Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
  • Ícone FelizÍcone InspiradoÍcone SurpresoÍcone IndiferenteÍcone TristeÍcone Indignado
Janina e o filho, Jorge: sobreviventes de um campo de concentração nazista
Janina e o filho, Jorge: sobreviventes de um campo de concentração nazista| Foto: Arquivo pessoal

Jorge Kiwel nasceu em Waltorp, Alemanha, em março de 1944. Mas, ao invés de um hospital, veio ao mundo no local mais inóspito possível a um ser humano: num campo de concentração nazista. Nasceu na hora e lugar errados, em meio à Segunda Guerra Mundial. A mãe, Janina, e o pai Alfanasi, eram prisioneiros poloneses. Ela foi capturada quando ainda estava grávida. Mas acabou por ter a criança encarcerada. E, em meio às barbáries presenciadas, fez tudo o que uma mãe poderia ter feito: salvou o filho. Jorge, hoje, mora em Campo Mourão, cidade de quase 100 mil habitantes no interior do Paraná. No alto de seus 78 anos, foi poupado das lembranças inquietantes que os pais tiveram em vida.

Entre 1933 e 1945 a Alemanha nazista construiu 20 mil campos de concentração para aprisionar milhões de vítimas. Os campos eram utilizados para várias finalidades: campos de trabalho forçado, campos de transição, e como campos de extermínio construídos principalmente, ou exclusivamente, para assassinatos em massa. Desde sua ascensão ao poder, em 1933, o regime nazista construiu uma série de centros de detenção destinados ao encarceramento e à eliminação dos chamados inimigos do estado.

Mesmo criados na Polônia em tempos de conflitos, Alfanasi e Janina Kiwel não tinham como prever que acabariam nesses campos. Nasceram ainda na década de 20, e, feitos um para o outro, conseguiram se casar perto dos 20 anos de idade. Mas, três dias depois do matrimônio, ainda em 1942, se transformaram em prisioneiros de guerra. Levados a trabalhar forçadamente na zona rural da Alemanha, presenciaram cenas de terror jamais esquecidas.

As lembranças da família remetem a um passado de pesadelos, torturas, fome e angústias. Cicatrizes ainda abertas diante da dor. Revelam a resistência humana diante das atrocidades. Identificam as barbáries de uma raça que se auto mutila. Que, definitivamente, não se respeita.

O destino do casal começou a ser traçado no início na década de 40. Depois de se casarem, foram separados e obrigados a trabalhar como escravos em campos de concentração nazistas. Próximo a Berlim, o casal ficou na zona rural. Trabalhavam dia e noite, numa jornada desumana.

Cavando a própria cova

Janina já estava grávida e, depois de cinco meses, foi transferida a um hospital-prisão. Principalmente, em função da rejeição militar, por filhos estrangeiros. Em março de 1944, depois do nascimento do primeiro filho, Jorge, Janina evitou que a criança fosse morta por envenenamento de mamadeira. Tratava-se de uma prática comum naquela época: nazistas executando recém nascidos.

No campo de concentração, Janina fez malabarismos para esconder o filho. Muitas vezes o escondia debaixo do próprio colchão. Meses depois, o hospital-prisão em que estava foi bombardeado e acabou desmoronando. Centenas de pessoas morreram. Ela e o filho foram soterrados. Jorge estava em seus braços no momento. Apesar de feridos, acabaram vivos. Depois de alguns dias, ela foi removida a outra prisão. Mas conseguiu fugir, levando o filho.

Acompanhada de outra mulher — não se tem informações sobre ela —, e com a ajuda de anônimos, viajou parte do percurso de trem. Outros 26 quilômetros fez a pé, sem se alimentar, até chegar ao local onde o companheiro estava preso. No caminho, teve que se esconder diversas vezes de tropas alemãs. Também presenciou bombas caírem ao seu redor. “Ela contava que passou sobre dezenas de corpos de soldados mutilados pelo trajeto”, contou Jorge.

Janina enfrentou muitos obstáculos até chegar ao encontro do marido. Além do medo, a fome foi bastante cruel. No percurso, não havia a quem pedir ajuda. Eram todos inimigos. Não havia água, muito menos, comida. E, a sua preocupação naquele momento, não era mais com ela. Mas sim, com o próprio filho. Janina fez o impossível para que os dois sobrevivessem. Foi destemida, como uma leoa em defesa da cria.

Antes de morrer, Alfanasi narrou toda a sua trajetória ao filho. “Ele sofreu muito com a alimentação quando ainda era prisioneiro. A condição se resumia a comida ruim, de péssima qualidade. Por este motivo passou muita fome. Perdeu peso. Ficou no osso”, disse Jorge. Ao mesmo tempo, testemunhou milhares de pessoas morrerem por inanição. Eram 100 gramas de pão pela manhã. Beterraba com casca de batatinha com terra e tudo. E sopa no almoço e janta, recordou.

A parca refeição era servida num campo de concentração, onde mais de cinco mil pessoas se amontoavam. Muitos debilitados e, aos poucos, morrendo por falta de comida. Aqueles que ainda tinham condições de andar, eram obrigados a cavar as próprias covas. E, em frente aos buracos, eram metralhados. "Ele viu muito sangue correr naquela colônia”, revelou Kiwel.

Rumo ao Brasil

Após o fim da Guerra, parte dos prisioneiros abrigados nos campos de concentração nazistas conseguiu sobreviver. Os Kiwel estão neste rol. Depois de se reencontrarem, no pós guerra, vieram ao Brasil, mais precisamente a Campo Mourão. Deixaram as terras com sangue para agora, viverem em terras vermelhas.

Alfanasi era um sobrevivente da guerra e do tempo. Segundo relatos, toda a sua família polonesa foi morta na Guerra. O casal veio ao Brasil em 49, junto com outros dois mil foragidos enviados pela Cruz Vermelha. Polonês, ele chegou a Campo Mourão nos primeiros dias de 1950, ao lado do filho, Jorge, e de Janina.

Nas terras vermelhas, o casal trabalhou como colono, garantindo os primeiros empregos em fazendas de café e algodão. Alfanasi dizia se tratar de um país estranho, com costumes diferentes e uma língua esquisita. Foi um recomeçar tão difícil quanto o medo de uma nova guerra.

Jorge tinha cinco anos. Nada se recorda daquele tempo de guerra. Mas sabe que nasceu duas vezes: durante e após Hitler cair. Em Campo Mourão, criou sua família e tornou-se agricultor. É um sujeito boa gente, de bem com a vida. Na verdade, um sarrista. Mas, por trás do homem tranquilo, existe uma história de bastante sofrimento. Ele sabe que deve tudo à mãe. Ainda viva, Janina contava que o escondia para que soldados alemães não o vissem. Como um boneco, Jorge era embrulhado com lençóis e fronhas e, depois, escondido sob o colchão. A criança parecia entender. Permanecia em silêncio. Janina morreu em 2005, vítima de um câncer.

Em Campo Mourão, Jorge também trabalhou como operário em grandes construções, como na Usina Mourão e no Hotel Santa Maria. Já habituados com a poeira vermelha da região, os Kiwel tiveram o segundo filho, Antônio. Com ele, cinco netos, além de outros seis bisnetos.

Alfanasi morreu do coração, em outubro de 2016, aos 93 anos. Criou seus dois filhos e dizia ter se tornado um dos maiores adoradores desta terra. Sempre trabalhou como operário da construção, mais especificamente, como carpinteiro. Antônio, o filho mais novo, aposentou-se no ramo da telefonia. Hoje também possui uma pequena propriedade rural. Trata-se de um gentleman. Sempre foi zeloso com o velho pai. Agora, sem os genitores, Jorge e Antônio continuam a saga dos Kiwel. A família sobreviveu à guerra e escolheu Campo Mourão para encontrar sua liberdade. E, quem sabe, alívio para a alma.

Nota do autor: Esta reportagem é uma homenagem a Janina (12/09/1924 – 23/02/2005) e Alfanasi Kiwel (15/01/1923 – 30/10/2016), assim como a todos os seus descendentes. Além deles, a todas as demais pessoas que passaram e passam pelos horrores de guerras e conflitos. Que a História nos ensine a fazer história.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]