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As praças de Trípoli e as periferias de Joanesburgo dialogam à distância e sinalizam uma fratura que põe em xeque a lógica do Ocidente. Isso ocorre justamente no momento em que o Parlamento Europeu aprova em definitivo o novo Regulamento sobre Repatriações, validando os centros de detenção fora das fronteiras da União Europeia — seguindo o modelo do protocolo Itália-Albânia.
A onda migratória agora inverteu a histórica rota em direção ao norte do mundo. Ao se mover cada vez mais dentro do próprio continente africano, o fenômeno gera profundos impactos sociais. O mito geopolítico da solidariedade panafricana está desmoronando sob os golpes de uma violenta crise de rejeição, onde as palavras de ordem são controle de fronteiras, expulsão de ilegais e recusa dos custos sociais do acolhimento.
Em Trípoli, o cerco de cidadãos líbios à sede do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) para exigir seu fechamento expõe as fragilidades da estratégia europeia. Os protestos — desencadeados por crescentes problemas de ordem pública nos bairros e pela exasperação com a sobrecarga dos serviços públicos e de energia — nascem, na verdade, da rejeição a um assistencialismo internacional, que é percebido como um incentivo para a permanência definitiva dos migrantes.
Bruxelas há muito tempo considera a Líbia um polo de trânsito passivo, uma terra de ninguém a quem delegar o papel de vigia em troca de verbas e barcos de patrulha. A realidade, porém, mostra um barril de pólvora saturado, no qual a população local rejeita o papel de zona de amortecimento, percebendo a presença de indivíduos da região subsequariana como uma ameaça crescente à sua própria segurança e a uma economia que já é frágil.
O efeito dominó no Norte da África
O cenário se repete ao longo da costa norte-africana. Das ruas bloqueadas de Sfax e Jebeniana, na Tunísia — que forçaram o presidente Kaïs Saïed a realizar operações massivas de controle e repatriação —, até os protestos na Argélia e na Mauritânia, a reação em cadeia é militar e política. Os governos locais se descobrem como funis de uma rede congestionada e fecham suas fronteiras terrestres.
Quem pressiona essas fronteiras é o êxodo do Sahel, uma área pulverizada por golpes de Estado, jihadismo e desertificação. A resposta ao esgotamento dos cidadãos é um coro que ecoa por todo o Norte da África: "A Tunísia para os tunisianos", "A Líbia para os líbios" e assim por diante.
No extremo oposto do continente, a África do Sul reflete as mesmas tensões.
Na terra que fez do panafricanismo o pilar de sua identidade, o governo agora mobiliza drones nas fronteiras, e a agência estatal SAnews confirma mais de 40 mil prisões de imigrantes ilegais desde o início do ano. A pressão demográfica ali é alimentada pelo colapso econômico e pela violência no Zimbábue, Moçambique, Congo e Nigéria. A ironia da história se consolida nos subúrbios de Joanesburgo, forçados a lidar com um inédito apartheid social entre africanos.
O reflexo dos problemas europeus
As rachaduras que desgastam a África copiam os problemas já visíveis na Europa, onde a emergência migratória — por muito tempo interpretada pela política ocidental como uma simples manifestação de intolerância — é palpável nas periferias de pequenas e grandes cidades. Enquanto os modelos de integração mostram seus limites sob o peso de números insustentáveis, a costa sul se descobre dividida em uma África a duas velocidades. Nela, as nações mais estáveis sofrem com a imigração como uma ameaça à sua frágil modernidade, reagindo com a mesma dureza que a Europa tentou evitar por muito tempo.
Essa redefinição da geografia migratória pode colocar em risco acordos estratégicos bilaterais, como os firmados entre Itália e Líbia ou Espanha e Mauritânia. A ideia de terceirizar cada vez mais o problema pagando a governos terceiros colide com a realidade de nações africanas que já estão no limite. Isso demonstra que, sem uma gestão ordenada dos fluxos, a pressão sobre as comunidades locais se torna insustentável. Em qualquer latitude.
© 2026 La Nuova Bussola Quotidiana. Publicado com permissão. Original em italiano: Anche l'Africa è sempre più insofferente sull'immigrazione.







