O que tem mais peso, 5,88 milhões de vacinados ou pífios 2,77%? Depende de quem cita o dado. E com qual intenção.
O que tem mais peso, 5,88 milhões de vacinados ou pífios 2,77%? Depende de quem cita o dado. E com qual intenção.| Foto: Pixabay

O brasileiro está confuso, e com bons motivos. Afinal, vivemos num genocídio causado pela pandemia ou o Brasil está caminhando na velocidade da média global? Estamos vacinando muito pouco ou somos líderes em vacinação mundial?

Há diferentes respostas para cada questão. Tudo depende de como se olha os números – daí a dificuldade em encontrar um ponto de vista mais completo.

Por exemplo: de acordo com a publicação cientifica Our World in Data, que coleta dados sobre grandes problemas globais, no dia 22 de fevereiro de 2021 o Brasil era o segundo país do mundo com mais mortes de Covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos. O país responde por aproximadamente 10% do total de vítimas fatais da doença, apesar de ter apenas 2,7% da população do planeta.

Ainda assim, quando se calcula o total de mortos para cada 1 milhão de pessoas, de forma a estimar o alcance da doença de acordo com a população do país, o Brasil cai para 24º colocado, atrás de, por exemplo, Reino Unido, Itália e Estados Unidos. São 1.169 mortes por milhão de pessoas em terras brasileiras, contra 2.151 do primeiro colocado, San Marino.

As mesmas diferenças entre valores brutos e proporcionais à população se manifestam quando o assunto é vacinação. No total de pessoas inoculadas contra Covid-19, só perdemos para Israel e Estados Unidos (dados do dia 18 de fevereiro). Na proporção por 100 habitantes, estamos em quarto. Com 6,88 milhões de vacinados, Israel tem 80% de sua população já inoculada, contra 2,77% do Brasil.

O que tem mais peso, 6 milhões de vacinados, o equivalente às populações de Brasília e Salvador, somadas, ou 2,77%? Depende de quem cita o dado. E com qual intenção.

Distorções propositais

Para Regis Andriolo, professor da Universidade do Estado do Pará e especialista em saúde baseada em evidências com doutorado pela Universidade Federal de São Paulo, existem diferentes maneiras de manipular os resultados de um estudo em saúde. “Distorcendo a amostra, aplicando métodos estatísticos errados e selecionando apenas variáveis cujos resultados se alinham com as expectativas dos autores”, cita ele.

A lista prossegue: “desequilibrando os grupos de comparação, quanto às características associadas ao sucesso ou insucesso ao tratamento, apresentando discussão e conclusões não condizentes com os resultados observados e ainda abordando de forma sistematicamente diferente os pacientes de diferentes grupos, para favorecer mais ou menos um grupo ou outro”.

Utilizando essas estratégias, diz ele, é possível produzir e selecionar resultados que sustentem uma tese prévia – o contrário do que deveria fazer a ciência, com sua proposta de observar o mundo meticulosamente, extrair informações, analisá-las, e só então alcançar uma conclusão, que precisa ser testada e checada tantas vezes quanto necessário. “Essa manipulação acontece por ignorância ou por má fé”, afirma Andriolo.

Sete dias ou uma semana?

Não há nenhuma novidade nessas constatações. Em 1954, o escritor Darrell Huff publicou o livro Como mentir com estatística, que permanece um clássico, recomendado pelo empresário Bill Gates. Nesta obra, Huff comenta o fascínio que as pessoas costumam ter por números e o quanto os consideram necessariamente verdadeiros, mesmo sem saber de que forma os pesquisadores chegaram a eles.

“Alguns invernos atrás”, escreve o autor na introdução da obra, “doze cientistas relataram, de forma independente, dados sobre comprimidos anti-histamínicos. Todos mostraram que um  percentual  considerável de resfriados melhorava depois de algum tipo de tratamento. Houve um grande rebuliço, pelo menos nas propagandas, e um crescimento súbito na oferta de medicamentos”.

O problema, diz ele, é que os dados “baseavam-se em uma eterna esperança e em uma curiosa recusa em enxergar, para além das estatísticas, um fato conhecido de longa data. Como observou há algum tempo Henry G. Felsen, um humorista sem qualquer autoridade médica, um tratamento apropriado cura um resfriado em sete dias, mas, se deixado em paz, ele vai durar uma semana”.

Em resumo, afirma, “a linguagem secreta da estatística, tão atraente em uma cultura voltada para os fatos, é empregada para apelar, inflar, confundir e levar a simplificações exageradas”.

Como evitar cair nessas armadilhas? “Avaliando os estudos sob a luz de critérios de qualidade, aqueles que sabemos gerarem erros sistemáticos ou aleatórios”, responde o professor Regis Andriolo. E, na dúvida, desconfiar sempre dos números. Afinal, eles mentem, e muito.

Os benefícios de olhar para os dados com rigor são muitos. Como lembrou o médico e estatístico sueco Hans Rosling no documentário Joy of Stats, as estatísticas são uma ferramenta poderosa para compreender o mundo – sem elas, nenhuma ciência, da medicina à sociologia, passando pela física e a biologia, é viável. No filme, o especialista, falecido em 2017, lembra: “As estatísticas nos dizem se aquilo que pensamos e em que acreditamos são realmente verdade”.

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