Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Cacique do PT

Defensor do fim da escala 6×1, Paulo Pimenta teve empresa condenada por violações trabalhistas

Paulo Pimenta: discurso de disputa moral entre patrões e trabalhadores contrasta com seu histórico problemático como empregador (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Ouça este conteúdo

“Falta isso aqui para dar mais um passo pelo fim da escala 6x1”, postou o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) na última quarta-feira (27). A frase, que ele parece tentar emplacar como um bordão, vinha acompanhada do emoji de uma mão indicando “só mais um pouquinho”.

Na mesma mensagem, o líder do governo na Câmara falou em dignidade, descanso e exploração dos trabalhadores. E encerrou afirmando que “o Brasil precisa avançar para garantir mais qualidade de vida e mais respeito a quem sustenta este país com o próprio esforço”.

Mas documentos da Justiça do Trabalho mostram que o histórico de Pimenta como empresário é problemático quando o assunto envolve jornada, intervalos e direitos dos empregados. Até poucos anos, o parlamentar era sócio da irmã na Ouro Negro Comércio e Serviços Ltda., um posto de combustíveis em Porto Alegre que acumulou processos trabalhistas, passou por recuperação judicial e acabou falindo.

Nas eleições de 2014 e 2018, o deputado declarou à Justiça Eleitoral possuir cotas da empresa avaliadas em R$ 436,5 mil. O patrimônio deixou de aparecer apenas na declaração de bens de 2022 — período em que o negócio já estava com a falência decretada.

Sem descanso

O caso mais grave envolvendo a empresa tramitou na 13ª Vara do Trabalho de Porto Alegre. Na ação, uma ex-funcionária do posto relatou ter trabalhado em jornadas que chegavam a 48 horas semanais (acima do limite constitucional de 44 horas).

Segundo a sentença, também ficou comprovado que a mesma empregada, escalada para o turno da madrugada, trabalhava sem conseguir fazer intervalos regulares para descansar e comer.

A Justiça condenou a empresa ao pagamento de horas extras, adicional noturno, diferenças de benefícios e outras verbas trabalhistas. O valor definido na condenação foi de R$ 40 mil.

Em outro processo trabalhista, o próprio Paulo Pimenta apareceu como réu ao lado da empresa. A ação discutia direitos de rescisão, FGTS e férias proporcionais. O caso terminou em um acordo homologado pela Justiça em 2017.

Os documentos não deixam claro se Pimenta participava diretamente da gestão do posto. Também não existe uma decisão judicial responsabilizando pessoalmente o deputado pelas irregularidades apontadas nos processos. Nos papéis, a administração ficava com a irmã do parlamentar, Ceres Cristina, servidora pública de carreira que morreu em 2019.

Ainda assim, os registros revelam uma contradição no discurso de Pimenta — um cacique petista que já comandou, com status de ministro, duas pastas chave do governo Lula 3: a Secretaria de Comunicação Social e a Secretaria Extraordinária para Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul.

Bandeira moral

Postos de combustíveis são sempre citados nos debates sobre a jornada de trabalho brasileira. Afinal, o setor funciona de maneira contínua, com escalas pesadas, serviço noturno e uma grande dificuldade para reduzir carga horária sem aumentar custos. Pois é justamente esse modelo que hoje está no centro da campanha da esquerda, e especialmente do PT, pelo fim da escala 6x1.

A situação chama ainda mais atenção porque Paulo Pimenta não é um parlamentar distante dessa discussão. Pelo contrário: ele tem tratado a pauta como sua principal bandeira no momento, adotando um tom de disputa moral entre empresários e trabalhadores (como é típico de seu partido).

Sua experiência empresarial, no entanto, mostra uma realidade bem diferente — e que conta outra história.

A reportagem da Gazeta do Povo procurou a assessoria de Paulo Pimenta para que o parlamentar se manifestasse sobre o caso da Ouro Negro Comércio e Serviços Ltda., mas não obteve retorno até a conclusão deste texto.

VEJA TAMBÉM:

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.