Cristãos que defendem a pena de morte se distanciam da natureza humana da mesma forma que os cristãos (e não-cristãos) que defendem o aborto.
Cristãos que defendem a pena de morte se distanciam da natureza humana da mesma forma que os cristãos e não-cristãos que defendem o aborto.| Foto: Pixabay

No fim do ano passado, a administração Trump voltou a realizar execuções federais depois de 17 anos. Antes de deixar o cargo, o ex-presidente Trump esteve à frente de 13 execuções, mais do que qualquer outro presidente nos últimos 100 anos.

Antes das eleições realizadas em novembro, vigorava uma tradição de 130 anos de parar com as execuções durante a transição presidencial. Mas o Departamento de Justiça de Trump se apressou em realizar o máximo possível de execuções antes da posse de Joe Biden. Talvez porque Biden tivesse prometido pôr fim à pena de morte no âmbito federal ou talvez porque o próprio Trump estivesse tentando aceitar o fato de que os últimos meses de seu governo constituiriam um período de transição.

De qualquer forma, é interessante o fato de que o “surto de execuções” realizadas pelo Departamento de Justiça tenha chamado pouca atenção. Claro que tanto os oponentes quanto os apoiadores de Trump estavam ocupados com assuntos mais importantes. Mas há ainda o fato de que o grupo dos apoiadores inclui um público específico que provavelmente apoiaria os atos do presidente mesmo que o caos pós-eleitoral não tivesse dominado o noticiário: conservadores cristãos que há tempos são uns dos maiores defensores da pena de morte.

Uma pesquisa realizada pelo Public Religion Research Institute (Instituto Público de Pesquisas Religiosas) em 2014 mostrou que os evangélicos brancos eram o único grupo demográfico do país a dar apoio a essa causa. Houve sinais de mudança nos últimos anos, mas os evangélicos brancos continuam sendo a grupo que mais apoia a pena de morte nos Estados Unidos.

A preocupação bem-intencionada com as vítimas dos piores crimes explica, em grande parte, o fenômeno. Mas o fato de o governo levar a cabo a pena capital — castigo que não pode ser revertido se posteriormente se descobrir falhas no processo — deveria ser incompreensível para os que professam a essência do cristianismo. Os mesmos compromissos teológicos que legam ao cristão o trabalho de militar contra o aborto deveriam fazer os cristãos serem contra a pena de morte.

Isso é mostrado por São Gregório de Nissa, num dos textos mais incríveis que chegaram até nós da Antiguidade. Durante sua quarta homilia sobre o Livro do Eclesiastes, Gregório, sozinho entre os luminares de sua época, pedia pela abolição total da escravidão. Quando lida no contexto histórico, a homilia atinge o leitor como um raio num dia de céu azul. Nada tão humano e misericordioso é encontrado na literatura da baixa Antiguidade, exceto nos Evangelhos:

“Você conheça à escravidão pessoas cuja natureza é livre e independente, e você faz leis que se opõem a Deus e são contrárias à lei natural Dele. Porque você subjugou aquele que foi criado justamente para ser o Senhor sobre a Terra e que o Criador queria como governante ao jugo da escravidão, resistindo e rejeitando os preceitos divinos Dele. (...) Por que você despreza os animais que foram feitos escravos sob suas mãos, de modo a agir contra a natureza livre, destruindo aquele que é da mesma natureza que a sua e o reduzindo a um bicho de quatro patas ou uma criatura inferior?”

A lógica de Gregório quanto à condenação da escravidão também se aplica à pena de morte. Todos os pensamentos dele sobre o assunto estão condicionados à crença na unidade da natureza humana. Ele acredita que somente a Humanidade, em sua totalidade, expressa a imagem de Deus. Se você excluir uma única alma dessa imagem, ela se quebra para sempre. Qualquer tipo de violência exercida por um ser humano sobre o outro, portanto, significa romper com a natureza humana. Como diz Gregório, expondo a seus oponentes seu argumento contra a escravidão: “Você dividiu a natureza humana em mestres e escravos e a tornou, ao mesmo tempo, mestre e escrava de si”. A morte premeditada de um único ser humano por outro também divide nossa natureza, tornando-a ao mesmo tempo assassina e assassinada.

Dessa tendência que temos em tratar os outros como se eles fossem criaturas diferentes de nós surgem todos os tipos de maldade. Principalmente os políticos são assolados por esse raciocínio, como Gregório via em sua época:

“Aqueles que brilham no palco da vida por causa de um cargo imperial (...) já não estão restritos à natureza humana e assumem um poder e uma autoridade divinos. Eles acreditam que têm soberania sobre a vida e a morte porque alguns por eles são julgados e inocentados, enquanto outros são condenados à morte; e eles nem param para pensar em que é de fato soberano sobre a vida humana, aquele que determina o início e o fim da existência”.

Essa linguagem está bem distante do cristianismo contemporâneo. Gregório fala das autoridades que matam os outros legalmente e dentro das estruturas constitucionais como pessoas não mais “restritas à natureza humana”. Eles se distanciaram do ser humano, da totalidade da nossa espécie, para a qual dos os indivíduos contam.

Essa é a única retórica pró-vida que faz sentido, sobretudo para os cristãos. A principal objeção que o movimento pró-vida faz à ordem jurídica atual dos Estados Unidos é que ela divide a natureza humana — entre os nascidos e não-nascidos — exatamente da forma que Gregório condena. Os defensores da pena de morte claramente têm mais facilidade do que os defensores do aborto, porque o argumento deles apela para a culpa e a responsabilidade pessoal. Mas é possível conciliar a crença num Deus que incorporou na própria carne a natureza humana e essa decisão mortal de divisão da natureza humana entre culpas e inocentes, de acordo com os mecanismos imperfeitos do sistema de justiça?

Se os cristãos pretendem liderar a adoção de políticas pró-vida nos Estados Unidos, eles não podem ter duas visões sobre a vida. Toda porta que se abre para uma espécie de qualificação ou limitação da santidade da vida deveria ser fechada e trancada. Os cristãos progressistas em geral aceitam isso quando à pena de morte, e os conservadores não veem mal algum em aplicar este argumento à vida no útero. Mas o movimento pró-vida ganhará força se os cristãos à esquerda e direita forem capazes de defender em uníssono ambas as causas.

Cameron Hilditch é membro do National Review Institute.

© 2021 National Review. Publicado com permissão. Original em inglês
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