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Fruto da jujuba (da planta Ziziphus jujuba), usada para fazer um chá contra o câncer pela empresa farmacêutica chinesa Quanjian | Pixabay
Fruto da jujuba (da planta Ziziphus jujuba), usada para fazer um chá contra o câncer pela empresa farmacêutica chinesa Quanjian| Foto: Pixabay

Absorventes com "íon negativo" para mulheres. Palmilhas de alta tecnologia para melhorar o sono. Chá de jujuba (feito da planta Ziziphus jujuba) para curar o câncer.  

Nos últimos 15 anos, o grupo chinês Quanjian saiu da obscuridade para se tornar um império de medicina alternativa com um faturamento de US$ 3 bilhões por ano, vendendo produtos tão inacreditáveis quanto a ascensão meteórica da empresa. Anos de dúvidas expressas por profissionais da área médica — e até uma dura investigação da influente emissora estatal chinesa — não conseguiram desacelerar o crescimento da empresa. 

Mas a história de Zhou Yang pode. 

Um grupo de médicos chineses despertou indignação nacional depois de publicar um relato de como eles analisaram as campanhas publicitárias de Quanjian e encontraram uma garota de quatro anos com câncer no Norte da China, que foi retirada da quimioterapia em 2012 seguindo o conselho de executivos da Quanjian, que lhe deram aromaterapia com pó de jujuba e óleo de raiz gromwell. Os executivos colocaram o rosto de Zhou Yang em uma campanha publicitária em todo o país para sua terapia contra o câncer, de acordo com os médicos. Os pais de Zhou Yang até a colocaram de volta na quimioterapia, mas já era tarde. Ela morreu em 2015. 

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A história da pequena Yang — e outros casos do suposto charlatanismo da Quanjian apurados pelos médicos — se tornou viral assim que atingiu um fórum chinês chamado DXY.cn, obtendo centenas de milhares de compartilhamentos e dominando as conversas na redes sociais chinesas. 

As acusações on-line contra a Quanjian, que geraram ampla cobertura da mídia e uma investigação do governo, chamaram a atenção para um grande problema da China, onde a indignação entre os cidadãos está aumentando devido a falsos produtos de saúde e anúncios enganosos que tiram proveito dos consumidores mais simplórios, particularmente entre os idosos e os pobres. 

O caso também levantou a questão: é possível um grupo de cidadãos derrubar um gigante corporativo em um país onde denunciantes enfrentam enormes riscos e retaliações, como visto em outros casos recentes?

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Quanjian negou categoricamente a denúncia dos médicos e disse que os processaria para proteger sua reputação. Mas já levou um forte golpe. As principais plataformas chinesas de e-commerce — incluindo JD.com, Suning e Vipshop — removeram todos os produtos Quanjian na quinta-feira (27). Reguladores em Tianjin, onde a sede da Quanjian está localizada, iniciaram uma investigação e disseram que tentariam verificar as alegações no post feito no site DXY. 

"Exigimos que Quanjian faça um esclarecimento abrangente e honesto sobre esse assunto", disseram os investigadores do governo na quinta-feira. 

Em seu post inicial no DXY.cn, os médicos afirmaram que a Quanjian conversou pela primeira vez em 2012 com a família de Zhou Yang, que foi diagnosticada com um tipo raro de câncer, persuadindo-os a suspender a quimioterapia da menina e optar por um tratamento alternativo. 

O artigo no DXY afirmou que o pai de Yang — um agricultor com pouca instrução — tomou a decisão depois de se reunir na sede da Quanjian com seu presidente, que alegadamente garantiu a eficácia da homeopatia de sua empresa. 

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"Conversamos por cerca de 40 minutos, e ele nos disse que a Quanjian é a maior base da China para pesquisa e desenvolvimento da medicina tradicional chinesa, e que tinha uma droga secreta contra o câncer que poderia curar minha filha", disse o pai, sob o pseudônimo Zhou Erli, ao portal de notícias ThePaper.com, de Xangai, nesta semana. 

Os remédios contra o câncer da Quanjian, que incluíam sachês de pó de jujuba para ingestão oral e óleo de raiz gromwell para aromaterapia, não impediram o crescimento de tumores malignos de células germinativas em Yang, disse o pai. 

Em março de 2013, a menina teve que ser mandada de volta ao hospital para tratamento regular. Mas a família de Yang descobriu que a Quanjian começou a usar as fotos da menina sem permissão em sua publicidade on-line para promover suas terapias anti-câncer "milagrosas". 

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Zhou Erli processou a empresa no início de 2015 por causa de propaganda enganosa, mas perdeu porque não tinha evidências insuficientes. Sua filha morreu em dezembro daquele ano. 

"Foi uma mentira descarada, e minha filha teve que tomar esses medicamentos por quatro meses inteiros", disse o pai esta semana. 

O relatório postado no DXY citou uma dúzia de julgamentos e reportagens. 

Em resposta, a Quanjian divulgou um comunicado na quarta-feira (26) dizendo que nunca afirmou que as terapias da empresa curaram Zhou Yang. Além disso, a empresa acusou o DXY de difamação e ameaçou tomar medidas legais se não fosse emitida uma retratação e um pedido de desculpas. 

Mas os médicos, que assinaram com seus nomes reais nos posts, não recuaram. Eles disseram que mantêm suas alegações e acusaram a Quanjian de também executar esquemas de pirâmide e não divulgar informações sobre a segurança de seus produtos. 

"Somos responsáveis por cada palavra que dissemos e até mesmo recebemos um processo de Quanjian", afirmaram os médicos em seu último post. 

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Muitos chineses dizem acreditar nos médicos que estão indo atrás do gigante médico. Na verdade, os riscos de enfrentar empresas poderosas na China são bem conhecidos. No início deste ano, um médico chinês foi preso por criticar uma marca tradicional de bebidas medicinais chamada Hongmao, que afirmava que poderia curar doenças para os idosos. 

O médico foi liberado depois de passar quase 100 dias na prisão, mas o caso gerou temores generalizados de que poderia estabelecer um precedente e silenciar o debate científico sobre remédios tradicionais. 

Sean Tan, de 28 anos, morador de Guangzhou, no Sul do país, expressou preocupação com a capacidade das grandes empresas de usar a lei criminal para punir os críticos. 

"O DXY vai encontrar-se sob pressão de todos os lados", disse Tan. "Afinal, Quanjian tem defensores poderosos e pode fazer qualquer coisa para proteger seus próprios interesses." 

Quanjian também é dono do time de futebol chinês da Superliga Tianjin Quanjian, onde joga o atacante brasileiro Alexandre Pato (também já passaram por lá o técnico Vanderlei Luxemburgo e o meio-campista Jadson, atualmente no Corinthians) além de mais de 600 hospitais e 7.000 clubes de saúde em toda a China. O fundador da Quanjian, Shu Yuhui, que se descreve como um fornecedor de receitas consagradas pelo tempo, tem uma fortuna estimada em US$ 1,5 bilhão (R$ 5,72 bilhões). 

"Não é impossível para a Quanjian retaliar os denunciantes da mesma forma que o Hongmao Liquor está fazendo", acrescentou Tan. 

Zhou Erli, o pai, disse que planeja entrar com outra ação contra a empresa nas próximas semanas, dada a atenção renovada ao seu caso. 

"Agora eu tenho material suficiente para provar que eles nos enganaram", disse Zhou. "Eu quero viver para ver o dia em que a Quanjian receberá a punição que merece."

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