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Aécio Neves chegou a três pontos da Presidência em outubro de 2014. Em 9 de julho deste ano, anunciou que não seria candidato, e o PSDB confirmou que ficaria fora da disputa presidencial pela segunda vez consecutiva. Entre uma data e outra, o partido fez a aposta que o desmontou: derrubou Dilma Rousseff acreditando que o poder voltaria por inércia, e o impeachment produziu a demanda por alguém de fora do sistema, num país onde o PSDB estava no sistema desde 1994.
Aécio, que reassumiu a presidência nacional da legenda neste ano, disse à CNN que não faria uma travessia solitária e que a candidatura só teria sentido com uma aliança maior de forças políticas, que ninguém apareceu para costurar. A convenção da federação PSDB-Cidadania havia aprovado seu nome em junho. Encerrado o assunto, o partido anunciou que concentraria esforços em 2030 e mandou seus quadros negociar palanque estado por estado.
A desistência acontece quando o espaço que os tucanos reivindicaram por três décadas está mais vazio do que nunca. Lula tenta a reeleição aos 80 anos, e Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado e em prisão domiciliar, transferiu ao filho Flávio a tarefa de disputar seu lugar. O eleitor que não quer nenhum dos dois não vai encontrar um tucano na cédula.
O ano em que bastava esperar
Em 1998, no auge, o PSDB elegeu 99 deputados federais e sete governadores, levou a 16 a bancada no Senado e reelegeu Fernando Henrique Cardoso em primeiro turno. Dezesseis anos depois, Aécio perdeu para Dilma por 3,4 milhões de votos e o partido contestou o resultado no Tribunal Superior Eleitoral. Foi essa derrota apertada que organizou o cálculo dos dois anos seguintes: os tucanos lideraram a oposição parlamentar, ocuparam ministérios no governo de Michel Temer depois do afastamento da presidente e trataram 2018 como formalidade a ser cumprida.
Em maio de 2017, a delação dos donos da JBS trouxe a gravação em que Aécio pedia 2 milhões de reais a Joesley Batista. Ele foi afastado do Senado por decisão do Supremo, voltou meses depois por voto dos colegas e só seria absolvido em 2022, com a sentença confirmada em segunda instância no ano seguinte. Para a eleição que importava, o partido já não tinha candidato natural.
Sobrou Geraldo Alckmin, que entrou na campanha com nove partidos na coligação e quase metade do horário eleitoral gratuito, enquanto Jair Bolsonaro dispunha de alguns segundos por bloco. Alckmin terminou o primeiro turno com 4,76% dos votos, abaixo dos 11,5% que Mário Covas fizera em 1989, quando a legenda tinha um ano de vida e nenhum governo estadual. O antipetismo que o PSDB representou sozinho durante vinte anos não se dividiu entre os dois candidatos; migrou inteiro. Os votos que o PSDB acreditava ter eram, na verdade, de uma massa de eleitores à direita que haviam apoiado os tucanos por falta de opções viáveis entre os conservadores. Não à toa, o próprio Alckmin agora é vice de Luiz Inácio Lula da Silva.
Cento e doze mil votos
Sem eleitorado nacional, o partido passou a disputar o que ainda tinha. Em novembro de 2021, João Doria e Eduardo Leite atravessaram meses de acusações públicas para decidir quem seria o candidato do ano seguinte, e os dois renunciaram a seus governos com um dia de diferença, o gaúcho no fim de março, o paulista em 1º de abril, por uma candidatura que nenhum deles chegaria a registrar. Doria venceu as prévias, desistiu em maio sem chegar à convenção nacional e deixou o partido. Leite voltou ao Rio Grande do Sul, presidiu o PSDB por dez meses e se filiou ao PSD em 2025.
A conta chegou primeiro onde a máquina era mais forte. Nascido em 1988 de uma dissidência do MDB muito mais paulista que nacional, o PSDB governou São Paulo por 28 anos, interrompidos apenas por dezoito meses de mandatos-tampão, e em 2022 terminou a eleição estadual em terceiro lugar, atrás de Tarcísio de Freitas e do candidato do PT. Dois anos depois, lançou à prefeitura da capital José Luiz Datena, apresentador de televisão filiado quatro meses antes, cuja campanha ficaria conhecida pela cadeirada que ele desferiu contra Pablo Marçal em um debate da TV Cultura.
Datena terminou em quinto lugar, com 112.344 votos, e o partido não elegeu um único vereador na cidade cujo prefeito, até 2021, era Bruno Covas. O mais votado entre seus 49 candidatos à Câmara Municipal foi Mario Covas Neto, filho do ex-governador, com 5.825 votos. No país inteiro, os tucanos venceram em 273 municípios naquele ano, contra 799 em 2016.
Sem governadores
O que veio depois foi uma sequência de saídas. Em março de 2025, a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, trocou o PSDB pelo PSD e todos os prefeitos tucanos do estado foram atrás, deixando a sigla sem representação em Pernambuco. No mesmo mês o Cidadania comunicou que queria deixar a federação firmada três anos antes, e permaneceu apenas porque a saída antecipada sairia cara. Em agosto, o governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel, se filiou ao PP (Progressistas) depois de 22 anos de partido, e o PSDB deixou de ter governadores no país. No Senado, a federação inteira tem hoje três cadeiras, contra as dezesseis que o partido detinha sozinho em 1998.
Dois meses antes da saída de Riedel, a direção tentara a manobra que resolveria tudo de uma vez. A convenção nacional aprovou por 201 votos a 2 a incorporação do Podemos, que dobraria a bancada tucana na Câmara e devolveria à legenda um tamanho que ela não tinha havia uma década. A fusão não saiu.
O nome que sobrou para 2026 tinha ido embora em 1997. Ciro Gomes rompeu com o PDT no ano passado, voltou ao PSDB quase três décadas depois, recusou o convite de Aécio para disputar a Presidência pela quinta vez e teve homologada em 20 de julho a candidatura ao governo do Ceará, estado que já governara entre 1991 e 1994, na primeira passagem pela sigla.
Aécio diz que o projeto é para 2030 e estuda disputar o Senado por Minas Gerais. Ciro vai tentar em outubro um governo que exerceu pela última vez em 1994. O partido fundado para nacionalizar um projeto de social-democracia chega à eleição deste ano sem candidato ao Planalto, sem governador para reeleger e negociando apoio com quem estiver disposto a recebê-lo.
Serão duas eleições presidenciais seguidas em que o eleitor de quem o PSDB se dizia representante escolherá entre um petista e um Bolsonaro, e nas duas o partido terá dito que não era a hora.




