e cria valores que conservam justamente estas estruturas. Confúcio estabelece muito bem os papeis de cada membro da família, construindo uma estrutura patriarcal em todo semelhante ao que seria para nós um ‘patriarcalismo cristão’. É uma estrutura que enaltece a dominância masculina, a submissão feminina e a supremacia da figura do Ancião [Lao (老)] sobre a figura do Jovem [Zi (子)]. Todos estes valores estão vivos e são tomados com importância institucional na China contemporânea”, explica explica Lucas Leiroz, consultor geopolítico e pesquisador das relações sino-brasileiras.

“E é nisso que podemos entender o horror chinês às ‘western trends’ (as modas ocidentais). São tomadas como verdadeiras afrontas aos valores tradicionais, pois distorcem os papéis dos membros do clã familiar. Tudo que adultize a criança, infantilize o adulto, feminize o homem ou masculinize a mulher será sempre visto como anti-tradicional”.

O comunismo peculiar da China

A combinação parece paradoxal. Para o Ocidente, que conheceu Winston Churchill, Ronald Reagan e Margareth Thatcher, o comunismo soa como a antítese perfeita tanto à primazia da liberdade individual como das tradições religiosas e familiares que deveriam servir aos interesses do Estado. Mais uma vez, é preciso ter em mente o caráter peculiar da sociedade chinesa.

“A China é uma civilização muito, muito forte, com mais de 5 mil anos de história. É a única que se mantém integral, com praticamente nenhuma mudança territorial e étnica. Quando um pensamento ocidental é importado, a tendência não é que ele transforme a China, mas que a China o transforme. O próprio comunismo não transformou a China: a China transformou o comunismo em uma ideologia chinesa”, explica Leiroz.

Para o especialista, a Revolução Cultural promovida por Mao Tsé-Tung após a Revolução Comunista de 1949 não conseguiu abolir por completo a herança confucionista da sociedade tradicional chinesa, apesar da tentativa de implementação de uma ideologia materialista.

“A censura não é nova. Por um tempo, uma parte do Partido Comunista conduziu uma campanha contra a ‘poluição espiritual’. Quando eu estava crescendo na China na década de 1980, o Partido Comunista não gostava de música pop, calças largas, cabelos com permanente, histórias de amor e até beijos. O primeiro beijo no cinema na China moderna não aconteceu até 1980”, descreve a repórter Li Yuan, do The New York Times, em reportagem de março de 2019. De fato, com as reformas liberalizantes de Deng Xiaoping, entre 1978 e 1992, o comunismo chinês viveu um período de arrefecimento.

“Mesmo assim, os telespectadores chineses conquistaram mais liberdade de expressão aqui e ali nas quatro décadas seguintes. É por isso que, para alguns chineses da minha geração, a nova repressão ao entretenimento é alarmante, mesmo que os alvos sejam às vezes ridículos. Dois anos atrás, as emissoras e streamers começaram a borrar as tatuagens. (...) No ano passado, os rabos de cavalo masculinos receberam tratamento de desfoque. Há tantos borrões na internet chinesa que existe um termo para isso: ‘mosaicos borrados’”.

O recrudescimento da preocupação do Partido Comunista Chinês com o resgate dos “valores centrais do socialismo” - em sua versão chinesa: ordem, disciplina e civilidade - é inseparável da ascensão do atual secretário-geral do partido ao poder: Xi Jinping. Filho de um revolucionário devotado ao partido, Jinping foi criado sob disciplina militar - e tinha orgulho disso.

"O rigor de Xi Zhongxun [pai de Xi Jinping] para com os membros de sua família era tão sério que mesmo os mais próximos acreditavam que era quase desumano. Em 1993, Jinping disse que quando era jovem seu maior medo era o de seu pai acordá-lo com a água com a qual acabara de tomar banho. De acordo com um amigo da família de Xi, Zhongxun ficava ‘mais feliz’ falando sobre casos de seu filho se comportando ‘cheio de coragem’”, escreve o pesquisador Joseph Torigian, do Wilson Center, em Washington, em artigo enviado à Gazeta do Povo.

Como chefe do partido, conta Torigian, Xi continuou a exaltar as características herdadas do pai. No 19.º Congresso do PCC, afirmou que "a história olha com benevolência para aqueles com determinação, ímpeto e ambição", criticando "o hesitante, o apático, ou aqueles tímidos diante de um desafio". Ele também creditou o colapso da União Soviética ao fato de ninguém ter sido ‘homem o suficiente’ para lutar por ela.

“Por que a União Soviética se desintegrou? Por que o Partido Comunista Soviético desmoronou? Uma razão importante foi que seus ideais e convicções vacilaram (…). No final, ninguém era homem de verdade, ninguém brigou para resistir”.

"Certamente, temos pelo menos alguma razão para acreditar que as experiências de Xi levaram a uma obsessão por dominação e controle. Xi passou anos em um sistema educacional que enfatizava a luta de classes, que ensinava que a luta contra os inimigos era eterna e onipresente, que os inimigos podem estar por trás de qualquer problema, que qualquer um pode ser um inimigo, e que os inimigos devem ser maltratados”, diz o especialista em regimes autoritários.

“Há uma preocupação muito grande com o soft power como centro da política chinesa”, explica Lucas Leiroz. “E esse soft power seria a expressão global desse socialismo de características chinesas. O que o Xi tem de diferente? Ele vai alinhar esse resgate da China com o fortalecimento também do pensamento comunista. O atual secretário enxerga o marxismo como um pilar de renovação da civilização chinesa, ele não consegue conceber uma china comunista separada de seus valores tradicionais, nem uma sociedade tradicional chinesa separada do materialismo marxista”, explica.

A nova geração da China

A obsessão declarada de Xi com a juventude - não à toa, o secretário-geral do Partido Comunista Chinês dedica longos e calorosos discursos a este público em eventos oficiais - é traduzida na nova onda de censuras. Para o analista Ryan Mitchell, a preocupação do partido, mais do que com questões de sexualidade, é com a propagação do que consideram ser “valores burgueses estrangeiros”: o culto ao entretenimento e à celebridade.

“Muitos jovens chineses gostam muito de influências culturais estrangeiras - grandes grupos gostam de dramas coreanos e música pop, outros de anime e videogame japoneses, outros de filmes de Hollywood. O Partido Comunista provavelmente está preocupado em perder seu papel de orientação na mídia e na cultura”, explica.

O resultado são produções com cada vez menos cenas de sexo, nenhuma referência à homossexualidade, nada de brincos, acessórios ou cabelos coloridos em garotos. Menções à China são desejáveis - mas só se estiverem perfeitamente alinhadas à imagem de tradição e virilidade almejada pelo partido de Xi Jinping (vilões chineses, portanto, são proibidos). Tudo isso culmina em um movimento de mão dupla: se, por um lado, tudo o que chega de Hollywood e da indústria do entretenimento é cuidadosamente avaliado pelos censores, também os produtores se preocupam em não desagradar o mercado chinês.

Reportagens de jornais internacionais registram duas faces da medida: de um lado, jovens insatisfeitos porque suas séries, seus artistas e suas músicas favoritas sumiram das plataformas. “Seremos mais fáceis de manipular”, diz uma entrevistada de 22 anos ao The New York Times, cujos pais, fiéis ao partido, acreditam que “é melhor que ela não veja esse tipo de coisa mesmo”. Por outro lado, crescem os relatos sobre a adesão crescente da juventude chinesa aos valores nacionalistas de Xi Jinping.

“Tudo vai na contramão não apenas do mundo Ocidental, mas da própria modernidade. A tendência moderna vai no sentido de dissolver as sociedades tradicionais, dissolver as culturas e dissolver até as ideologias modernas. Nós vemos parte do mundo Ocidental dissolvendo parte do seu próprio pensamento liberal. Somos cada vez mais maleáveis, enquanto a China parece se solidificar”, avalia Leiroz. Trocando em miúdos, a liberdade - musa do Ocidente - não é um valor absoluto no gigante asiático, onde os frutos desta geração serão colhidos, pelos cálculos do Partido Comunista, nas próximas duas décadas. A ver os resultados.

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