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Papiro original

Como uma descoberta arqueológica desafia Aristóteles

Estátua do pensador grego Empédocles em Museu de Viena, na Áustria.
Estátua do pensador grego Empédocles em Museu de Viena, na Áustria. (Foto: Hubertl/Wikimedia Commons/CC BY-SA 4.0)

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A arqueologia costuma habitar o imaginário popular através de imagens de exploradores sob o sol do deserto, removendo camadas de areia para desenterrar templos ou estátuas perdidas. Contudo, algumas das descobertas mais profundas sobre a história da consciência humana acontecem no silêncio climatizado de arquivos universitários, entre caixas de papelão e etiquetas amareladas.

Foi nesse cenário, nas prateleiras do Instituto Francês de Arqueologia Oriental (IFAO), no Cairo, que o papirólogo Nathan Carlig, da Universidade de Liège, deparou-se com o inesperado: um fragmento de papiro que sobreviveu por dois milênios apenas para nos contar, em primeira mão, o que pensava um dos homens mais enigmáticos da Grécia Antiga.

O manuscrito, catalogado como P.Fouad inv. 218, não veio de uma escavação recente, mas estava "esquecido" à espera de um olhar treinado que pudesse conectar seus caracteres gregos às ideias de Empédocles de Agrigento. Identificado em 2017, mas analisado com rigor apenas a partir de 2021, o achado é o que Carlig descreveu, em entrevista ao portal Gizmodo, como uma "Segunda Renascença".

"É um pouco como se os humanistas do Renascimento redescobrissem os principais textos da Antiguidade Clássica", afirmou o pesquisador. Pela primeira vez desde a Antiguidade, temos acesso direto a uma porção da obra do filósofo que julgávamos perdida para sempre no abismo do tempo.

Entre o misticismo e a física: quem foi Empédocles?

Para entender o peso desse fragmento, é preciso situar Empédocles (c. 495-435 a.C.) no mapa da inteligência humana. Ele faz parte do grupo que chamamos de pré-socráticos, os primeiros pensadores que decidiram substituir as explicações mitológicas pela investigação racional da physis (natureza). Se hoje buscamos a "partícula de Deus" ou a teoria de tudo, foi com homens como Empédocles que essa curiosidade estruturada no que conhecemos como a Física começou.

Empédocles era uma figura quase mítica: político democrata, médico e poeta que vestia sandálias de bronze e afirmava ter poderes sobre o clima. Na modernidade, seu conhecimento chegou até nós de forma fragmentada, como um eco distante. Dependíamos quase exclusivamente de citações indiretas, aquilo que os estudiosos chamam de "doxografia". Aristóteles e Platão foram seus principais relatores, mas também seus maiores filtros.

Enquanto Platão utilizava as teorias de Empédocles sobre a percepção para construir seus próprios diálogos, Aristóteles o citava para, muitas vezes, apontar suas "falhas" lógicas. Esse ponto é crucial: por séculos, nossa visão de Empédocles foi a visão de seus críticos. O que o novo papiro nos oferece é a chance de ouvir o filósofo sem o ruído de seus sucessores.

Poros e eflúvios no papiro

O conteúdo revelado no Cairo trata da Physica, o grande poema de Empédocles, e foca em sua teoria das percepções sensoriais, especialmente a visão. O filósofo defendia que o mundo emite "eflúvios",  partículas invisíveis que se desprendem dos objetos,  e que nossos sentidos possuem "poros" que funcionam como encaixes. Se o eflúvio for do tamanho exato do poro, ocorre a percepção.

O desafio de traduzir tal material é hercúleo. Além do estado físico do papiro, o grego antigo de Empédocles é poético e técnico ao mesmo tempo. Carlig reconheceu ao Gizmodo que, embora pudesse lidar com as questões filológicas, precisou de especialistas para decifrar a profundidade das ideias. A análise revelou conexões diretas com textos de Plutarco e Teofrasto, confirmando que Empédocles foi a fonte original de conceitos que também moldaram a biologia antiga.

Aqui reside uma provocação necessária sobre a historiografia da filosofia: até Aristóteles, um mestre da síntese, subtraía algo do pensamento de Empédocles ao tentar encapsulá-lo em frases breves. Em sua obra, Aristóteles chega a dizer que o filósofo siciliano "balbuciava" ao se expressar. Ao reduzir a teoria alheia para fortalecer o próprio argumento, o acadêmico acaba, muitas vezes, transformando um pensamento complexo e orgânico em uma caricatura útil. O papiro do Cairo nos mostra que Empédocles não balbuciava; ele possuía uma engenharia conceitual sofisticada que antecipava, de certa forma, o próprio atomismo de Demócrito.

A atemporalidade do pensamento

A descoberta de Carlig reforça algo que a historiografia frequentemente esquece: o cânone filosófico não é um arquivo neutro, mas o resultado de escolhas, filtros e disputas intelectuais. Por séculos, Empédocles nos chegou através das mãos de quem o citava para superá-lo. O papiro do Cairo é uma correção de rota.

O caso levanta uma questão incômoda e produtiva: quantos outros pensadores lemos, até hoje, através dos olhos de seus críticos? Empédocles teve a sorte de um papiro sobreviver num arquivo em Cairo. A maioria não teve. Isso não é um convite ao ceticismo paralisante, mas a um rigor maior sobre as fontes que aceitamos como definitivas — inclusive, e talvez especialmente, as mais consagradas, como o próprio Aristóteles.

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