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Quem investe na bolsa está incentivando a atividade econômica das empresas
Quem investe na bolsa está incentivando a atividade econômica das empresas| Foto: Pixabay

Pela primeira vez na história, o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo, o Ibovespa, rompeu a simbólica barreira dos 100 mil pontos. Muita gente pormenorizou o marco. Entre as críticas comuns, constaram que “a Bolsa não gera empregos”, “não causa efeito na vida dos mais pobres”, além de recordarem que a situação econômica brasileira permanece complicada. Contudo, embora a ideia de que variáveis macroeconômicas tenham impacto direto na vida do brasileiro possa parecer um pouco distante, o avanço da Bolsa de Valores está absolutamente relacionado ao crescimento nacional.

Isso porque a variação do índice é calculada com base no desempenho médio das ações das principais empresas negociadas na bolsa, geralmente refletindo o tamanho e liquidez das companhias. Apesar de não ter efeitos práticos por si só, o rompimento dos 100 mil pontos durante um pregão ilustra o otimismo do mercado financeiro com a condução da política econômica pelo governo federal.

Vale ressaltar que, se corrigidos pela inflação, ainda ficariam abaixo dos 73 mil registrados em maio de 2008. Mesmo assim, a lógica é simples: as empresas brasileiras estão valendo mais na bolsa, logo, espera-se que tenham melhores resultados daqui para a frente.

O pesquisador do Ibre/FGV Daniel Duque esclarece que, na prática, o índice Bovespa funciona como um termômetro de quanta confiança há para investimentos no país. “Essa disposição é determinada, principalmente, por dois fatores: projeção de crescimento econômico e impostos sobre empresas. Portanto, se a bolsa opera em alta, é porque investidores estão projetando maior crescimento econômico ou uma redução dos impostos. Como esse último é improvável em um horizonte de pelo menos dez anos [em virtude do desequilíbrio fiscal das contas governamentais], resta a confiança de que o país crescerá mais, possibilitando maiores lucros e a geração de empregos”.

Thiago Rizzo, consultor financeiro da XP, explica que quem investe na bolsa está incentivando a atividade econômica de tais empresas, ao passo que os produtos desse investimento serão utilizados para o estímulo da economia em diversas frentes, sendo este um emprego eficiente do próprio capital. Ele afirma que muitas das boas expectativas com o mercado estão centradas na capacidade do governo Bolsonaro em aprovar a Reforma da Previdência.

“Aprovar a reforma transmitirá aos investidores internacionais que investir no mercado brasileiro é confiável, que o governo está preocupado com suas contas públicas. Se ocorrer, a tendência é que investimentos sejam intensificados no país e o capital estrangeiro seja atraído para a bolsa brasileira, pressionando os preços para cima”, afirma. “O mercado já precificou que, caso aprovada a reforma, o risco-país percebido vai diminuir, abrindo espaço para queda da taxa Selic, estimada em torno de 5,6% ao ano em um cenário de aprovação”, complementa. Ele refere-se a um estudo da Secretaria de Política Econômica (SPE), do Ministério da Economia, que também projeta, com a ausência de reforma, uma escalada drástica da taxa básica de juros, pulando dos atuais 6,5% ao ano para 18,5% em 2023.

A fala é endossada por Duque, segundo o qual “um governo comprometido com reformas faz investidores acreditarem que os ativos irão se valorizar, mesmo que pessoalmente acredite haver um certo otimismo exagerado”.

Poucos brasileiros investem na Bolsa

Governos do passado podem ter incentivado preconceitos em relação ao investimento em renda variável. No início de 1999, quando o dólar passou de R$ 1,32 para R$ 2,16 em dois meses, o governo FHC justificou que a moeda havia derretido por ter sido sido vítima de “ataques especulativos". Na verdade, o governo havia sido forçado a abandonar o câmbio fixo, que valorizava artificialmente a moeda brasileira (e ajudava a manter, também de forma artificial, a inflação baixa). A ideia de que sórdidos especuladores atacaram a economia brasileira permeou a imaginação coletiva por muito tempo.

Apenas 0,2% dos brasileiros estão na Bolsa de Valores. A efeito de comparação, há mais investidores em renda variável na Colômbia, cuja população corresponde a um quarto da brasileira. Já nos Estados Unidos, mais de 70% da população investe no mercado financeiro. Esses números refletem um pouco da falta de melhor educação financeira no Brasil.

Isso pode ser explicado pelo fato de que o mercado de capitais no Brasil era muito incipiente até 2005, com poucas empresas listadas, e poucos IPO (Oferta Pública Inicial, quando uma empresa se torna empresa de capital aberto).

Uma das principais razões — se não a maior — se deve ao alto nível do CDI desde o Plano Real. Dessa forma, houve acomodação e aversão a risco. Não à toa, 65% dos investimentos brasileiros ainda estão concentrados nas cadernetas de poupança, demonstrando a preferência por investimentos simples — apesar de que, mesmo sendo consideradas o mais conservador e seguro dos investimentos, elas sofreram com o repentino confisco por Fernando Collor em 1990.

Especular é errado?

Trader, analista, estrategista, especulador, chame como preferir. Quem investe na bolsa nada mais faz do que investir em empresas em busca de maior renda ao final do mês ou para proteger-se contra a desvalorização da moeda. Não há nada de errado nisso.

Há diversos especialistas que se dedicam a identificar bons investimentos, estudando a saúde das empresas e dos países que emitem títulos de dívida, bem como os perigos e as oportunidades de ações e moedas. Ao contrário do que muitos podem pensar, investir na Bovespa não é apenas para pessoas ricas como a Bettina, além de que não precisa ser tão arriscado assim. A regra do mercado é que rendimentos altos têm riscos equivalentes.

Além disso, se não houvesse investidores sendo remunerados por assumirem grandes riscos, muitas empresas nem sequer existiriam. Afinal, como empreendedores obteriam capital para financiar as operações responsáveis pela manutenção de seus negócios? Ou mesmo financiar o Estado brasileiro, que não se sustenta “apenas” com a cobrança de um terço de toda a produção de riqueza nacional em forma de impostos? Vale lembrar que o fato de investidores internacionais temerem a capacidade brasileira de honrar com suas dívidas não se dá por mero preconceito: o Brasil já protagonizou nove calotes da dívida pública ao longo de nossa história.

Rizzo pondera que o termo especulador tem conotação muito negativa porque “o capital no Brasil é tratado como pecado”. E assevera: “todo tipo de atividade econômica e comercial é uma forma de especulação: nada mais que comprar insumos mais baratos e saber fornecê-los com valor agregado”.

O comportamento dúbio da oposição

A política é um teatro em que os mesmos atores trocam seus papéis após as eleições ou de acordo com mudanças de contexto, passando a adotar condutas diferentes ou até opostas.

Entre os integrantes da oposição que desprezaram a marca dos 100 mil pontos alcançados está quem comemorou o recorde da Bolsa em 2008, quando fazia parte do governo. O mesmo ocorreu em 2015, quando o país perdeu o chamado grau de investimento, classificação dada por agências de avaliação de risco a países seguros para investimentos estrangeiros. Na ocasião, integrantes do PT ironizaram a questão, dando pouca importância a ela. Espalharam-se na internet memes com frases como “não como grau de investimento” e “grau de investimento não gera empregos”. No entanto, quando o mesmo selo tinha sido conquistado em 2008, o então presidente Lula comemorou o marco histórico.

Episódios como esse demonstram a relevância de estar por dentro do que significa cada índice macroeconômico em vez de se basear exclusivamente na opinião dos atores que ocupam cargos políticos no país.

Política e economia

O cientista político e sócio da Arko Advice Lucas de Aragão utiliza de uma frase do gestor de investimentos Henrique Breda para explicar a variação do Índice Bovespa a partir de surtos políticos: “são apenas soluços da bolsa, é preciso ver os fundamentos que estão por detrás de cada negócio”. Apesar disso, a política influencia muito no Índice Bovespa. A agenda liberal de Paulo Guedes, por exemplo, depende de boa vontade do Congresso para ser implementada.

“Em um país altamente regulado como o Brasil, em que há cerca de R$ 300 bilhões distribuídos em subsídios todo ano, possíveis regulações relâmpago por parte de agências reguladoras, um Congresso ativista do ponto de vista legislatório… a política brasileira sem dúvida impacta muito a economia”, afirma Aragão.

Ele cita o exemplo de grandes empresas que possuem ações na Bolsa e empregam dezenas de milhares de pessoas no Brasil e estão a mercê de decisões regulatórias que o governo pode tomar.

“A economia brasileira é muito suscetível à política e questões regulatórias, talvez até mais do que em países menos regulados. Grandes empregadores estão na bolsa e resultados positivos sinalizam empresas saudáveis financeiramente, mais caixa, mais dividendos. Isso tudo gera maior capacidade de realização de novos projetos e investimentos, o que gera empregos”, diz.

Um exemplo simbólico mencionado por ele para entender a relação entre Bovespa e empregos ocorreu com a Petrobras: “quando as ações chegaram a custar menos de R$ 5 no início de 2016, a capacidade de atuação da estatal foi destruída: ela ficou queimada, sem caixa, incapaz de atuar, por exemplo, no pré-sal porque não havia dinheiro”, aduz. “A política não apenas queimou a imagem da empresa, ela também retirou a capacidade de investimentos da Petrobras. Não à toa, milhares de pessoas foram demitidas. Ela ficou anos afundada, mas quando assumiu uma gestão mais liberal e técnica, com a política parando de atrapalhar, ela se valorizou e voltou a gerar lucro. A Bolsa dita a capacidade das empresas de gerar investimentos e empregos”, conclui.

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