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Conservadoras sentem que a pauta do movimento feminista foi sequestrada por temas como o aborto e a ideologia de gênero.
Conservadoras sentem que a pauta do movimento feminista foi sequestrada por temas como o aborto e a ideologia de gênero.| Foto: Pixabay

Você é feminista? Para muitas mulheres conservadoras, responder a essa pergunta é uma tarefa árdua — expressar seu ponto de vista e ao mesmo tempo tentar se desviar da armadilha verbal esquerdista, pró-aborto e anti-homens. Para algumas mulheres, é mais fácil responder simplesmente que “não, não sou feminista” e aguentar as críticas.

Mas uma questão mais importante permanece. Será que as mulheres conservadoras ainda devem reivindicar para si a palavra “feminismo” ou devem deixá-la para a esquerda?

Essa questão ganhou destaque no mês passado, quando a Fundação Heritage e o Centro Clare Boothe Luce para Mulheres Conservadoras organizaram seu encontro mensal para mulheres conservadoras. As duas palestrantes — Kelsey Bolar, do Daily Signal, e Inez Stepman, do Independent Women’s Forum — assumiram posições opostas sobre a questão, ainda que ambas adotassem uma abordagem histórica para sustentar seu argumento.

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“As feministas radicais de hoje tentam rever a história do movimento feminista para usá-la como arma política na defesa de coisas como o aborto”, disse Bolar à plateia. “Como conservadoras, nós precisamos recuperá-la. Isso significa voltar a ensinar as mulheres quem foram as feministas e as razões pelas quais elas lutaram ao longo da história, e redefinir o que o movimento significa hoje”, disse.

“Temo que, se não fizermos isso”, continuou ela, “as gerações mais jovens sofrerão uma lavagem cerebral completa e pensarão que as mulheres conservadoras não lutaram por elas naquela época — e que não estamos lutando por elas agora”.

Embora as ideias de Bolar tenham encontrado ressonância em grande parte do público, Stepman propôs uma perspectiva diferente, revelando qual teria sido a intenção original do feminismo.

“A ideia básica do feminismo é a da separação entre sexo e gênero, para a qual toda diferença biológica que exista entre homens e mulheres é ou deve ser irrelevante para a maneira como construímos a sociedade, a política e a cultura”, disse Stepman. “Eu não vejo sentido em reivindicar para si uma palavra com a qual apenas algo entre 16 a 33% das mulheres americanas se identificam”, disse.

Apesar de seus pontos de vista conflitantes, Stepman e Bolar concordaram que é importante que esse debate ocorra, especialmente num contexto em que muitas conservadoras se lançam na arena das guerras culturais contra a esquerda.

A história por trás do feminismo

No século XIX e no início do XX, o termo "feminismo" veio a ser associado no Ocidente a vozes que lutavam para reformar a democracia de acordo com a igualdade, para garantir às mulheres os mesmos direitos políticos dos homens. Esse estágio liberal-lockeano do feminismo procurou dotar constitucionalmente as mulheres dos direitos à vida, à liberdade e à propriedade. De acordo com Stepman, a ratificação da 19ª Emenda, em 1920, que deu às mulheres o direito ao voto, concluiu essa luta fundamental para a igualdade feminina.

Deste ponto em diante, acrescentou Stepman, o movimento feminista foi além da igualdade legal e passou a lutar por uma visão mais radical de igualdade que desconsiderava as diferenças biológicas. O movimento feminista se dividia à medida que a nova ala radical pressionava para desfazer proteções para as mulheres até então existentes que se baseassem em diferenças biológicas — casos como, por exemplo, de limites de peso que uma mulher poderia ter que carregar no trabalho.

A partir de 1920, os movimentos trabalhistas das mulheres rejeitaram essas ideias — não porque não desejassem que as mulheres atingissem um novo nível de igualdade, mas porque sabiam que uma verdadeira igualdade para as mulheres tinha de passar pelo reconhecimento da realidade biológica. Eles temiam que peças de legislação como a Emenda dos Direitos Iguais (Equal Rights Amendment) reverteriam muitas das vitórias que protegiam as mulheres trabalhadoras.

No entanto, essas ideias mais radicais ganharam espaço no Partido Nacional da Mulher (National Women’s Party) e abriram as portas para que feministas mais radicais nos anos 60, como Betty Friedan, iniciassem a Organização Nacional para as Mulheres (National Organization for Women), levando adiante uma agenda que rapidamente tomaria as características da segunda onda do feminismo, caracterizada por questões de sexualidade, “direitos reprodutivos” e desigualdades biológicas que se tornaram a base da revolução sexual dos anos 60, em que a celebração da vida de solteiro e da exploração sexual substituíram a celebração do casamento e da família.

A revolução sexual produziu grande parte das ruínas culturais que testemunhamos hoje, como a cultura do sexo casual, acrescentou Stepman. Um estudo de L. E. Napper intitulado “Avaliando os impactos pessoais negativos do sexo casual experimentados por estudantes universitários: diferenças de gênero e saúde mental” concluiu que o sexo casual está fortemente correlacionado ao “sofrimento psicológico, inclusive ansiedade e depressão, assim como com baixa autoestima e redução da satisfação com a vida”. E a ligação entre sexo casual e sofrimento psicológico parece ser mais forte para mulheres.

“Homens e mulheres são inerentemente diferentes”, disse Stepman. A premissa de que ambos os sexos podem se beneficiar igualmente do sexo casual com consequências insignificantes rejeita totalmente a verdade fundamental de nossas diferenças biológicas.

Nesse sentido, o American Economic Journal publicou um estudo em 2009 intitulado “O paradoxo do declínio da felicidade feminina”, o qual demonstra que a felicidade das mulheres diminuiu ao longo dos anos, apesar dos avanços em termos de carreira e educação. O estudo observou que muitos dos efeitos da revolução sexual poderiam ser responsáveis por esse resultado, como o aumento dos percentuais de divórcio, o maior número de filhos nascidos fora do casamento e o menor tempo com a família.

Também se poderia argumentar que a insensibilidade em relação ao ato do aborto, assim como o aumento constante de sua prática, também contribuiriam para a infelicidade das mulheres. Além disso, na medida em que a cultura do sexo casual continua a permear os campi universitários e que as feministas de esquerda lutam para apagar as diferenças entre os sexos e atacar a família, a felicidade das mulheres deve continuar em sua tendência de queda.

“Os problemas do movimento feminista vão mais longe do que a reunião de 1967 [da Organização Nacional para as Mulher]”, acrescentou Stepman. “Eu argumentaria que a partir dos anos 40 a ideia subjacente mais profunda do feminismo é a da separação entre sexo e gênero, com a tentativa de desfazer as diferenças biológicas entre homens e mulheres.”

Bolar, no entanto, manteve-se firme em sua posição. Ela salientou que o movimento feminista original não foi iniciado como um vício radical para infectar a cultura americana da maneira que é hoje. Antes da década de 60, a maioria das feministas rejeitava o aborto, embora essa seja a questão feminista dominante atualmente.

Na verdade, o movimento feminista concentrava-se na igualdade de oportunidades, na dedução das despesas tributárias relativas a crianças das declarações de imposto de renda, no direito de fazer parte de júris e no direito de manter o emprego quando grávida.

A argumentação de Bolar foi reforçada por uma mulher mais velha da plateia, que expôs sua própria experiência de vida como profissional e mãe, contando que no passado foi demitida por estar grávida.

Ela voltou-se para as mulheres mais jovens, que ficaram chocadas com seu relato, e enfatizou que o movimento feminista, antes de o aborto se tornar sua principal prioridade, ajudava mulheres como ela a lutar para continuar trabalhando quando se tornassem mães.

Quando o aborto sequestrou o feminismo

Ao contrário da crença popular, a defesa do aborto não começou originalmente com feministas radicais como Friedan. Foi iniciada, pelo contrário, por homens. O doutor Bernard Nathanson, cofundador da Associação Nacional para a Revogação das Leis do Aborto (National Association for the Repeal of Abortion Laws), mais tarde renomeada Liga Nacional de Ação pelos Direitos do Aborto (National Abortion Rights Action League), enganou as líderes do movimento feminista para fazer avançar uma agenda pró-aborto.

Nathanson dirigiu a maior clínica de aborto do mundo e foi pessoalmente responsável por cerca de 75 mil abortos. Ele também pessoalmente forneceu ao público estatísticas manipuladas para desestigmatizar o ato do aborto. No entanto, em uma virada chocante, Nathanson mais tarde ingressou na Igreja Católica, onde se arrependeu de seus pecados, escreveu livros pró-vida e produziu documentários que têm sido usados desde então para expor a indústria do aborto.

Contudo, naquela época, Nathanson tinha como meta promover e até mesmo incitar à prática do aborto. E ele não estava sozinho. Larry Lader, discípulo da fundadora da Planned Parenthood, Margaret Sanger, escreveu um livro intitulado “Procriando até a morte”, no qual defendia o controle populacional. Ele também defendia o aborto irrestrito.

Famoso por classificar a gravidez como “a punição última do sexo”, Lader convenceu Friedan a incluir o aborto na agenda da Organização Nacional para as Mulheres e a propagandear o aborto como um método para a libertação das mulheres.

O movimento de libertação das mulheres foi levado a promover o aborto quando Friedan orquestrou uma votação para incluir a questão na plataforma da Organização Nacional para as Mulheres em sua conferência de 1967. A inclusão passou por 57 contra 14 votos. No entanto, havia 105 membros com poder de voto na conferência, o que significa que 34 deles não votaram. Aquelas 34 mulheres, indignadas com o fato de o grupo estar considerando a inclusão do aborto, se retiraram, dando assim origem à cisão entre feministas pró-escolha e pró-vida.

“Havia feministas que saíram daquela reunião e acreditavam nas mesmas coisas que eu”, disse Bolar. “[Essas mulheres] permitiram que mulheres como eu não enfrentassem os tipos de barreiras que elas enfrentaram em casa e na carreira. Reconhecer-me como feminista é reconhecer o que essas mulheres fizeram antes de mim”.

Algumas das ativistas pró-vida que Bolar mencionou incluem a doutora Elizabeth Blackwell, Elizabeth Cady Stanton, Mary Wollstonecraft e Alice Paul, a qual chamou o aborto de “exploração última das mulheres”.

Feminismo ou não?

Na medida em que Stepman e Bolar refletiam sobre as perguntas e comentários do público, elas enfatizaram o quanto é importante para as conservadoras, especialmente para as mulheres jovens, decidir se querem ou não reivindicar o feminismo.

“As feministas ainda estão criando esse roteiro para as mulheres jovens seguirem”, disse Stepman. “Para elas, as mulheres precisam se concentrar em suas carreiras antes mesmo de começarem a considerar casamento ou maternidade, quando, na verdade, foi demonstrado em estudos que muitas mulheres, se não a maioria, são mais felizes quando perseguem objetivos mais tradicionais e consideram essas relações pessoais muito mais significativas em suas vidas do que qualquer carreira poderia ser”.

Embora debater um termo como “feminismo” possa parecer algo irrelevante, o fato é que chamar a si mesma de feminista invoca décadas de bagagem histórica e intelectual, e muitos desses princípios “feministas” não mais se compatibilizam bem com o conservadorismo. A menos que, é claro, você qualifique sua resposta com uma ampla explicação que ninguém se interessa em ouvir.

O “feminismo conservador” moderno encoraja as mulheres a tomar suas próprias decisões sem depender do governo. Isso faz com que seja verdadeiramente a abordagem mais moral para a libertação e igualdade das mulheres.

No entanto, como apenas uma pequena porcentagem das mulheres realmente se considera feminista, devido à conotação negativa do termo, as conservadoras enfrentam uma escolha: ou eliminar a palavra “feminismo” e escolher outra, ou tentar recuperá-la apesar dos obstáculos políticos e culturais contemporâneos.

Independentemente da escolha feita, Bolar e Stepman concordaram em algo fundamental: o primeiro passo que todas podemos dar é nos tornar mais proativas nessa guerra cultural com a esquerda, em vez de apenas reagir aos padrões cada vez mais radicais que a esquerda apresenta.

Tradução de Alexandre Siloto Assine.

© 2019 The Daily Signal. Publicado com permissão. Original em inglês.

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