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As cantoras Ludmilla e Luísa Sonza: as consequências da hipersexualização das divas pop
As cantoras Ludmilla e Luísa Sonza: as consequências da hipersexualização das divas pop| Foto: Reprodução

Sete compositores assinam a autoria do hit "Café da Manhã", lançado em 8 de fevereiro de 2022 e cujo clipe no YouTube acumula 40 milhões de visualizações. "Então pode puxar de lado, continua deitada/Relaxa, mozão, nem precisa levantar/Sei que não cansa, que é puro prazer, tá?/Vou dar de presente pra tu a minha—", dizem os versos, embalados por uma batida rápida. Entre os autores, estão as intérpretes da canção, a carioca Ludmilla e a gaúcha Luísa Sonza, que aparecem dançando em roupas curtas numa coreografia que, por vezes, simula o ato sexual.

A primeira performance ao vivo da canção ficou a cargo da gaúcha: na noite anterior ao lançamento, Sonza cantou trechos de "Café da Manhã" durante um show realizado no Hopi Hari, um parque de diversões em Vinhedo, no interior de São Paulo. Vídeos da apresentação foram parar na internet, e Luísa foi parar nos assuntos mais comentados do Twitter. Quase completamente despida por dois bailarinos, a cantora dançou seminua em cima de uma cama instalada no palco.

Dias antes, em um show no Rio de Janeiro, a cantora se apresentou seminua em uma barra de pole dance e, durante a coreografia, simulou a masturbação. Até para alguns dos fãs mais aguerridos da jovem, as performances "passaram dos limites". "Só eu que tô incomodada com essa sexualização que a Luísa Sonza faz de si mesma e chama de empoderamento feminino?", escreveu uma internauta. Em respostas às críticas que apareceram entre os milhares de comentários, Sonza escreveu ter "vontade de sair andando até sumir" ao ler "coisas burras e idiotas na internet".

Alçada ao estrelado em meados de 2018, quando se casou com o comediante Whindersson Nunes, de quem se separaria em 2020, Luísa Sonza, aos 23 anos, está longe, muito longe, de ser a primeira artista a protagonizar apresentações bastante sensuais nos palcos do pop: fãs de Madonna, Britney Spears, Miley Cyrus, da rapper Cardi B. e, claro, da carioca Anitta não têm dúvidas disso.

Ocorre que se, por um lado, com o passar dos anos, há uma sensação generalizada de que as ditas performances – bem como as letras que as acompanham - estão cada vez mais explícitas, por outro, seu alcance, hoje, extrapola em muito os antigos limites de idade mínima para comparecimento aos shows ou mesmo de grade horária. O “Café da Manhã” de Luíza Sonza não está a apenas um clique de distância, como se transformou em um convidativo “desafio” coreográfico, uma das “moedas” mais valiosas no universo do TikTok, a rede social chinesa que conta com cerca de um bilhão de usuários. Tanto lá quanto no Instagram de Mark Zuckerberg, basta uma zapeada rápida para esbarrar em meninas muito jovens (às vezes, visivelmente adolescentes) a reproduzir os passos da cantora. Só no TikTok, a hashtag #cafedamanhachallenge conta com mais de 116,6 milhões de visualizações.

O problema da normalização da pornografia no cotidiano de crianças e adolescentes é uma preocupação internacional. Publicada em dezembro do ano passado, uma pesquisa realizada pela entidade filantrópica britânica Barnardo's, que atende crianças vítimas de abuso sexual ou apresentam comportamento sexual nocivo, identificou um aumento no número de menores de idade que tiveram acesso a vídeos pornográficos. "As crianças não precisam saber digitar para acessar pornografia. Eles veem isso na escola, nos corredores, nos banheiros, no ônibus. Simplesmente não há censura – um vídeo leva a outro", diz uma das professoras participantes do projeto, em entrevista ao jornal britânico The Guardian.

A questão é que a linha entre a pornografia “hardcore” e o que hoje se chama de “soft porn” – imagens e vídeos que insinuam o ato sexual - está cada vez mais obliterada, especialmente porque o “soft porn” está cada vez menos “soft”. E a cultura popular tem, sim, um importante papel nesse processo. Uma pesquisa publicada pela revista acadêmica Psychology of Popular Media Culture em 2019, liderada pela pesquisadora Kathrin Karsay, da Universidade de Viena, identificou um aumento nos "movimentos sexualmente sugestivos" em vídeos de música pop. O estudo analisou 462 clipes veiculados entre 1995 e 2016, e chegou à conclusão que, embora o tema da sexualidade e suas representações (beijos apaixonados, toques íntimos) não tenham aumentado ao longo dos anos, houve um aumento significativo em "expressões sexuais ambíguas", movimentos e gestos sexualmente sugestivos (qualquer navegante do Spotify que já reparou no oceano de refrões no qual o verbo “sentar” é repetido à exaustão sabe do que se trata).

Degradante e violenta: a cultura imagética da pornografia

Em entrevista à Gazeta do Povo, a socióloga Gail Dines, professora emérita do Wheelock College em Boston e presidente da ONG Culture Reframed, explica que é impossível dissociar a normalização da pornografia da hipersexualização das divas pop. "Nós vivemos em uma cultura baseada em imagens, e imagens funcionam em um sistema. Elas não são vistas de forma isolada, mas compõem uma narrativa, influenciam umas às outras. Na prática, conforme a pornografia se torna mais degradante, mais violenta, ela tem um impacto na cultura pop que, por sua vez, impacta a pornografia. A pornografia passa ser o 'molde' para a forma como representamos o corpo na cultura pop", explica a ativista, para quem este processo remonta ao lançamento da MTV no início dos anos 1980. Vinte anos depois, veio a internet. “Então, o que antes estava disponível em espaços específicos, onde você precisava provar que tinha mais de 18 anos, agora estava por todo canto. Era um mercado de nicho que agora é gratuito", explica.

Trata-se, na verdade, de um mercado gratuito no qual as restrições não apenas são raras, mas insuficientes para demarcar a linha entre o conteúdo adulto e o infantil, uma mistura reforçada pelas próprias celebridades. “No próprio documentário, a Anitta diz que tem vários tipos de show: um aberto, outro só para crianças, etc. Cada vez mais esse limite entre o conteúdo adulto e o infantil se limita a um aviso de 'para maiores de 18 anos', que ninguém dá bola”, acrescenta o psicólogo João Paulo Borgonhoni, que vê na música um meio de rápida propagação cultural. "A música é muito mais rápida de ser absorvida do que um filme, um livro, uma prática religiosa; e, atualmente, não é mais escrita para durar, mas para integrar o esse mercado que precisa chocar".

Além disso, desde que o termo “empoderamento” tomou conta do mercado cultural, performances hipersexualizadas são embaladas com a justificativa de que representam o ápice do domínio da mulher sobre o seu próprio corpo: basta reparar no tom esnobe e “triunfante” dos hits que dominam o mundo pop, como se a mensagem de confiança fosse suficiente para impedir os efeitos nocivos. O problema é que, segundo Dines, não dá para fazer “as duas coisas ao mesmo tempo”: “Você não pode se vender como um objeto e depois pedir que a cultura não te objetifique", diz a socióloga. "Além disso, você vai envelhecer. Seu corpo não será o mesmo aos 30, 40, 50 anos. A mensagem que essas mulheres estão passando é a de que sua única moeda de troca é estar disponível sexualmente, mas isso não dura para sempre e não é autêntico".

A própria alegada autonomia das cantoras merece ser posta em xeque neste cenário. Um caso emblemático é o da cantora Demi Lovato, cuja árdua luta contra transtornos alimentares e o vício em drogas, decorrentes de um transtorno bipolar diagnosticado, é bastante conhecida pela mídia. Em 2015, a cantora lançou o álbum “Confident” ("Confiante"), cuja faixa-título bradava "eu estou no comando agora/(..) você não vai fazer com que eu me comporte/(...) o que há de errado em ser confiante?".

A produção, na qual imperavam looks com roupas curtas e coladas (não faltou quem notasse também o excesso de edições de imagem), lhe rendeu a primeira indicação ao Grammy. Foram necessários seis anos para que, em novo lançamento, a cantora admitisse que a decisão de mergulhar na sensualidade foi resultado da decepção com o álbum anterior, “Unbroken” (2011), e que a empreitada de "Confident" não lhe trouxe satisfação alguma.

Há um outro contraponto a ser feito ao discurso do empoderamento sexy: quem sofre suas consequências mais nefastas não são as influenciadoras. “Essas cantoras que dizem ‘olhe só o meu corpo, mas não me toque, ele não pertence a você’ têm guarda-costas, vivem em mansões protegidas. Você pode não tocar a Rihanna, mas você não tem uma legião de guardas. Na prática, estão colocando meninas comuns em risco ao insistir na mensagem de que seus corpos são públicos”, diz Dines.

Enquanto isso, meninos expostos ao mesmo conteúdo tendem a se tornar mais agressivos, e a esperarem de suas parceiras afetivas o mesmo comportamento dos ícones pop, cada vez mais similares aos da pornografia, que tende a se tornar cada vez mais pesada, por sua própria natureza. Relatam a ensaísta Mary Eberstadt e a psicóloga cognitiva Mary Anne Layden no livro “Os custos sociais da pornografia” (lançado no Brasil pela Editora Quadrante):

"Uma pesquisa com alunos universitários em seu primeiro ano sugere várias consequências perturbadoras da exposição a materiais sexualmente explícitos, incluindo: aumento na tolerância a materiais sexualmente explícitos, o que faz o consumidor querer material cada vez mais diferente ou bizarro para alcançar o mesmo nível de excitação ou interesse; percepções erradas sobre uma atividade sexual exagerada entre a população geral e sobre a prevalência de práticas sexuais menos comuns, como sexo grupal, zoofilia e atividades sadomasoquistas; risco maior de desenvolver uma imagem corporal negativa, especialmente para mulheres; e a aceitação da promiscuidade como um estado normal de interação". Isso sem contar a relação intrínseca entre o mercado pornográfico e o tráfico sexual (leia, aqui, nossa reportagem sobre como a pornografia lucra com vídeos de estupro e abuso sexual).

Ainda assim, boa parte do mainstream progressista continua a insistir que a solução para o problema da exposição precoce à pornografia e à hipersexualização das influenciadoras que dominam a cultura pop é a criação de uma “pornografia feminista” ou, meramente, continuar a “disfarçar” (muito mal) o fenômeno com discursos rasos de autoconfiança.

“O progressismo contemporâneo enfrenta um dilema premente: ele precisa sustentar o legado de amor livre e positividade sexual consequentes da revolução sexual, mas deve fazê-lo na era do Pornhub, na qual a liberdade sexual máxima produziu não um paraíso igualitário, mas uma mercantilização brutal do ser humano. Para os progressistas da elite, a pornografia sempre foi o distintivo da libertação que não ficou bem resolvido”, escreve o articulista Samuel D. James, em texto sobre a “ilusão da alfabetização pornográfica” (a ideia de que basta que meninos e meninas sejam expostos a uma “pornografia do bem” para que tudo se resolva).

“Educação é discernimento, sim, mas também é formação moral. Nenhum professor ou administrador que pretende manter sua carreira defenderia um currículo que tratasse o racismo da mesma forma que a ‘alfabetização pornográfica’ trata a obscenidade: como uma informação que leva o sujeito a se conhecer melhor e se tornar um consumidor mais informado. Da mesma forma, qualquer professor que convidasse um CEO de uma grande empresa de tabaco para dar uma palestra sobre por que sua carreira é satisfatória seria severamente repreendido”, reflete.

Considerando que se trata de um mercado que se retroalimenta e do qual muitas das próprias artistas são vítimas, é muito difícil apelar para a consciência dos envolvidos, restando preparar pais e educadores para o desafio de criar filhos em um mundo altamente sexualizado. "Todo pai com bom senso vai tentar proibir, mas vai chegar uma hora que não vai dar. Eventualmente, os filhos vão se encontrar com a cultura e seus males. Acho válida a tentativa dos pais de mediar este contato", diz Borgonhoni. “Meu principal conselho é: converse sobre sexualidade com seus filhos. Não uma vez: sempre. Se você não o fizer, tenha a certeza de que a pornografia fará”, alerta Dines.

Da parte dos grandes ícones culturais, há, aqui e acolá, pequenos exemplos que se destacam da horda: no ano passado, a cantora americana Billie Eilish, de 20 anos, uma das maiores referências da geração contemporânea, contou em entrevista como o consumo de pornografia desde os 11 anos “literalmente destruiu” seu cérebro. Não à toa, desde que chegou ao topo das listas de reprodução, a Billie é vista, na maior parte das vezes, usando roupas largas e compridas. “Ela é apenas uma das vítimas mais vocais. Sua experiência é normal; ela só tem uma plataforma para falar sobre isso”, escreve a jornalista Mary Harrington. “Nas entrelinhas (de suas falas) está uma reclamação implícita: onde estavam as pessoas que deveriam me proteger disso?”.

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