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Uma cidade para o ministro

Entenda o projeto da cidade apelidada de “Gilmarlândia” em homenagem a Gilmar Mendes

Projeto de cidade, apelidado de "Gilmarlândia", tem ligação com Gilmar Mendes, ministro do STF.
Projeto de cidade, apelidado de "Gilmarlândia", tem ligação com Gilmar Mendes, ministro do STF. (Foto: Antonio Augusto/STF)

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Quando se aposentar, Gilmar Mendes poderá, se quiser, passar os dias de descanso em uma cidade que homenageia a ele próprio. Trata-se da “Gilmarlândia”, como vem sendo chamado, informalmente, o projeto que pretende criar um novo município no interior de Mato Grosso. 

A iniciativa foi apresentada publicamente no último sábado, dia 21, e o nome oficial do futuro distrito é Nova Aliança do Norte. Presente no lançamento da pedra fundamental, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) celebrou o plano, liderado por um dos principais empresários do agronegócio brasileiro. 

“Eu acho importante essa iniciativa de se ter um núcleo de apoio para as famílias e pessoas que trabalham nessa região. Já temos a experiência da Deciolândia e agora temos esse projeto que há muito era sonhado pelo Eraí Maggi”, afirmou Gilmar Mendes durante o evento.

Mas quem é Eraí Maggi? 

A revelação do projeto reuniu empresários do agronegócio, autoridades estaduais e prefeitos da região, mas tem como principal articulador o produtor rural Eraí Maggi, da mesma família de Blairo Maggi, ex-ministro da Agricultura no governo Michel Temer (MDB).

Eraí é um dos proprietários do Grupo Bom Futuro, empresa do agronegócio sediada no Centro-Oeste e administrada ao lado dos irmãos Elusmar e Fernando. Criada inicialmente para a produção de soja, a companhia ampliou suas atividades e passou a atuar também em áreas como energia renovável. 

No evento de sábado, estiveram presentes também o vice-governador de Mato Grosso, Otaviano Pivetta (Republicanos), o secretário-chefe da Casa Civil, Fábio Garcia (União Brasil), e o presidente da Assembleia Legislativa do estado, Max Russi (PSB).

Mas por que “Gilmarlândia”? 

O apelido informal não surgiu apenas do apoio público do ministro à proposta. Gilmar Mendes nasceu em Diamantino, cidade próxima ao local escolhido e onde sua família mantém presença política histórica.

O atual prefeito do município, em terceiro mandato, é Francisco Mendes (União Brasil), conhecido como Chico, irmão do ministro. O avô e o pai de Gilmar, ambos chamados Francisco, também exerceram o cargo ao longo dos anos. 

Chico Mendes é veterinário e produtor rural. Na última declaração de patrimônio ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), informou possuir R$ 56 milhões em bens, incluindo terras e participações em empresas ligadas ao setor agropecuário.

Qual a justificativa? 

O próprio Eraí Maggi conduziu o lançamento e apresentou os argumentos para a realização do projeto. O novo município ficaria entre São José do Rio Claro e Diamantino, a cerca de 300 quilômetros da capital Cuiabá.

“Tem essa vontade de ajudar o povo. Então, aqui precisa de um hospital, de uma cidade boa. Tudo fica a 100 quilômetros, 150 quilômetros. Então precisa de saúde, educação, segurança, lazer, igreja…”, afirmou o produtor rural. 

Na mesma ocasião, Gilmar Mendes destacou que a proposta enfrenta desafios: “Precisa ter um esforço bastante grande de todas as pessoas e de todas as instituições”. 

Os idealizadores afirmam que a iniciativa responde ao crescimento econômico da região agrícola e à ausência de estrutura urbana próxima das áreas produtivas. 

“As pessoas ficam nas fazendas aqui, fazenda com mil funcionários, 500 funcionários, e a família longe, no Nordeste ou na cidade a 100 km. Não tem cabeça para trabalhar. Tem que estar com a esposa à noite. Tem que ter futebol, clube, diversão. As famílias estão desmontadas. É isso que nós vamos ter aqui”, declarou Maggi em entrevista à imprensa local. 

A região concentra produção intensiva de grãos e registra aumento na circulação de trabalhadores e serviços. A localização, em área de divisa municipal e próxima a rotas de escoamento agrícola, também é apontada como estratégica para organizar a prestação de serviços públicos e criar um novo pólo regional de apoio econômico. 

O que existe hoje no local 

A área indicada para a futura cidade ainda não apresenta características urbanas. A região é ocupada principalmente por grandes fazendas e estruturas ligadas à produção agrícola. 

O local fica próximo à rodovia MT-249, na região conhecida como Estreito do Rio Claro. O entorno é formado por lavouras mecanizadas, sobretudo de soja e milho, com ocupação humana dispersa em propriedades rurais. 

Não há bairros organizados nem infraestrutura típica de cidade, apenas áreas de cultivo e logística voltada ao escoamento da produção.

Como se cria uma cidade? 

Por enquanto, o projeto permanece em fase inicial. Não há confirmação de que o município será efetivamente criado, nem divulgação completa de cronograma, modelo administrativo ou detalhes técnicos.

Para que a cidade exista formalmente, será necessário cumprir exigências constitucionais, como estudos de viabilidade econômica e administrativa, aprovação por lei estadual e realização de plebiscito com a população envolvida. 

Se aprovado em consulta popular, o estado poderá sancionar a lei de criação do município. Em seguida, serão instaladas prefeitura e câmara de vereadores, e o Tribunal Regional Eleitoral organizará as primeiras eleições locais. Somente após essa etapa o município passa a funcionar com autonomia. 

Atualmente, Mato Grosso possui 142 municípios. 

Pode dar nome de cidade a pessoas vivas? 

No caso de Nova Aliança do Norte, o nome oficial não faz referência ao ministro. “Gilmarlândia” permanece apenas como apelido informal, sem validade administrativa. 

A legislação brasileira, porém, proíbe que bens públicos recebam o nome de pessoas vivas. A regra está prevista na Lei Federal nº 6.454, de 1977, e se baseia nos princípios constitucionais da impessoalidade e da moralidade administrativa. 

Embora a norma trate diretamente de bens da União, sua interpretação foi ampliada para estados e municípios. Homenagens oficiais a pessoas vivas podem ser contestadas judicialmente por caracterizar promoção pessoal.

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