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Entrevista Exclusiva

Luciana Genro: “A Lava Jato está sendo importante para desnudar a corrupção”

Apesar de tecer críticas em relação a conduções da operação Lava Jato, a dirigente nacional do PSOL, a ex-deputada federal Luciana Genro (RS), defende a sua continuidade

  • São Paulo
  • Clayton Freitas especial para a Gazeta do Povo
Luciana Genro: ““As pessoas estão desiludidas com a política” | Aniele Nascimento/(Imagem de arquivo)/Gazeta do Povo
Luciana Genro: ““As pessoas estão desiludidas com a política” Aniele Nascimento/(Imagem de arquivo)/Gazeta do Povo
 
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Luciana participou neste domingo (28) à tarde no Teatro Oficina, na capital paulista, de um debate promovido pela vereadora paulistana Sâmia Bonfim (PSOL). Além dos filiados, o evento denominado “Para Onde Vai o Brasil” reuniu nomes como o do filósofo Vladimir Safatle, professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP. “A nossa melhor arma são as nossas ideias”, afirmou o filósofo. Compareceram também simpatizantes não filiados à sigla, como o ex-VJ da MTV Luiz Thunderbird. “Eu vivi a ditadura militar, os anos de chumbo e a redemocratização. [Eleições] Indiretas não dá. Mas Diretas com Aécio [senador afastado do PSDB, Aécio Neves] e Dilma [Roussef, ex-presidente] também não dá”, afirmou. 

Uma das propostas defendidas no evento foi a de criação de uma nova greve geral, mais abrangente do que a 28 de abril deste ano. 

Em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, Luciana fez duros ataques às reformas promovidas pelo governo do presidente Michel Temer (PMDB), reafirmou a necessidade de continuidade das investigações contra a corrupção e também questionou a forma como o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), está lidando com a cracolândia, com uso, entre outros meios, de força policial, demolição de imóveis e tentativa de internação à força de dependentes químicos. 

Como a senhora analisa o atual cenário político tendo em vista a permanência do presidente Michel Temer no poder após tantas denúncias? 

Luciana Genro – O cenário político é temerário, fazendo um trocadilho. Foi um presidente que assumiu após um impeachment ilegítimo, que não teve respaldo popular para assumir a Presidência da República e para fazer reformas que são, na verdade, gigantescos ataques contra a classe trabalhadora. Reforma da Previdência e reforma trabalhista são ataques brutais contra o povo, que nunca foram discutidos em nenhum programa que tenha se apresentado nas eleições, nem ele como vice da Dilma [ex-presidente Dilma Rousseff, do PT] que defendeu essas ideias. Portanto nós precisamos construir uma alternativa para o Brasil. 

Em caso de Diretas, não existe o risco dos mesmos nomes que dominaram o país até então voltarem ao poder? 

Sim. Mas primeiro é preciso uma constatação objetiva de que o Temer não pode continuar, ele não tem legitimidade para isso. Esse Congresso não tem legitimidade para fazer essas reformas e eleições indiretas seria absolutamente ilegítimo também porque não é possível que um Congresso já contaminado pela corrupção, onde a maioria dos deputados se vendeu para bancos, empreiteiras ou empresas como a JBS escolha quem será o próximo presidente do Brasil. Provavelmente seria alguém para levar adiante essas propostas contra o povo. E não podemos aceitar uma eleição indireta. Portanto nós temos a necessidade de que o povo tenha a soberania dessa decisão. É preciso que os candidatos se apresentem no processo eleitoral e digam que querem fazer a reforma da Previdência, querem aumentar a idade para se aposentar, querem fazer reforma trabalhista, querem desmontar a CLT, vão ter de dizer no processo eleitoral. Nós do PSOL apresentaremos a nossa alternativa. Evidentemente que nós sabemos os nossos limites, mas não vamos nos furtar de fazer esse debate pragmático de qual é a saída para o Brasil. 

Os atuais atos não estão ressoando tal quais os de 2013. Há uma passividade da população ante ao que está ocorrendo? 

As pessoas não estão enxergando uma alternativa nova. Ao pensar numa luta por Diretas, elas pensam exatamente que vão ser os mesmos. O Lula, o Doria [o tucano João Doria, prefeito da capital paulista], o PSDB, o PMDB, são os mesmos candidatos que a gente já conhece dos mesmos partidos que já estão marcados pela corrupção. O PSOL ainda é um partido que não tem a força necessária para se colocar como alternativa perante as grandes massas populares. Então as pessoas estão desiludidas com a política. Isso faz com que elas se mexam menos em favor de um processo eleitoral. Mas é o necessário. Precisamos fazer com que as pessoas se mexam pra defender uma alternativa mais democrática do que seria uma eleição indireta. 

A senhora se apresenta para um eventual Diretas? 

Estou à disposição do PSOL para o que o partido me desejar oferecer como tarefa. Eu já havia dito anteriormente que, para mim, o melhor candidato seria o Marcelo Freixo [deputado estadual do Rio de Janeiro], seja agora ou seja em 2018, mas ele não quer ser esse candidato. O Chico Alencar [deputado federal do Rio de Janeiro] também é um nome que vem sendo ventilado e eu não vou fazer disputa política interna do partido para que eu seja candidata. Apoiarei o Chico Alencar internamente se ele decidir aceitar esse desafio. Mas o importante é que o PSOL tenha uma candidatura e tenha um perfil claro para disputar com o PT e com a direita. 

O que a senhora avalia sobre algumas polêmicas envolvendo a própria Operação Lava Jato? 

Acho que a Lava Jato foi e está sendo uma operação muito importante para desnudar a corrupção. Eu sou uma apoiadora da ideia de que nós precisamos ter uma fiscalização eficiente do Ministério Público e um julgamento justo para que possamos tirar de circulação políticos que estejam corrompidos. Assim como também grandes empresários que estejam corrompendo. Isso não faz com que a Lava Jato esteja imune a críticas. Ao contrário. Eu já critiquei, tanto a condução coercitiva do Lula [feita em 4 de março de 2016, quando o ex-presidente foi levado para o aeroporto de Congonhas, na zona sul da capital paulista, para depor em inquérito da operação], quando a soltura da Cláudia Cruz [mulher do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do PMDB, também investigada] como também o fato da JBS poder continuar operando inclusive com seus donos livres, leves e soltos nos EUA depois de terem participado de um dos maiores esquemas de corrupção do planeta. Então, evidentemente que há coisas a serem criticadas. Mas antes de tudo é necessário apoiar a continuidade do combate à corrupção. 

A senhora vem acompanhando o que está ocorrendo na cracolândia? Qual sua análise a respeito? 

A pior opção é a escolhida pelo prefeito Doria. Não há como acabar com a cracolândia se não for dando a essas pessoas a oportunidade de tratarem a sua doença. Isso quando ela [a doença] se manifesta –no caso do vício do crack– e oferecendo a elas assistência social e possibilidades de recomeço da sua vida.

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