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Competição em Las Vegas

“Jogos dopados”: Enhanced Games fazem barulho, mas têm apenas uma quebra de recorde

Nadador Kristian Gkolomeev: dopado, ele bateu o recorde mundial dos 50 metros nado livre.
Nadador Kristian Gkolomeev: dopado, ele bateu o recorde mundial dos 50 metros no nado livre. (Foto: Divulgação/Enhanced Games)

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No domingo (24), aconteceram em Las Vegas os Enhanced Games (“jogos melhorados” ou “jogos enriquecidos”), uma competição atlética internacional na qual os participantes podiam se dopar. Mais do que isso, tudo foi projetado para que o fizessem, embora três deles tenham decidido competir “limpos”. O objetivo, segundo os promotores, era explorar o impacto de certas substâncias até então proibidas em competições oficiais; e, especificamente, verificar se, com esse “enriquecimento”, recordes mundiais podem ser quebrados. O prêmio por alcançá-lo era suculento: um milhão de dólares.

No final, apenas um recorde foi quebrado, embora logicamente não vá contar nos registros oficiais. Nos 50 metros do nado livre, o nadador grego Kristian Gkolomeev parou o cronômetro em 20,81 segundos, sete centésimos abaixo da marca mundial.

Uma segunda chance para atletas "esgotados"

Os Enhanced Games começaram a ser articulados em 2022 e foram anunciados oficialmente alguns meses depois (a princípio, a intenção era que fossem realizados em 2024, mas a data foi sendo adiada). Finalmente, participaram pouco mais de 40 atletas em três disciplinas: natação, velocidade e levantamento de peso. Praticamente todos têm carreiras na elite, e vários conquistaram medalhas olímpicas.

Entre os nomes mais reconhecíveis estão os velocistas Fred Kerley (detentor da sétima melhor marca da história nos 100 metros rasos, e um dos que competiu sem se dopar) e Marvin Bracy-Williams (várias vezes vice-campeão mundial), ambos norte-americanos; os nadadores Andriy Govorov (recordista mundial dos 50 metros borboleta), James Magnussen, Cody Miller e Kristian Gkolomeev, ou o levantador de peso Hafthor Björnsson, atual recordista mundial em levantamento terra e conhecido, sobretudo, por seu papel como “O Montanha” na série Game of Thrones.

O perfil é semelhante: a maioria tem entre 30 e 35 anos e já passou do pico de seu rendimento (muitos, de fato, estão aposentados das competições profissionais). Quanto ao país de origem, além dos Estados Unidos, um bom número vem do Leste Europeu, da América Latina e da região do Caribe. Para cada mulher há, aproximadamente, dois homens.

Para vários dos participantes, os Enhanced Games proporcionaram a oportunidade que a competição “oficial” lhes negou. Se para chegar à elite do atletismo geralmente já é necessário gastar muito dinheiro, para se manter nela é preciso, além disso, ter sorte. Uma lesão em um momento inoportuno pode significar a perda do patrocinador ou da bolsa que sustentava a carreira. Sem eles, tudo desmorona. Se, somado a essa frustração, pensa-se – como manifestaram alguns dos atletas do evento – que nas competições supostamente limpas muitos se dopam da mesma forma, por que não aceitar o desafio dos Enhanced Games com seus suculentos prêmios?

Dois bilionários como rostos visíveis

A empresa que organiza o evento (Enhanced Inc.) estreou na bolsa de valores norte-americana há apenas duas semanas. Desde então, o valor de suas ações subiu mais de 20%, e atualmente ela está avaliada em 1,2 bilhão de dólares.

O fundador é um advogado de origem australiana chamado Aaron D’Souza, e o atual CEO é Maximilian Martin, norte-americano. No entanto, o rosto mais reconhecível, e o que atraiu um enorme volume de investimentos em poucos dias, é Christian Angermayer, um empresário alemão de 48 anos que já era bilionário aos 25, após fundar e depois vender uma empresa bioquímica (campo no qual realizou seus estudos) focada em terapia gênica. A partir de então, começou uma carreira como empreendedor e investidor por meio de seu próprio fundo, Apeiron Investment Group. Alguns dos setores onde ele mais investiu dinheiro são a medicina antienvelhecimento, a tecnologia financeira e as criptomoedas. No entanto, Angermayer é conhecido sobretudo por sua atividade empresarial (e de lobby) a favor do uso de alucinógenos na psiquiatria. Além de ter fundado uma empresa que elabora produtos desse tipo, a Atai Life Sciences, ele colabora com outros projetos semelhantes.

Uma parte importante do capital da Atai Life Sciences pertence a um amigo de Angermayer e o outro grande financiador e impulsionador dos Enhanced Games: Peter Thiel. Também nascido na Alemanha, Thiel é cofundador do PayPal junto com Elon Musk e um dos primeiros investidores do Facebook. Atualmente, está entre as 100 maiores fortunas do mundo.

Além de Angermayer e Thiel, outros empreendedores e investidores do setor de criptomoedas, apostas esportivas e biomedicina aportaram dinheiro nos Enhanced Games.

A mensagem: tecno-otimismo, transparência e igualdade de condições


A maioria dos financiadores ou promotores dos Enhanced Games compartilha algumas características, além de ter muito dinheiro: são jovens e próximos ao movimento MAGA (Thiel é conhecido por seu apoio a Trump, e outra das empresas que mais colocou dinheiro no evento, o fundo de capital de risco 1789, tem como sócio um filho do mandatário norte-americano). Sua forma de pensar se encaixa no que se convencionou chamar de “tecno-otimismo”: a ideia de que, graças à tecnologia, a humanidade pode dar um salto qualitativo na qualidade de vida e no bem-estar, mudando radicalmente seu modo de viver em pouco tempo. Mas, para isso, é necessário permitir e até mesmo incentivar o desenvolvimento dessas tecnologias, que necessariamente será disruptivo. Por isso, defendem um libertarianismo econômico.

Os tecno-otimistas (além de Thiel e Angermayer, Elon Musk é o mais reconhecível) estão convencidos de que seus projetos não são ficção científica: reverter o envelhecimento até se aproximar da imortalidade, multiplicar a capacidade do cérebro por meio de implantes neuronais, estabelecer plantas produtivas na lua ou até mesmo colonizar outros planetas. Junto ao libertarianismo econômico, em geral eles também são partidários de um libertarianismo social, o que se vê claramente em sua defesa da desregulamentação do consumo de drogas.


Basta acessar o site dos Enhanced Games e ler as mensagens com as quais se promovem para perceber o “aroma” retórico do transumanismo: “transformar o potencial humano em uma superhumanidade”, “um movimento global para unir a humanidade e inspirar a inovação científica”.

A palavra “transparência” também aparece repetidamente nas mensagens promocionais. Isso porque, junto à retórica grandiloquente sobre o progresso da raça humana, uma das ideias mais repetidas pelos promotores dos Enhanced Games é que, embora possa soar paradoxal, a competição esportiva de Las Vegas é menos trapaceira e mais equitativa que os Jogos Olímpicos. Como comentava D’Souza quando apresentou o evento, nos Enhanced Games o doping é supervisionado, o que minimiza os riscos, e todos os atletas têm à disposição os mesmos produtos. Por outro lado, nas Olimpíadas muitos atletas também se dopam, mas com muito menos segurança, e além disso, algumas federações esportivas, como a chinesa ou – por muito tempo – a russa, desfrutaram de uma espécie de imunidade extraoficial, o que permitia que seus esportistas largassem com vantagem.

"Business is business"

Angermayer também rebateu outra crítica: a de que os Enhanced Games, no fundo, são uma mera vitrine para vender todo tipo de fármacos de melhoria de desempenho (PEDs, na sigla em inglês); fármacos estes que, além disso, são considerados ilegais pelo Comitê Olímpico Internacional e cuja grande maioria só pode ser prescrita para determinadas condições médicas – afinal, no site do evento não estão sendo vendidos peptídeos, o intensificador da moda entre os fisiculturistas, cujo uso não foi aprovado para humanos e por cuja legalização Angermayer e outros estão fazendo lobby perante a FDA, a agência norte-americana de medicamentos. O bilionário alemão explicava em uma entrevista que utilizar o esporte para vender outros produtos é um modelo cada vez mais comum no setor. Especificamente, ele apontava para a Red Bull, que organiza eventos de esportes radicais para fazer publicidade de suas bebidas energéticas.

Por outro lado, para se defender da crítica de que nos Enhanced Games o talento humano já não conta, Angermayer utilizou a Fórmula 1 como comparação: precisamente porque a tecnologia é o diferencial no resultado das corridas, os fabricantes precisam pesquisar, e essa pesquisa se traduz em inovações que depois beneficiam a indústria automobilística em geral e, portanto, todos os motoristas. Da mesma forma, os Enhanced Games servirão como incentivo para melhorar a medicina. O bilionário explicou que a humanidade não deveria se conformar com uma medicina que cura, que repara danos, mas sim caminhar em direção ao melhoramento da condição humana. Se isso pode ser feito, existe a obrigação moral de fazê-lo.

Tecno-otimistas como ele pensam que a FDA obstaculiza o progresso ao manter essas substâncias na lista de proibições, pois sem experimentação não se pode comprovar as vantagens e desvantagens. Nesse sentido, os Enhanced Games são vendidos como uma cruzada pelo bem da ciência.
Obviamente, nem todos veem as coisas assim. O Comitê Olímpico Internacional (COI) e a Agência Mundial Antidoping (WADA, na sigla em inglês) criticaram duramente os organizadores dos Enhanced Games, por considerarem que a evidência científica existente até o momento aponta riscos importantes em alguns dos produtos que estão sendo vendidos no site do evento.

O auge do "gym-bro"

Outro dos argumentos desses órgãos para se oporem aos Enhanced Games é que eles legitimam e fomentam a “cultura do doping” que se popularizou entre muitos usuários de academias, particularmente os jovens.

Trata-se, realmente, de uma tendência preocupante. O consumo desse tipo de produto está crescendo em diferentes países. De acordo com uma pesquisa recente realizada para a agência britânica antidoping, um em cada três jovens ingleses entre 16 e 25 anos – 39% dos rapazes e 29% das moças – admitia ter comprado Moduladores Seletivos de Receptores de Andrógeno (SARMs, na sigla em inglês): compostos químicos “em fase de experimentação” (por isso sua venda é proibida) que provocam efeitos semelhantes aos de injeções de testosterona ou esteroides anabolizantes.
Dos entrevistados, mais de 40% disseram ter encontrado anúncios desses produtos em seu feed pelo menos uma vez durante a última semana, e 20%, quase todos os dias. Isso ocorre porque sobram influencers que os promovem, o que tem levado diferentes organizações médicas e farmacêuticas a acenderem o sinal de alerta.

Angermayer e Thiel tentaram acalmar a inquietação. O Ozempic e as apostas esportivas, comentam eles, também eram vistos até há pouco tempo como perigosos e, no entanto, nós nos acostumamos a eles.

A menção às apostas não é por acaso. O chefe de comunicação dos Enhanced Games, Christopher Jones, foi anteriormente vice-presidente da FanDuel, uma das principais empresas do setor nos Estados Unidos. Os organizadores do evento já sinalizaram que, nas próximas edições, as apostas serão muito promovidas.

O fato é que, embora alguns tenham classificado os Enhanced Games como um “show de bizarrices” quando foram anunciados, a aliança entre transumanismo, libertarianismo e testosterona parece, infelizmente, uma aposta vencedora, mesmo que, no aspecto esportivo, por enquanto, tenha havido muito mais barulho do que resultados concretos.

©2026 Aceprensa. Publicado com permissão. Original em espanholLos “juegos dopados”, un espectáculo transhumanista.

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