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A operação da Polícia Federal que prendeu o influenciador Raphael Sousa interrompeu, pelo menos por ora, o funcionamento de uma página de fofocas que espalhou fake news, militou para a esquerda e foi investigada como possível responsável por um suicídio: a Choquei.
Sousa foi preso nesta quarta-feira, em uma operação contra uma organização criminosa acusada de lavagem de dinheiro e transações ilegais. Apesar de a PF ainda não ter detalhado a relação entre o criador de conteúdo e os outros alvos da operação – entre eles os funkeiros MC Ryan SP e MC Poze do Rodo –, não é a primeira vez que a página de fofocas aparece no noticiário policial.
O caso mais conhecido envolveu a morte de uma jovem de 22 anos em dezembro de 2023. Jéssica Canedo se suicidou após a divulgação de prints de um suposto flerte entre ela e o humorista Whindersson Nunes. As imagens, divulgadas originalmente pelo perfil Garotx do Blog, foram repostadas pelos perfis da Choquei no Instagram e no X.
Whindersson negou publicamente a informação. A mãe da garota, Inês Oliveira, fez um post apelando para que o material fosse removido. “Eu estou aqui, como uma mãe, pedindo pelo amor de Deus, gente, parem de postar isso”, disse ela. Segundo a mãe, a jovem havia tentado se matar quatro vezes naquele ano.
A própria jovem negou conhecer o humorista e também pediu para que as pessoas parassem de compartilhar as postagens da Choquei. “Essas conversas podem até ser verdadeiras, mas quem estava conversando com ele não era eu”, escreveu Canedo.
Na época, Raphael Sousa, hoje preso pela PF, ironizou o tamanho do texto postado por Jéssica: “Avisa pra ela que a redação do ENEM já passou. Pelo amor de Deus!”. Dias depois, a jovem de 22 anos cometeu suicídio.
Em seu primeiro pronunciamento sobre o caso, a Choquei emitiu um comunicado tentando se afastar da morte da jovem. Essa nota foi apagada e substituída por outra, em que a Choquei admitiu que a notícia era falsa.
Na conclusão do inquérito que investigou o caso, a Polícia Civil de Minas Gerais concluiu que os prints foram forjados pela própria Jéssica e enviados às páginas de fofoca através de perfis também gerenciados pela jovem.
Defesa diz que influenciador não integra organização criminosa
Em nota enviada à Gazeta do Povo, a defesa do influenciador afirma que o vínculo de Sousa com os fatos investigados na operação da Polícia Federal desta quarta-feira (15) "decorre, exclusivamente, da prestação de serviços publicitários por meio de sua empresa, responsável pela comercialização de espaço de divulgação digital".
Segundo o advogado Pedro Paulo de Medeiros, o criador da Choquei não integra nenhuma organização criminosa nem participou de atos ilícitos. Confira a íntegra da nota ao final da reportagem.
Choquei é braço da esquerda nas redes sociais
O influenciador preso pela PF é próximo à primeira-dama Rosângela Silva, a Janja. Durante a campanha presidencial de 2022, Janja mandou fotos dos bastidores de um debate para serem publicadas de forma exclusiva pela Choquei.
A primeira-dama costumava interagir com a página nas redes sociais e convidou Sousa para subir no carro de som oficial da equipe de Lula e acompanhar o discurso da vitória do petista após as eleições de 2022.
Em uma entrevista, o criador da Choquei reconheceu que pode ter ajudado a eleger o atual presidente e afirmou que todos os seus colaboradores eram pró-Lula. Mas o trabalho de apoio ao petista, disse o influenciador, tinha mais a ver com o fato de ele ser contrário a Bolsonaro.
Além das fofocas sobre reality show e subcelebridades, o espaço aberto pela Choquei nas redes sociais foi cada vez mais utilizado para disseminar fake news pró-Lula. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF), ex-ministra dos Direitos Humanos na gestão Bolsonaro, foi alvo de algumas dessas postagens.
Em uma delas, que alcançou uma audiência de mais de 2 milhões de seguidores, a Choquei afirmou falsamente que quando era ministra, Damares pediu que Bolsonaro vetasse a entrega de leitos de UTI e de água potável a indígenas.
A mentira como método na Choquei
A página tem como método usar as redes sociais para espalhar fofocas sobre artistas e cobrir tudo o que possa dar audiência. Além disso, eram frequentes as postagens exageradas e até mesmo mentirosas. Seja o governo, a política internacional, ou o mundo do entretenimento, nada escapava do radar das fake news publicadas pela Choquei.
Foi assim em 2023, quando a Choquei mostrou imagens do que seria o Rio Nilo da cor de sangue. Ou quando a página trouxe um vídeo de uma suposta tentativa de assassinato do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.
O que seria o Nilo na verdade era uma lagoa no Chile. E o vídeo com a suposta tentativa de assassinato de Abbas era de uma disputa entre criminosos e agentes de segurança, sem nenhuma relação com o líder palestino.
Em 2022 a página afirmou que o então apresentador do Jornal Nacional, William Bonner, teria aberto uma lata de cerveja no estúdio para comemorar a vitória de Lula na presidência — Bonner, na verdade, abriu uma lata de água.
Em outra postagem, a Choquei “se confundiu” – não se sabe se de forma intencional – ao publicar um esquete humorístico como se fosse um vídeo real de uma briga em uma estação de metrô de Nova York.
No mesmo dia, a página também afirmou que um projeto então aprovado no Senado reduziria a jornada de trabalho. Na verdade, a proposta apenas dava mais flexibilidade à negociação entre patrões e empregados.
O sistema de Notas da Comunidade do X sinalizou essas e outras postagens da Choquei como enganosas. Mas o alcance das correções, que costumam entrar no ar depois de algumas horas, não chega nem perto da audiência dos posts originais. Em média, essas respostas têm 13,6% das visualizações do post original.
Essa aparente superficialidade na checagem da veracidade das informações postadas, no final das contas, garante retorno financeiro à Choquei. Redes sociais, como o X e o Instagram, costumam remunerar os criadores de conteúdo de acordo com o número de views. Além disso, o alcance da página – atualmente com mais de 36,5 milhões de inscritos nos perfis dessas duas redes – abre portas para anúncios de grandes marcas.
Veja a íntegra da nota da defesa de Raphael Sousa à Gazeta do Povo
Nota à imprensa | Caso Choquei
A defesa de Raphael Sousa Oliveira esclarece que seu vínculo com os fatos investigados decorre, exclusivamente, da prestação de serviços publicitários por meio de sua empresa, responsável pela comercialização de espaço de divulgação digital.
Os valores por ele recebidos referem-se a serviços efetivamente prestados de publicidade e marketing, atividade lícita e regularmente exercida há anos.
Raphael não integra organização criminosa, não participou de qualquer esquema ilícito e jamais exerceu função diversa da veiculação publicitária contratada.
A defesa está adotando as medidas cabíveis e demonstrará, no momento oportuno, que sua atuação sempre se deu dentro dos limites da legalidade.
Advogado Pedro Paulo de Medeiros











