
Ouça este conteúdo
Receber nota máxima em uma avaliação em Harvard é algo especial? Coloca o estudante em um patamar diferenciado em relação aos colegas de turma? A resposta mais normal para essas duas perguntas seria “sim”.
Mas a realidade daquela que já foi uma das mais prestigiadas universidades do mundo parece estar longe do normal, com notas inflacionadas e professores tentando mudar radicalmente a forma de avaliação.
A inflação das notas “A”, as mais altas na escala de avaliação de Harvard, é uma rotina dentro da instituição, a ponto de ter se tornado a média geral de muitos cursos nos últimos 10 anos.
Para escolher os melhores, aqueles agraciados com a distinção acadêmica summa cum laude, a universidade está tendo que recorrer literalmente a notas com até cinco casas depois da vírgula.
“O ‘A’ em Harvard não causa mais tanta impressão, porque existem muitos outros iguais”, resumiu um reitor da faculdade de Medicina de Harvard.
Harvard vai voltar a dar nota máxima apenas para os melhores
Para tentar frear essa tendência, um grupo de professores chegou a uma proposta que, fossem outros tempos, seria tratada como algo tão óbvio que nem precisaria ser discutido: limitar a concessão das avaliações máximas apenas para aqueles alunos que realmente atingirem um desempenho excepcional.
A ideia saiu do papel e foi aprovada por ampla maioria pela administração de Harvard. A partir de 2027, as notas A serão limitadas exclusivamente àqueles entre os 20% melhores alunos de cada turma de graduação. Em alguns casos, outras quatro notas máximas poderão ser atribuídas aos estudantes, nada além disso.
A proposta atraiu 70% dos votos dos professores, ainda mais depois de um relatório interno indicar que mais de 60% das notas atribuídas aos alunos de graduação de Harvard eram A. Amanda Claybaugh, professora autora do relatório, destacou que a enxurrada de notas máximas estava “prejudicando a cultura acadêmica de Harvard”.
Os estudantes, por outro lado, se mostraram totalmente opostos à readequação. Cerca de 85% dos entrevistados em uma pesquisa realizada em fevereiro pela Associação de Estudantes de Graduação de Harvard disseram desaprovar a proposta. Para eles, se a nota A é insuficiente para determinar os melhores, a universidade poderia criar uma nova gradação, “A+”.
A proposta foi frontalmente rebatida pela professora Claybaugh. “Incluir notas A+ na política de Harvard”, avaliou, “poderia criar ciclos contínuos de pressão ascendente e reduzir a legitimidade de nossa atual rubrica de avaliação”.
O governo de Donald Trump tem sido frontalmente crítico à gestão de Harvard, e o presidente tem judicializado diversas questões da universidade. Desde o financiamento com verbas federais até acusações de discriminação contra judeus e israelenses, Trump tem mantido a instituição em sua mira neste segundo mandato.
Professores de Harvard se tornaram "mais sensíveis" com estudantes
O relatório elaborado pela professora foi publicado após uma reportagem do New York Times mostrar que as notas altas eram atribuídas mesmo a estudantes que faltavam às aulas. Os alunos estariam dando pouca prioridade aos estudos e buscando disciplinas mais fáceis. Esse desinteresse curricular foi visto pela reportagem como algo preocupante.
No documento, Claybaugh apontou que houve uma espécie de leniência dos professores, principalmente depois da pandemia de Covid-19. Os professores teriam sido incentivados, segundo ela, a serem “mais sensíveis” com os estudantes que ingressavam em Harvard oriundos de um Ensino Médio não tão exigente.
“Durante a última década, a faculdade tem insistido para que o corpo docente se lembre de que alguns alunos chegam menos preparados para a universidade do que outros. Sem saber qual a melhor forma de apoiar seus alunos, muitos simplesmente se tornaram mais tolerantes”, disse.
Alguns desses professores, especialmente nas áreas de humanidades e ciências sociais interpretativas, disseram a Claybaugh “que tiveram que reduzir algumas leituras e eliminar outras completamente, que tiveram que trocar romances por contos e que é difícil continuar atribuindo leituras diante do aumento das reclamações dos alunos”.
VEJA TAMBÉM:











