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Willy Wonka e a censura
Willy Wonka e a censura: conheça a Inclusive Minds, organização britânica contratada para modificar a obra de Roald Dahl, inclusive o livro “A Fantástica Fábrica de Chocolate”.| Foto: Eli Vieira com Midjourney

No último fim de semana (18 e 19), a editora britânica Penguin, dona do selo editorial infantil Puffin, anunciou em uma nota que os livros de Roald Dahl para crianças seriam editados para se adequarem a novos tempos. Palavras como “gordo” e “feia” foram cortadas de obras como “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, “Matilda” e “As Bruxas”. Os censores contratados, ligados à organização Inclusive Minds (“mentes inclusivas”), chamam a si mesmos de “leitores sensíveis”, um serviço que emergiu junto com a ascensão do identitarismo nos últimos dez anos.

Entre os alvos da sensibilidade estariam preconceitos supostamente contidos nas obras, como a “gordofobia”, a misoginia e o racismo. A cara de uma personagem não poderia ser comparada à de um cavalo, o narrador não deveria explicar que a maioria das mulheres são “amáveis” apesar de toda bruxa ser mulher, e, ao se assustarem, os personagens não poderiam ficar brancos, só “pálidos”. Além disso, personagens gordos não poderiam ser chamados de gordos.

As mudanças provocaram reação imediata durante a semana. Além dos escritores Salman Rushdie e Philip Pullman, e o ator Brian Cox, manifestaram-se contra a censura dos livros a rainha consorte do Reino Unido, Camilla Parker-Bowles, e o primeiro-ministro Rishi Sunak. Na quinta (23), a rainha fez um discurso na Casa Clarence, residência real em Londres, em um evento marcando o primeiro biênio de uma iniciativa literária. Perante 150 escritores, ela pediu que eles “permaneçam fiéis ao seu chamado, sem impedimento por aqueles que podem querer reprimir a liberdade de sua expressão e de sua imaginação”. Através de porta-voz, Sunak declarou que livros devem ser “preservados e não retocados”.

Quem são os censores

A Inclusive Minds, que se declara sem fins lucrativos, foi procurada pela Puffin para achar trechos politicamente incorretos nas obras, com bênção da administração do legado de Dahl — que faz supervisão dos direitos autorais e royalties, doando fundos para organizações de caridade para crianças. Essa administração é constituída pela empresa Roald Dahl Story Company, comprada pela Netflix em 2021. A Netflix não se manifestou sobre a controvérsia.

A ONG de leitores sensíveis, fundada em janeiro de 2013 pelas consultoras britânicas Beth Cox e Alexandra Strick, tem como missão “a inclusão e acessibilidade na literatura infantil”, “mudar a cara dos livros para crianças” para que representem “toda criança”. Ela não parece ter sede física. Em maio de 2022, Strick disse à revista The Bookseller que a Inclusive Minds estava buscando por “um lar apropriado para essa área vital de trabalho” e que ela havia crescido “de um coletivo informal para uma agência de sucesso”, sendo “uma vítima de seu próprio sucesso” e “grande demais para ser liderada por uma pequena equipe de voluntários”.

O plano de achar uma organização que a assumisse não parece ter dado certo, pois sua conta no Twitter (com menos de 5 mil seguidores) não deu mais notícias desde então, e mantém como tweet fixado uma página de patronagem pública em que conquistaram apenas três dólares por mês de um único doador. A obra de Dahl parece ter sido o maior projeto que já encabeçaram. A face pública da agência é discreta e sempre apresentada com o mesmo vocabulário de “recursos humanos”, de aparência inofensiva.

Em seu site, a organização lista como parceiros a Associação de Vendedores de Livros (Booksellers Association), a Associação de Editoras (The Publishers Association, com membros ilustres como a Cambridge University Press e a Royal Society of Chemistry), outra ONG sem fins lucrativos britânica focada em literatura infantil chamada Letterbox Library, que diz em seu site que tem orgulho de “resistir a modas comerciais” e é conhecida por seus “livros que promovem a justiça social”, e a Independent Publishers Guild, que diz ser o maior serviço de impressão de livros do Reino Unido.

Além dos leitores, a Inclusive Minds também tem “embaixadores da inclusão” com idade entre oito e 30 anos pertencentes a “grupos e históricos marginalizados, sub ou mal representados”. Há mais de 100 deles, com foco em aconselhar autores de novos livros a “assegurar personagens inclusivos autênticos”, informa seu site. Mudanças em obras antigas são sugeridas apenas pelos leitores sensíveis.

A Gazeta do Povo falou com a Inclusive Minds a respeito da polêmica acerca das obras de Dahl. Por e-mail, a organização explicou que “não escreve, edita ou reescreve textos, mas dá insight de valor aos criadores de livros com a vivência relevante que eles podem levar em consideração no processo mais amplo de escrita e edição”. Ela relata que “muitas editoras infantis no Reino Unido” entraram em contato ao longo de seus dez anos de existência buscando a sua rede de “embaixadores”.

O termo original da ONG para vivência, “lived experience”, usado por ela com frequência, é um dos favoritos entre os ativistas identitários e enfatiza conhecimento prático e de vida, especialmente de pessoas de grupos alvo de preconceito, acima de conhecimento teórico, que é o que os livros podem oferecer. Os ativistas identitários brasileiros (que emulam os americanos) costumam usar a mesma tradução da reportagem para o termo. O filósofo americano Peter Boghossian, crítico do identitarismo, condena o conceito: “A pressão social que se sente para fazer deferência à ‘vivência’ está nos impedindo de descobrir qual problema é real e precisa ser resolvido e qual é uma ilusão social coletiva”, tuitou Boghossian no ano passado.

“O envolvimento dos nossos embaixadores não diz respeito a cortar conteúdo potencialmente controverso”, explica a Inclusive Minds, “mas, em vez disso, a incluir e incorporar autenticidade e vozes e experiências inclusivas desde o começo” (ênfase no original). Quanto a obras antigas, a ONG explica que os embaixadores normalmente não fazem o trabalho de revisão, mas que podem dar uma contribuição de valor “no que diz respeito a revisar a linguagem que pode ser danosa e perpetuar estereótipos nocivos”.

Uma das funcionárias da ONG foi Jo Ross-Barrett, que se descreve como “anarquista não-binária, assexual, em relação poliamorosa, que está no espectro do autismo”. Em 2022, ela deu a entender, no LinkedIn, que estava trabalhando em um grande projeto secreto que envolvia “entregar uma revisão em larga escala e abrangente de problemas de inclusão e soluções em potencial para os proprietários de direitos autorais e editores de uma das coleções clássicas mais famosas de livros infantis do mundo (detalhes sob sigilo até a publicação)”.

Após o site conservador National Review republicar esta descrição, o perfil de Ross-Barrett na rede social ficou fora do ar por dias, depois retornou sem publicações próprias. O perfil informa que ela atua hoje em dia como consultora independente de diversidade, equidade e inclusão, antes tendo trabalhado para a Inclusive Minds por três anos e nove meses, com desligamento em junho de 2022. Um porta-voz da Roald Dahl Story Company disse ao jornal Hollywood Reporter que a revisão da obra do autor pela Inclusive Minds começou em 2020, antes da aquisição dos direitos pela Netflix.

A pessoa à frente da organização hoje é A. M. Dassu, que já publicou livros como “Fight Back” (algo como “Reaja”), a história de uma garota muçulmana que luta contra a “islamofobia” depois de um ataque terrorista em seu bairro, e “Boot It” (algo como “Pontapé”), história de dois garotos de minorias étnicas que enfrentam o racismo em seu time esportivo.

Uma “leitora sensível” envolvida na ONG é Gift Ajimokun, que se declara “negra, queer e neurodiversa”. Ela já trabalhou para a Penguin, onde fundou uma “comunidade interna para pessoas de cor na Penguin Random House que tem como meta promover as vozes de funcionários de cor além de nossos autores”, segundo o National Review.

Uma atual embaixadora da inclusão é Sarah Mehrali, que reclamou que “O Jardim Secreto”, que ela atribuiu a “C. S. Lewis”, não contém “pessoas de cor”. Na verdade, a autora do livro é Frances Hodgson Burnett. “Aprendi que pessoas de cor não fazem aventuras” em livros como este, queixou-se Mehrali.

Uma ex-embaixadora, que atuou em 2020, é Lois Brookes. Ela diz, em descrição própria no site de sua empresa, que tem “identidade e histórico muito interseccionais”, e lista como atributos “lésbica”, “judia”, “cigana romani”, “deprimida” e “ansiosa”. Outros embaixadores têm perfil similar e também enfatizam aspectos de sua identidade que têm pouco ou nada a ver com interesse em literatura.

Penguin “recua” e oferece as obras originais

Na sexta (24), a editora Penguin anunciou que publicará até o fim do ano a Coleção Clássica Roald Dahl, com 17 títulos, em seu próprio selo geral, deixando as versões editadas pelos leitores sensíveis para seu selo infantil Puffin. Para a coleção, a empresa prometeu a inclusão de “material de arquivo relevante para cada uma das histórias”.

A coleção, sem edições que mudam o texto original ou eliminam adjetivos considerados ofensivos por ativistas, ficará “em paralelo com os recém-lançados livros Puffin de Roald Dahl para leitores jovens, que são projetados para crianças que podem estar navegando de forma independente por conteúdo escrito pela primeira vez”.

“Os leitores terão liberdade de escolher qual versão das histórias de Dahl eles preferem”, disse a nota da editora, que elogia efusivamente o talento do autor e repete a ideia de que os livros editados são uma forma segura de as crianças começarem o hábito da leitura, mas não usa nenhum dos termos preferidos pela Inclusive Minds.

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