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Como funciona a publicação de artigos científicos – e por que erros como da “Lancet” acontecem

  • PorTiago Cordeiro, especial para a Gazeta do Povo
  • 14/06/2020 19:44
Um artigo científico pode demorar vários meses para ser publicado
Um artigo científico pode demorar vários meses para ser publicado| Foto: Imagem de <a href="https://pixabay.com/pt/users/WikiImages-1897/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=60571">WikiImages</a> por <a href="https://pixabay.com/pt/?utm_source=link-attribution&amp;utm_medium=referral&amp;utm_campaign=image&amp;utm_content=60571">Pixabay</a>

O pesquisador, ou grupo de pesquisadores, produz um artigo relatando uma pesquisa inédita, ou avaliando um conjunto de pesquisas previamente publicadas, ou apresentando uma análise sob um ponto de vista diferente do usual em sua área. O texto é enviado para uma determinada revista científica, que mantém um corpo editorial fixo.

O conteúdo é então submetido à leitura de outros pesquisadores – geralmente, os revisores não são informados do nome dos autores, que por sua vez também não deveriam saber quem está lendo o trabalho. A análise pode resultar em pedidos de alterações, correções ou complementos, ou mesmo com a recusa do artigo, caso ele não siga os padrões da publicação. Finalizado esse processo, que pode durar vários meses, o artigo está pronto para ser divulgado. É comum, nas publicações mais tradicionais, que os autores paguem taxas para bancar os custos da publicação.

É assim que funcionam as principais publicações científicas do mundo. E essas revistas são importantíssimas para os pesquisadores: emplacar um artigo em um veículo de renome pode impulsionar a carreira do cientista, além de garantir financiamento e melhores condições de trabalho. No Brasil, as revistas passam por uma avaliação que rende notas, e a distribuição de dinheiro público é realizada de acordo com os resultados.

Apesar de todos esses cuidados, recentemente a revista científica britânica The Lancet, semanal, dedicado à produção de pesquisas médicas desde 1823, provocou uma enorme confusão com um artigo a respeito do uso de hidroxicloroquina para o tratamento de Covid-19. Chamado Hydroxychloroquine or chloroquine with or without a macrolide for treatment of COVID-19: a multinational registry analysis, o estudo parecia enterrar qualquer hipótese de que o medicamento fosse eficaz para o combate à pandemia.

Afinal, estava baseado em dados gerados por 96.032 pacientes, de 671 hospitais, de seis continentes. Dias depois, diante da reação de 150 cientistas desconfiados com a confiabilidade das informações, três dos autores solicitaram a retirada do artigo. O quarto autor, Sapan Desai, é proprietário da empresa que forneceu as informações, a Surgisphere, e se recusou a compartilhar as fontes dos dados, alegando que eles são confidenciais.

Falta de checagem

A revista científica Lancet se retratou, mas não divulgou os nomes dos pesquisadores que revisaram o artigo, e que poderiam ter antecipado o problema. Entre a publicação e a retratação, a Organização Mundial da Saúde (OMS) interrompeu uma ampla pesquisa com hidroxicloroquina – ela acabaria sendo retomada posteriormente. O episódio sugere que o método de revisão de artigos pode, sim, ser burlado.

O erro aconteceu, como escreveu o pesquisador James Heathers, da Northeastern University, em artigo para o jornal The Guardian, “porque a revisão por pares não serve para detectar anomalias nos dados, seja por falta de acurácia, erro de cálculo ou fraude pura e simples”. Um dos problemas, diz ele, é o fato de que a revisão não costuma ser remunerada (e quando é, os valores não são atraentes). E, por ser anônima, não agrega valor à carreira do pesquisador.

O revisor, portanto, serve apenas para fornecer um verniz de confiabilidade, escreve o professor, que aponta para o principal problema do processo: “A vasta maioria dos artigos nunca passou por checagem em busca da consistência de dados. As publicações não exigem que os manuscritos sejam acompanhados das bases de dados, para que elas possam ser checadas”.

Em 2006, Richard Smith, diretor executivo da UnitedHealth Europe, já alertava para o problema. No artigo Peer Review: a Flawed Process at the Heart of Science and Journals, ele escreveu: “A revisão de pares está no coração dos processos, não só de publicações como de toda a ciência. É o que garante a alocação de recursos, a publicação de artigos, a concessão de Prêmios Nobel. Ainda assim, seus defeitos são mais fáceis de identificar do que seus atributos”. Um ano antes, a revista Science havia sido obrigada a retirar a publicação da pesquisa dos sul-coreanos Woo Suk Hwang e Shin Yong Moon, que anunciaram, com base em dados forjados, que haviam clonado um embrião humano. No Brasil, esse não é o único problema.

Falta de relevância

“Existe muito compadrio, o trabalho de editor não é remunerado, os autores indicam quem vai dar o parecer para os artigos. A revista circula entre os conhecidos, que ficam citando uns aos outros. E tudo isso é feito com dinheiro público”. É o que diz Flávia Roberta Babireski, doutoranda e mestra em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e editora-chefe da Revista Eletrônica de Ciência Política, uma publicação voltada a publicar textos de alunos de pós-graduação.

As citações são importantes, porque são uma forma de o pesquisador avaliar a qualidade de seu trabalho. E publicar artigos também ajuda a aumentar a nota do departamento a que o acadêmico pertence, e assim garantir mais verbas tanto do governo federal quanto de fontes privadas. Mas o sistema permite distorções. Em 2019, por exemplo, uma decisão do Ministério da Educação favoreceu um pequeno grupo de cursos de mestrado e doutorado de Administração.

Além disso, a professora Flávia lembra que a área de humanas, no Brasil, esbarra na desatualização dos pesquisadores. “Os alunos em geral não olham para fora, para ver o que as pessoas estão fazendo no mundo. Não leem artigos científicos, nem publicados no Brasil, muito menos no exterior. Por isso muitos dos artigos que recebemos não são aprovados para publicação”. Para ela, o meio acadêmico brasileiro, em geral, “quer dinheiro para fazer a pesquisa que gosta, do jeito que gosta, encontrando os resultados que quiser. E não aceitam do governo a cobrança de contrapartida ao investimento”.

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Comentários [ 9 ]

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  • N

    Nico Gavelick

    ± 26 minutos

    Ou seja, a própria "ciência" não é tão imparcial quanto alega. O problema não é errar. Nenhuma instituição é perfeita. O que é triste é ver a quantidade de gente que enche a boca para dizer que se baseia em ciência, chamando qualquer um que levante dúvidas de ignorante e até "anticiência", esquecendo que os próprios cientistas podem mudar de ideia ao descobrir inconsistências e fatos novos.

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    • G

      gilson r c de oliveira

      ± 2 horas

      Só faltou uma PEQUENA informação. Na verdade essa falta de checagem é a norma. Há algum tempo um pequeno grupo começou a enviar estudos de mentirinha para confirmar os viés esquerdista das publicações, não importava o quanto fossem absurdas ou ridículas as premissas e conclusões desde se criticasse o capitalismo, o machismo, a homofobia, o patriarcado, conservadores.... etc tudo era publicado sem criticas ou revisões.

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      • J

        Jorge Dias

        ± 2 horas

        Se lá fora está ruim, imagina aqui.

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        • R

          Ricardo Aranha

          ± 3 horas

          O fato é que ainda não se sabe se há efeito da Cloroquina na Covid. O problema da Lancet foi aceitar de bom grado um artigo com 90000 pessoas avaliadas, uma enorme amostra. Amostras grandes, ao contrário do que se pensa por aí, dificultam o controle de variáveis e desviam ou distorcem os resultados, ainda mais para assuntos complexos como eficácia de um tratamento. Deviam ter redobrado a atenção. E não o fizeram

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          • J

            joão José Augusto Mendes

            ± 4 horas

            Mostra que o interesse político interfere em tudo e, que mesmo publicações consideradas sérias nem sempre são tão sérias a ponto de merecer confiança irrestrita. Como costuma se dizer 90% dos seres humanos são corruptos e 10% está esperando a oportunidade.

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            • M

              Marco Polo

              ± 5 horas

              Percebo 3 tópicos na matéria. O primeiro é de como se processa a divulgação de algum evento científico, que pode estar correto ou não. Isso é preocupante. O segundo é que quando se utiliza a ciência para fins políticos, o que se está praticando é política. E, no caso da hidroxicloroquina, a mais baixa política pela OMS e seguidores com a intenção de manter o estado de terror e submissão à um órgão central. E, a terceira, a frase a seguir da matéria já diz tudo: =>”" Para ela, o meio acadêmico brasileiro, em geral, “quer dinheiro para fazer a pesquisa que gosta, do jeito que gosta, encontrando os resultados que quiser. E não aceitam do governo a cobrança de contrapartida ao investimento”<=.

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              • M

                Manfred Schmid

                ± 6 horas

                Ótimo que publicaram. Mas quando o Lancet publicou seu erro (ou $uborno?), a manchete foi um grande escândalo dizendo que a OM$ prova que a cloquina podia até matar! Porque agora não usam o contrário? Não é uma questão de preferência política, e sim de correção de um erro e divulgação do que é correto de um remédio eficaz, popular e barato (sim isso é democrático!).

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                • R

                  RPM

                  ± 7 horas

                  Alguém ganhou dinheiro de outro laboratório farmacêutico para dizer que não funciona. Pois tem outro produto que custa U$5.000 o tratamento.

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                  • M

                    Marçal

                    ± 14 horas

                    1- Favor acertar o txt no 7o Parágrafo: "Um dos problemas, diz ele, é o fato de que a revisão "não é costuma ser" remunerada (e quando o é, os valores não são atraentes)." 2- " E, por ser anônima, não agrega valor à carreira do pesquisador." Discordo pois todo e qq cientista ou professor que seja revisor de revista científica coloca em seu CV que o é. Logo, agrega muito valor ao CV e ao profissional.

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                    Fim dos comentários.