• Carregando...
Rachel Carson e o ilustrador Robert Hines, em pesquisas sobre biologia marinha
Rachel Carson e o ilustrador Robert Hines, em pesquisas sobre biologia marinha| Foto: Wikipedia

Talvez Rachel Carson não seja muito conhecida nos tempos atuais, mas na década de 1960 era difícil encontrar um americano que não soubesse seu nome. Nascida em 1907, nos Estados Unidos, a bióloga marinha, cientista e escritora, inaugurou o movimento ambientalista com o livro “Primavera silenciosa”, publicado em 1963. O ensaio apontava os pesticidas químicos como vilões para a saúde humana e animal, o que resultou na proibição do DDT (sigla para Dicloro-Difenil-Tricloroetano, inseticida de baixo custo usado no contexto da Segunda Guerra para eliminar mosquitos vetores de doenças como malária e dengue, além de pragas na lavoura) ao redor do mundo nas décadas seguintes. Visto como veneno dali em diante, o composto havia sido crucial na erradicação da malária em 11 países, incluindo os EUA. Com o embargo ao uso, milhões de pessoas voltaram a morrer da doença - sobretudo crianças de países pobres como Índia e Sri Lanka - até que, em 2006, a Organização Mundial da Saúde reviu seu posicionamento e passou a recomendar a pulverização de DDT em toda a África e em áreas com alta transmissão de malária.

Já no primeiro capítulo do livro, intitulado “Uma fábula para o amanhã”, Carson descreve uma “cidade no coração da América” à semelhança do Éden no relato da Criação, “onde toda a vida parecia viver em harmonia com o ambiente”. “Então uma estranha praga rastejou sobre a área e tudo começou a mudar… o gado e as ovelhas adoeceram e morreram… os riachos ficaram sem vida… em toda parte havia a sombra da morte”, completa. Os pássaros, prossegue a narrativa, foram especialmente afetados por esse mal e onde antes “pulsava com dezenas de vozes de pássaros, agora não havia som, apenas silêncio”.

A “primavera silenciosa” não vitimizou apenas pássaros, Carson prossegue, mas crianças, que passaram a sofrer anemia, doenças hepáticas, defeitos congênitos, anormalidades cromossômicas, leucemia e até morte súbita. A esses males, que seriam causados especialmente pelo DDT, ela soma infertilidade e câncer uterino acometendo mulheres.

A autora alertava não estar apontando problemas que poderiam acontecer, mas coisas que já haviam ocorrido. No mesmo ano de publicação da obra, Rachel Carson pediu a criação de uma Comissão de Pesticidas no Departamento de Comércio dos EUA, que regulasse o uso do DDT. O órgão foi criado e, uma década depois, tornou-se a Agência de Proteção Ambiental, que baniu o uso do DDT no país. Progressivamente, o uso internacional do DDT perdeu apoio mundialmente, após a decisão americana.

Milhões de mortes 

Demonizado pela mãe do ambientalismo, o DDT foi uma arma eficaz no combate à malária, considerada a doença que mais matou pessoas na história da humanidade. Excluindo-se guerras e acidentes, historiadores estimam que a enfermidade tenha sido responsável por metade das mortes humanas desde a Idade da Pedra. Com a diminuição dos índices de contágio pela malária, subiram a expectativa de vida, a produção agrícola e o valor da terra, afirma Paul Offit, professor de pediatria e autor do livro “Laboratório de Pandora: sete histórias de ciência que deram errado” (em tradução livre, sem edição no Brasil).

Offit completa que possivelmente o país mais beneficiado pelo DDT tenha sido o Nepal, onde mais de dois milhões de pessoas, a maioria crianças, sofriam de malária quando as pulverizações da substância começaram, em 1960. Oito anos depois, havia apenas 2,5 mil contaminados com a doença e a expectativa de vida cresceu de 28 para 42 anos.

A malária ressurgiu no mundo depois que o DDT foi banido. “Desde meados da década de 1970, quando o DDT foi eliminado dos esforços de erradicação global, dezenas de milhões de pessoas morreram de malária desnecessariamente: a maioria eram crianças com menos de cinco anos de idade. Embora fosse razoável proibir o uso do DDT na agricultura, não era razoável eliminá-lo do uso na saúde pública”, acrescenta o professor Offit.

Na Índia, o uso do DDT entre 1952 e 1962 derrubou os 100 milhões casos anuais de malária para 60 mil. Com a proibição do uso, o número voltou a crescer para 6 milhões no final dos anos 1970. No Sri Lanka, 2,8 milhões de pessoas sofriam de malária quando o DDT começou a ser usado, número que chegava a 17 infectados quando a pulverização foi encerrada. Sem poder usar o inseticida, o país mergulhou em uma epidemia que atingiu 1,5 milhão de pessoas. Na África do Sul, com a indisponibilidade do DDT as infecções saltaram de 8,5 mil para 42 mil e as e mortes de 22 para 320.

Paul Offit defende que o DDT é um dos inseticidas mais seguros já inventados. Ele argumenta que estudos nos Estados Unidos, Canadá e Europa não mostraram a correlação da substância com as doenças apontadas por Carson. “Os partidários de Carson argumentaram que, se ela tivesse vivido mais [a ambientalista morreu em 1964], nunca teria promovido a proibição do DDT para o controle da malária”, afirma.

OMS atesta segurança 

Em setembro de 2006, exatos 43 anos após a publicação da “Primavera silenciosa” e quase três décadas após a eliminação mundial do DDT, a OMS deu um “atestado de saúde” à substância, passando a recomendar o “uso de pulverização residual interna não apenas em áreas epidêmicas, mas também em áreas com transmissão constante e alta de malária, inclusive em toda a África”.

“As evidências científicas e programáticas apoiam claramente esta reavaliação”, disse o Dr. Anarfi Asamoa-Baah, então diretor-geral assistente da OMS para HIV/AIDS, tuberculose e malária. "A pulverização residual interna é útil para reduzir rapidamente o número de infecções causadas por mosquitos transmissores de malária. O IRS [sigla em inglês para pulverização residual de interiores] provou ser tão econômico quanto outras medidas de prevenção da malária, e o DDT não apresenta riscos à saúde quando usado adequadamente”, completou na época.

A Organização afirma que "extensas pesquisas e testes” demonstraram a segurança desse uso do produto, tanto para a vida selvagem quanto para humanos. “Evidências programáticas mostram que o uso correto e oportuno da pulverização residual interna pode reduzir a transmissão da malária em até 90 por cento. No passado, a Índia conseguiu usar o DDT de forma eficaz na pulverização residual interna para reduzir drasticamente o número de casos de malária e mortes. A África do Sul reintroduziu novamente o DDT para pulverização residual interna para manter os números de casos de malária e fatalidade em níveis baixos de todos os tempos e avançar para a eliminação da malária”, dizia o comunicado da OMS.

O diretor do Programa Global de Malária da OMS naquele momento, Arata Kochi, defendeu posições “com base na ciência e nos dados”. “Uma das melhores ferramentas que temos contra a malária é a pulverização doméstica residual. Da dúzia de inseticidas que a OMS aprovou como seguro para pulverização doméstica, o mais eficaz é o DDT”, reforçou.

Politização da ciência 

O editor do jornal conservador City Journal e colunista científico John Tierney analisa que uma das grandes ameaças da guerra da esquerda contra a ciência é misturá-la com política. “A ciência ambiental se tornou tão politizada que os seus mitos perduram mesmo após serem refutados”, critica. Para ele, embora a “Primavera silenciosa” de Carson represente “décadas de quimiofobia com suas histórias medonhas e ciência ruim, como a sua alegação sem base de que o DDT estava causando câncer em humanos e a sua visão de uma morte de aves em massa (a população de aves na verdade estava crescendo enquanto ela escrevia)”, continua a ser apontada como modelo de escrita científica no ensino médio e em cursos de graduação.

Além das mortes por malária após as restrições ao DDT, Tierney cita “a difusão da dengue e do vírus Zika — exacerbados por medo desnecessário de inseticidas” como efeitos colaterais da obra. “Similarmente, o zelo da esquerda em achar novos motivos para regulamentos levou a pânicos pseudocientíficos sobre 'comida Frankenstein', gorduras trans, BPA no plástico, telefones celulares, cigarros eletrônicos, linhas de transmissão, fraturamento hidráulico e energia nuclear”, compara.

DDT rendeu Nobel de Medicina 

A descoberta do DDT como inseticida rendeu ao químico suíço Paul Hermann Müller o Prêmio Nobel de Medicina, em 1948. Quase uma década antes, em setembro de 1939, após quatro anos de trabalho intenso e quase 350 experimentos fracassados, ele encontrou no Dicloro-Difenil-Tricloroetano as qualidades inseticidas que buscava: um fitofarmacêutico duradouro e de baixo preço, que não prejudicasse plantas e animais de sangue quente.

Naquela época, a Suíça passava por uma escassez de alimentos decorrente de infestações em plantas. Paralelamente, a União Soviética enfrentava a epidemia de tifo mais letal já registrada. Os acontecimentos impulsionaram Müller a estudar uma solução, uma vez que os inseticidas usados até então eram feitos de arsênico, o que os tornava venenosos para mamíferos.

O DDT havia sido sintetizado em 1874 pelo químico alemão Othmar Zeidler, que não conseguiu perceber seu valor como inseticida. Descoberta por Müller, a substância foi testada com sucesso pelo governo suíço contra o besouro da batata do Colorado, em 1939, e pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, em 1943.

Durante a Segunda Guerra, as camisas dos soldados britânicos e americanos eram impregnadas de DDT, medida crucial para proteger as tropas aliadas no Extremo Oriente. Em 1944, o composto serviu para controlar uma epidemia de tifo em Nápoles, em três semanas. Entre as décadas de 1950 e 1970, muitos países erradicaram a malária com o DDT, incluindo os Estados Unidos e grande parte do sul europeu.

“A eficácia do DDT em matar mosquitos, piolhos, pulgas e flebotomíneos que transmitem malária, tifo, peste e algumas doenças tropicais, respectivamente, salvou milhões de vidas (...) O fato de Müller ter recebido esse prêmio [Nobel de Medicina], embora não fosse fisiologista ou pesquisador médico, destaca o imenso impacto que o DDT teve na luta contra as doenças”, analisa Alexander Hammond, diretor da Iniciativa para o Comércio e Prosperidade Africanos.

0 COMENTÁRIO(S)
Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]