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Como a TV chavista transformou a captura de Maduro em “sequestro imperialista”

Manifestante segura bonecos de Maduro e Cilia Flores durante protesto em Caracas: ditador e sua mulher são tratados como "presidente constitucional" e "primeira combatente" pelo canal Telesur
Manifestante segura bonecos de Maduro e Cilia Flores durante protesto em Caracas: ditador e sua mulher são tratados como "presidente constitucional" e "primeira combatente" pelo canal Telesur (Foto: EFE/Miguel Gutiérrez)

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Na noite de 31 de dezembro, Nicolás Maduro concedeu sua tradicional entrevista de fim de ano para a Telesur — a emissora concebida por Hugo Chávez e Fidel Castro, há duas décadas, para combater a “mídia hegemônica capitalista”.

A conversa foi gravada num suposto carro particular do ditador, que ele mesmo dirigiu pelas ruas de Caracas (acompanhado da mulher, Cilia Flores, e do ministro das Comunicações, Freddy Ñáñez). Não era possível ver escoltas ou soldados armados — pelo menos não nas imagens exibidas.

“Ao povo dos EUA, digo que aqui, na Venezuela, tem um povo amigo”, afirmou Maduro, em um tom quase conciliador. Questionado sobre uma possível intervenção americana no país, ele desconversou: “Tenho um bunker infalível: Deus Todo-Poderoso. Se Deus é por nós, quem será contra nós?".

O tirano esbanjou confiança durante toda a entrevista. Citou números de crescimento econômico e disse ter “mais de 70% de apoio” na defesa da soberania nacional — sem mencionar qualquer fonte. “A vitória, em qualquer circunstância, sempre será nossa”, afirmou.

Dois dias depois, tudo mudaria.

Corte rápido

Na madrugada de 3 de janeiro, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, veio a público para comunicar a ocorrência de “bombardeios” em território venezuelano. A Telesur, imediatamente, classificou o episódio como “agressão militar criminosa”.

Horas depois, quando Donald Trump anunciou que Nicolás Maduro estava sob a custódia do governo dos EUA, o canal ajustou o enfoque. A partir de então, a notícia seria o “sequestro do presidente” — nunca “captura” ou “prisão”.

A escolha da palavra tinha um objetivo óbvio: enquadrar a ação americana como um crime comum, desprovido de legalidade.

O vocabulário dos apresentadores também transformou a captura em uma epopeia anti-imperialista. Maduro virou o “presidente constitucional”. Cilia Flores, a “primeira combatente”. Já os 32 militares cubanos mortos estavam numa “missão de cooperação”.

O canal ainda informou que os bombardeios fizeram vítimas civis. “Dezenas de mortos”, disseram os jornalistas, sem dar nomes, números concretos ou fontes verificáveis.

Mas e a Delcy?

No sábado, a vice-presidente Delcy Rodríguez apareceu cercada por militares e exigiu a libertação do ditador. A Telesur transmitiu o pronunciamento sem sequer questionar onde ela estava.

Isso porque, durante a manhã, circularam versões conflitantes sobre seu paradeiro, incluindo a possibilidade de que Delcy estivesse na Rússia. A emissora, no entanto, preferiu ignorar a dúvida (e a geografia).

Ao longo daquele dia, a Telesur destacou manifestações de apoio vindas de lideranças de países como México, Colômbia, Cuba, Nicarágua, Rússia e China (e, claro, do presidente Lula). Declarações de membros da oposição venezuelana ou de governos de democracias liberais simplesmente não foram apresentadas.

Prova bizarra

Outra inconsistência (ou omissão) jornalística surgiu quando Trump afirmou publicamente que Delcy Rodríguez havia sido “juramentada” e estava disposta a cooperar com os EUA. A notícia, mais uma vez, foi sumariamente descartada pelo canal chavista.

Dois dias depois, porém, quando a própria Delcy publicou nas redes sociais um convite ao governo americano para “trabalhar conjuntamente numa agenda de cooperação”, a emissora exibiu a declaração com destaque (e num tom bem menos combativo que o de sábado).

E o mais bizarro: a Telesur insistiu em exigir uma “prova de vida” de Maduro mesmo enquanto informava que o ditador havia comparecido a uma audiência judicial em Nova York, estava detido em uma prisão federal americana e respondia formalmente por narcoterrorismo.

Propaganda preventiva

Mas essa narrativa não começou no dia 3 de janeiro. A Telesur já vinha preparando o terreno para repercutir uma possível ação americana na Venezuela há meses.

Desde agosto de 2025, as primeiras operações de Trump na região eram descritas como “ameaças imperialistas disfarçadas de combate ao narcotráfico”. Expressões como “pretexto”, “cerco militar” e “agressão regional” também se tornaram recorrentes.

Nas reportagens sobre os ataques dos EUA a embarcações no Caribe, o canal enfatizava que os tripulantes não eram narcoterroristas — e sim pescadores humildes, vítimas de uma máquina militar descontrolada.

A estratégia era clara: quando a captura de Maduro acontecesse, ela já estaria previamente explicada.

“Bombas semióticas”

Dois conceitos, repetidos à exaustão por jornalistas e colaboradores da Telesur, chamam a atenção dentro dessa lógica editorial: “guerra híbrida” e “bombas semióticas”.

Segundo a emissora chavista, a Venezuela está sob ataque permanente — econômico, informativo e até psicológico. É a “guerra híbrida”, que não foi declarada formalmente e não tem prazo para terminar.

Já as “bombas semióticas” são notícias falsas, premeditadamente “detonadas” todos os dias pela imprensa internacional para fazer o público acreditar que Maduro é o líder de um regime autoritário.

A jornalista colombiana Patricia Villegas Marín, veterana do canal e presidente da Telesur desde 2011, resumiu essa concepção em uma entrevista concedida ao site brasileiro Opera Mundi — do militante de esquerda Breno Altman, conhecido por comemorar bombardeios contra Israel e comparar o sionismo ao fascismo.

“A emissora nasceu para vacinar a sociedade contra o golpismo”, disse Patricia, em 2021. Questionada sobre o espaço dado à oposição nos noticiários do canal, ela foi enfática: “Não damos voz para quem tenta derrubar um governo”.

“Nosso Norte é o Sul”

Fundada em 24 de julho de 2005, aniversário de Simón Bolívar, a Telesur nasceu a partir de conversas entre os ditadores Hugo Chávez e Fidel Castro — que a idealizaram como uma “rede multiestatal internacional e alternativa”.

“Nosso Norte é o Sul” é o lema da emissora, hoje financiada pelos governos da Venezuela, de Cuba e da Nicarágua. Com cerca de 600 funcionários (concentrados em Caracas, Havana e Quito) e mais de 20 correspondentes internacionais, o grupo opera, além da TV, portais de notícias e redes sociais, com forte presença no YouTube.

A Telesur, no entanto, não divulga de forma sistemática dados detalhados sobre sua estrutura, tampouco relatórios financeiros — o que reforça o caráter político e estratégico do projeto.

Lavagem de informação

Mas nem todo o Norte da emissora fica no Sul. Estudos publicados nos últimos anos por think tanks conservadores e liberais apontam que a Telesur funciona como uma espécie de “redistribuidora” de mensagens de interesse da Rússia e da China.

Segundo análises de organizações como German Marshall Fund, National Endowment for Democracy e Foundation for Defense of Democracies, o canal recebe conteúdos produzidos por agências estatais russas e chinesas e os reempacota com linguagem latino-americana e verniz de informação independente.

O resultado é um sistema que os institutos pró-democracia europeus e americanos chamam de “sistema de lavagem de informação”. Ou ainda de “plataforma de disseminação de narrativas autoritárias e de demonização do Ocidente”.

Um pé no Brasil

Embora o Brasil nunca tenha sido “sócio” formal da Telesur, o país participa indiretamente do projeto por meio da colaboração de jornalistas locais e da retransmissão por emissoras públicas.

Nos anos 2000, durante o governo de Roberto Requião no Paraná, a TV pública do estado já exibia programas e telejornais do canal chavista. Desde então, a Telesur mantém um pé no sistema público de comunicação brasileiro.

Conteúdos da emissora aparecem com certa frequência em veículos da estatal federal Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Veículos como a Agência Brasil e a TV Brasil, além das rádios do governo, costumam replicar reportagens sobre “integração latino-americana” ou com críticas à política externa dos EUA.

Recados de Lula

Curiosamente, logo após a captura de Maduro, um dos poucos textos de opinião publicados no portal de notícias da Telesur levava a assinatura de Frei Betto — figura central da Teologia da Libertação no Brasil, amigo e conselheiro de Lula.

Em seu artigo, intitulado “Terrorismo imperialista”, o frade militante traça um panorama histórico de intervenções dos EUA na América Latina. Mas também aproveita o espaço para mandar recados do Planalto.

Boa parte do texto é preenchida por citações diretas de Lula, em que o presidente classifica a captura de Maduro como “afronta gravíssima à soberania” e “precedente extremamente perigoso” — entre outros clichês do momento que só reforçam a convergência pessoal e ideológica dos petistas com o eixo bolivariano.

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