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“Fogo na Saia” e companhia: emendas parlamentares pagam shows em cidades sem saneamento

Banda terá cachê pago com emendas parlamentares
Banda "Fogo na Saia" será uma das atrações com cachê pago por emendas parlamentares. (Foto: Marcos Borges / Prefeitura Municipal de Aracaju)

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Nos discursos no Congresso Nacional, a rotina é que deputados e senadores de direita, esquerda e do centrão travem embates retóricos e façam questão de estabelecer posições antagônicas a seus adversários políticos. Marcar posição, tomar um lado, fazer oposição ao outro faz parte do jogo. 

Mas poucas coisas unem tanto os políticos brasileiros quanto as emendas parlamentares. Seja de que lado do espectro político for, é por meio das emendas que os representantes do povo reforçam seu papel de provedores de benefícios, estreitando laços com prefeituras e lideranças locais em suas bases eleitorais. E também promovendo shows musicais de gosto duvidoso em cidades pobres e com infraestrutura deficiente.

É bem verdade que metade do valor das emendas sai de Brasília com destino certo para investimentos na Saúde. Mas a regra permite alguma flexibilidade com o dinheiro que vem dos impostos dos contribuintes, principalmente naquelas emendas individuais com transferência especial. 

Emendas PIX dão poder duplo de barganha aos parlamentares

O nome pomposo foi substituído no dia a dia dos políticos por um termo mais fácil de entender: “emenda PIX”. Elas são parte de um mecanismo complexo no qual congressistas – deputados e senadores – podem direcionar recursos de forma direta para estados e municípios. Assim como as emendas de bancada e as individuais com transferência por finalidade definida, são de execução obrigatória. 

Isso dá um poder duplo de barganha para os parlamentares. Como o governo é obrigado a pagar determinadas emendas, tornou-se prática comum que o Executivo abra as torneiras em momentos estratégicos, quando há a necessidade de grande apoio do Legislativo para aprovação de projetos. 

Na outra ponta, esses mesmos parlamentares conseguem barganhar com políticos da esfera municipal. As emendas parlamentares são tradicionalmente utilizadas para projetos que agraciam as bases eleitorais de deputados e senadores. Ficam de olho nas emendas, principalmente, os prefeitos que dependem em parte desses recursos. 

Emendas são usadas para pagamento de cachês

A forma de uso varia, de investimentos obrigatórios na Saúde, passando por educação, segurança pública. Além disso, principalmente em anos eleitorais, não faltam recursos abundantes para festividades e celebrações nas cidades do interior, mesmo naquelas com condições precárias de infraestrutura. 

A Gazeta do Povo listou algumas dessas festas que serão bancadas com emendas parlamentares. As atrações cujos cachês serão custeados com os impostos dos contribuintes vão de DJs de eletrofunk a bandas cujas músicas passam longe do bom gosto. Confira: 

1) Festa da Melancia de Uruana (GO) 

Em uma de suas emendas, de valor total empenhado de mais de R$ 11 milhões, o deputado Celio Antonio da Silveira (MDB-GO), separou uma fatia de R$ 696,5 mil para custear a contratação de artistas na Festa da Melancia de Uruana (GO), que será realizada de 10 a 13 de setembro de 2026. Na cidade, apenas 6,2% das residências estão ligadas à rede de esgoto.

Assim como em outras emendas empenhadas, não há mais detalhes sobre quais serão os artistas beneficiados com os quase setecentos mil reais. Ainda assim, a justificativa do parlamentar é de que os “shows de grande porte” reforçarão “ainda mais a relevância cultural e turística da festividade”. 

A expectativa dos organizadores, segundo Silveira, é de que a Festa da Melancia reúna cerca de 16 mil pessoas por noite de shows. A população de Uruana, segundo dados do IBGE, não chega a 14 mil pessoas. 

2) Festa de Emancipação Política de Igaracy (PB) 

Antes de se tornar município, Igaracy, no sertão paraibano, era um distrito de Piancó chamado Boqueirão dos Cochos. Como parte das comemorações de seu Jubileu de Safira, que marca os 65 anos da emancipação, a cidade paraibana de pouco mais de 5,6 mil pessoas contará com um show de 1h40 de duração com a cantora Raphaela Santos. 

O cachê da artista, de cerca de R$ 300 mil, será custeado por uma emenda PIX do deputado José Wellington Roberto (PSD-PB). Os recursos oriundos do Tesouro Nacional via Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, foram enviados ao município de Igaracy no último dia 12 de maio. A rede de esgoto, que atende 4,4% das casas, pode esperar.

3) Festa de São João Batista e Festa de Santana em Itapororoca (PB) 

Raphaela Santos também vai apresentar seus sucessos, como “Rasga Minha Roupa”, “Antes de Trair” e “Me Perdoa”, na Festa de São João Batista em Itapororoca (PB). Para o show, previsto para o próximo dia 22 de junho, o cachê será um pouco mais alto do que o pago em Igaracy, R$ 350 mil. 

Já em agosto, na Festa de Santana, os itapororoquenses terão como atração principal a banda Calcinha Preta, que subirá ao palco por nada menos que R$ 445 mil. 

Somados, os quase R$ 900 mil saíram de uma emenda PIX do senador Efraim Filho (PL-PB). Para o parlamentar, as “atrações nacionais valorizam a cultura local e impulsionam o turismo” na paraibana Itapororoca (rede de esgoto: 12,7% das casas).

4) Festa do Caminhoneiro e Festa da Batata em Moita Bonita (SE) 

O senador Laércio Oliveira (PP-SE) separou quase um milhão de reais de suas emendas PIX para custear as atrações musicais de duas festas agendadas para a cidade de Moita Bonita, no agreste sergipano. 

A primeira, a Festa do Caminhoneiro, deve ser realizada em setembro de 2026 e vai contar com uma apresentação artística a ser paga com um orçamento de R$ 497,5 mil. O valor é o mesmo para o cachê da apresentação principal da Festa da Batata, prevista para novembro deste mesmo ano. Não há detalhes sobre quem subirá aos palcos. 

Segundo o IBGE, dos cerca de 11,2 mil habitantes de Moita Bonita, menos de mil estão ocupando postos de trabalho formal. Destes, metade recebe menos de meio salário mínimo. 

Na emenda, o senador justifica os R$ 995 mil em cachê artístico como uma forma de “atrair público regional, fortalecer a identidade cultural, e aquecer a economia local com a geração de renda para os produtores e comerciantes do município”. 

5) Festa de Junho em Americano do Brasil (GO) 

Neste mês de junho, os pouco mais de 5 mil moradores de Americano do Brasil, em Goiás, além dos potenciais visitantes de outras cidades do centro goiano, poderão assistir a uma série de apresentações musicais na Festa de Junho, nos dias 18, 19, 20 e 21. 

No line-up das festividades, uma série de DJs de eletrofunk. Os cachês variam de R$ 30 mil – quantia a ser paga para o DJ NT62, autor de músicas como “Sentabilidade das Taradas” e “Onde Você Está? Eu Tô F...” – a R$ 100 mil – valor do cachê do DJ Wan Baster, que em sua obra conta com uma música que rima “sentada” com “molhada”, na conotação mais chula de ambos os termos.

Ao todo, os R$ 497,5 mil a serem pagos em cachês artísticos foram garantidos por uma emenda PIX da deputada Silvye Alves da Silva (UNIÃO-GO). Assim como alguns de seus pares, ela não apresentou nenhuma justificativa para o empenho de quase meio milhão de reais para pagar os shows dos DJs de eletrofunk. Há, na emenda, apenas a classificação do empenho como um “evento gerador de fluxo turístico de abrangência municipal, estadual ou regional”. Na cidade, 8,2% das casas estão ligadas à rede de esgoto.

6) Festival da Lavoura de Calçado (PE) 

O dia 26 de setembro de 2026 será especial em Calçado, município do agreste pernambucano. Na cidade, quase um quarto dos habitantes não sabe ler. O Festival da Lavoura contará, no mesmo dia, com apresentações musicais de Yasmin Sensação e da Banda Unha Pintada. 

A primeira vai receber R$ 197,5 mil em cachê para apresentar, entre outras músicas, a sua versão em arrocha de “Cachorrinho”, famosa originalmente na voz de Kelly Key e pelo seu refrão chiclete: “Vem aqui, que agora eu tô mandando / Vem meu cachorrinho, a sua dona tá chamando”. 

Para a segunda o cachê é maior, R$ 300 mil. Por esse valor, os calçadenses poderão ouvir músicas como “Teste de Farmácia”, que em sua letra traz os seguintes versos:  

“Ela me ligou desesperada 

Dizendo que já tem mais de um mês que tá atrasada 

Que hoje acordou enjoada 

Faz o teste de farmácia aí, bebê 

Se der positivo, eu caso com você 

Nem precisa de DNA 

Covarde eu seria se eu mandasse você abortar” 

O custeio para ambos os shows, de quase meio milhão de reais, foi garantido pelo deputado federal André Ferreira Rodrigues (PL-PE). Assim como em outros casos, não há uma justificativa para o empenho dos valores. 

7) Festejos do município de Lavandeira (TO) 

O “desande” esteve em evidência em maio deste ano em Lavandeira, no extremo sul de Tocantins. O estilo musical que mistura funk e outras sonoridades com um resultado caótico foi representado pelo DJ Vovô James, um dos artistas que se apresentaram no início do mês na cidade com pouco mais de 1,5 mil habitantes. 

O show recebeu uma fatia dos cerca de R$ 200 mil direcionados ao município por meio de uma emenda PIX do deputado federal Carlos Henrique Gaguim (União-TO). Segundo seu plano de trabalho, o empenho se justifica uma vez que “o município é pertencente a região turística das Serras Gerais, a qual pertence ao mapa do turismo brasileiro”. Na cidade, menos de 1% das residências estão ligadas à rede de esgoto.

8) Festa de Santos Reis e Festa do Padroeiro em Macambira (SE) 

Rogério Carvalho (PT-SE) é outro senador que reservou uma fatia de suas emendas PIX para custear festividades populares no interior do Brasil. Desse orçamento foram empenhados R$ 348,3 mil para a Festa de Santos Reis e Festa do Padroeiro em Macambira, no agreste sergipano. 

A Festa do Padroeiro recebeu a menor parte dos recursos. Foram R$ 25 mil para o cachê artístico do cantor gospel Marcos Simões. A maior parte ficou reservada para a Festa de Santos Reis, como forma de pagamento para a vaquejada de Mano Walter, que tem em seu repertório canções como “Calcinha Amarela” e “Ela Só Quer Montar”.  Com mais de 7 mil habitantes, a cidade tem menos de 300 empregos formais.

9) Festival da Mandioca em Lagarto (SE) 

Em mais uma emenda PIX proposta pelo senador petista Rogério Carvalho (PT-SE), foram empenhados R$ 1.442.750 para o custeio de contratação de banda para o Festival da Mandioca 2026 no município sergipano de Lagarto. Essa é a única descrição do empenho, sem mais detalhes, a não ser sobre a importância da festividade para os moradores locais. 

“Entre os momentos mais tradicionais [da Festa da Mandioca] está a Pega do Mastro, que abre os festejos com um cortejo animado pelas ruas, reunindo moradores de todas as idades em celebração da cultura popular”, detalhou Carvalho. Na cidade, três quartos das casas não têm ligação com a rede de esgoto.

10) Festa de emancipação política, Festa da Padroeira de Tabocal e Festa da Padroeira de Fluvião, em Malhada dos Bois (SE) 

No último dia 12 de maio, o município de Malhada dos Bois, que tem pouco mais de 3,5 mil habitantes, recebeu uma ordem de pagamento de R$ 597 mil. O valor faz parte de uma emenda PIX de mais de R$ 22,2 milhões empenhada pela deputada federal Delegada Katarina (PSD-SE) e tem destino certo: o custeio de apresentações musicais para três festas no município do agreste sergipano, onde 16% das casas são atendidas pela rede de esgoto.

Para a Festa da Padroeira do povoado Fluvião, a atração principal é o cantor e brega Heytor, o Bonzinho, com um cachê de R$ 77 mil. Na Festa da Padroeira do povoado Tabocal, as atrações são Júlio Nascimento (R$ 70 mil) e Rafinha, que também atende pelas alcunhas de “O Big Love” e “O Bom de Verdade” (R$ 150 mil). 

Na festa principal, do aniversário de Malhada dos Bois, os shows custeados pela emenda PIX da deputada são de Lala Amor Cigano, com cachê de R$ 60 mil; Raquel dos Teclados, a um custo de R$ 150 mil; e Banda Fogo na Saia, que terá garantidos R$ 90 mil. Para esta última, o destaque são as letras de músicas como “Banho de Gato”, que deixam pouco à imaginação dos ouvintes da apresentação bancada com dinheiro público: 

“Meu amor se eu lhe pegar 

Eu vou lhe dar um banho de gato 

Eu vou traçar você na mão 

Botar a faca na bainha 

Envenenar o seu fuscão 

Fazer um canguru perneta 

Fazer um carrinho de mão 

Vou enfiar a baioneta 

Bater café no seu pilão 

Aí você vai se apaixonar 

E nunca mais vai me provocar” 

O que dizem os parlamentares 

A reportagem entrou em contato com todos os parlamentares citados questionando o direcionamento de emendas para o pagamento de cachês artísticos. Apenas o senador Rogério Carvalho (PT-SE) e o deputado federal Célio Silveira (MDB-GO) enviaram nota. O espaço segue aberto para as outras manifestações. 

Em comum em ambas as respostas, a justificativa de que o pedido partiu das prefeituras municipais, cabendo ao parlamentar apenas o envio dos recursos. “A forma como os recursos são utilizados é de inteira responsabilidade do município”, explicou o senador petista. 

O deputado do MDB goiano seguiu pela mesma linha, lembrando que cabe à prefeitura de Uruana gerir a verba das emendas. Ele ainda defendeu que investimentos na cultura também levam ao desenvolvimento dos municípios. 

“Entendemos que saúde, educação e infraestrutura são prioridades permanentes, mas também reconhecemos que cultura, turismo e lazer possuem papel relevante na geração de renda, no fortalecimento da identidade local e na movimentação da economia dos municípios, especialmente daqueles cuja atividade turística e cultural representa importante fonte de desenvolvimento”, conclui a nota. 

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