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Apego ao poder

Lula pode ser o presidente mais velho da história das democracias?

Lula pode ser o presidente eleito mais velho no mundo.
Lula terá 81 anos completos no dia 1º de janeiro de 2027. (Foto: André Borges / EFE)

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Lula parece realmente disposto a transformar a presidência da República em um projeto sem prazo de validade. Aos 81 anos que terá após as eleições de 2026, poderá estabelecer um recorde mundial de longevidade entre presidentes escolhidos pelo voto em democracias presidencialistas, caso seja eleito. Depois de mais de duas décadas desde sua primeira vitória eleitoral, o petista parece não considerar a possibilidade de que o poder também exige saber a hora de deixá-lo. 

A situação não encontra paralelo em nenhum outro país com regime presidencialista democrático consolidado, e irá marcar o início do fim da carreira política do petista – que poderá ser antecipado se ele perder para Flávio Bolsonaro. 

Há algo de sintomático nessa insistência. Em vez de preparar a renovação de seu campo político, Lula aposta mais uma vez na própria figura, como se não houvesse sucessor à altura ou como se o país ainda dependesse de sua presença para seguir em frente. A ambição de continuar no cargo, porém, não suspende o relógio biológico — nem deveria se sobrepor à necessidade de renovação política. 

Quando foi eleito em 2022, Lula já garantiu o título de presidente mais velho do Brasil no poder, aos 77 anos e 2 meses. Ele superou Michel Temer, que tinha 75 anos e 11 meses quando assumiu o cargo após o impeachment de Dilma Rousseff. Até então era ele o recordista de idade no Planalto. 

Tancredo Neves tinha 74 anos e 10 meses quando foi eleito de forma indireta pelo Colégio Eleitoral em janeiro de 1985, mas morreu antes de assumir o cargo. Completam a lista dos cinco presidentes mais velhos já eleitos no país Getúlio Vargas, com 68 anos e 9 meses, e Fernando Henrique Cardoso, com 67 anos e 6 meses, ambos eleitos para um segundo mandato. 

Trump e Biden lideram a lista dos presidentes mais velhos eleitos nos EUA 

Nos Estados Unidos, o democrata Joe Biden tinha 78 anos e 2 meses completos quando assumiu o cargo após ser eleito presidente da república. À época, ele foi o mandatário mais velho a comandar o país. A idade avançada, porém, foi um fator decisivo para que ele desistisse de concorrer à reeleição em 2024. 

No papel, o mandato foi levado até o fim. Mas ao passar o bastão para que Kamala Harris fosse o nome democrata nas urnas, Biden acabou se tornando um “pato manco”. Com baixa influência política, ele terminou seus mais de 50 anos de vida pública com uma aprovação na casa dos 39% entre os eleitores dos EUA. 

A eleição de 2024 foi vencida nas urnas e no Colégio Eleitoral pelo republicano Donald Trump, que voltou à Casa Branca aos 78 anos e 7 meses – tornando-se assim o presidente mais velho já eleito nos Estados Unidos. No próximo mês de novembro ele vai enfrentar as eleições de meio de mandato, e não mostra sinais claros de que a idade avançada esteja sendo um fardo como foi para seu antecessor. 

O recorde de presidente mais velho eleito nos EUA mudou de mãos em duas eleições seguidas, mas até então vinha sendo mantido por outro republicano, Ronald Reagan. O ex-ator de filmes de faroeste tomou posse em 1981 aos 69 anos e 11 meses. Antes dele, o registro de presidente mais velho era do século XIX: William Henry Harrison tinha 68 anos e 1 mês de idade ao ser empossado em 1841. 

Presidente da Irlanda foi eleito aos 83 anos em um regime parlamentarista 

Registros históricos dão conta da eleição de Éamon de Valera para o cargo de presidente da Irlanda aos 83 anos em 1966. Ele não foi considerado na comparação com Lula como o presidente mais velho já eleito porque a Irlanda é um país com o regime de governo parlamentarista, no qual o cargo do presidente é sobretudo simbólico; quem administra o dia a dia do governo é o primeiro-ministro. Ainda assim, de Valera precisa ser reconhecido como um dos líderes da transição iniciada na década de 1930 para a saída do país do Império Britânico. 

No centro dessa transformação esteve a promulgação da Constituição de 1937, idealizada por de Valera e aprovada via plebiscito popular. O texto substituiu a estrutura do Estado Livre Irlandês — nascido sob a sombra do polêmico Tratado Anglo-Irlandês — por uma república de fato, que renomeou o país para Éire (nome oficial da Irlanda no idioma gaélico) e instituiu as bases institucionais de uma democracia soberana, com jurisdição própria e independente das diretrizes vindas de Londres. 

A grande inovação do presidente de Valera foi redesenhar a arquitetura do Estado sem romper com a ordem democrática. Ao abolir o cargo de Governador-Geral, que representava a Coroa Britânica em solo irlandês, a Carta Magna criou a figura do Presidente da República, um chefe de Estado eleito diretamente pelo voto popular para atuar como árbitro suprapartidário e guardião da Constituição. 

A engenharia política idealizada por de Valera não apenas consagrou o parlamentarismo com a divisão clara entre a chefia de Estado e a chefia de governo, mas também forneceu a estabilidade necessária para que ele próprio, décadas mais tarde, transicionasse do comando do Executivo para o cargo presidencial, coroando a consolidação do modelo democrático irlandês. 

Itália e Israel têm presidentes mais velhos, mas também são parlamentaristas 

Assim como a Irlanda, a Itália também conta com um presidente da República. Mas essa figura representa o chefe de Estado, e não o chefe de governo, cargo exercido pelo Primeiro-Ministro. Enquanto o Primeiro-Ministro conduz a política do dia a dia e governa o país, o Presidente da Itália atua como um árbitro suprapartidário e um guardião da Constituição Italiana. 

É sob essas regras que Sérgio Matarella foi reeleito presidente aos 80 anos em 2022; Sandro Pertini foi eleito aos 81 anos em 1978; e Giorgio Napolitano foi reeleito aos 87 anos em 2013. Eles são os três presidentes mais velhos que a Itália já teve. 

Outro presidente em regime parlamentarista – que também é eleito de forma indireta – entre os mais velhos do mundo está o israelense Shimon Peres. Apesar de ter sido eleito aos 83 anos em 2007, ele também não entra em direta comparação com Lula por chegar ao poder por meio de uma eleição indireta. Em Israel, o presidente é eleito pelo Knesset, o Parlamento israelense em Jerusalém, composto por 120 deputados. 

Assim como em outros regimes parlamentaristas, o presidente é mais uma figura representativa do país no exterior e atua como um elo diplomático e de neutralidade interna em momentos de divisão política na sociedade. 

Presidente mais velho da Tunísia morreu enquanto ainda estava no cargo 

Há outros casos de presidentes reeleitos em idade avançada, mas em contextos pouco comparáveis. Joaquín Balaguer venceu na República Dominicana aos 83 anos, em 1990, e aos 87, em 1994, em eleições cuja lisura foi duramente contestada. Já o marfinense Alassane Ouattara foi reeleito em 2025, aos 83 anos, para um quarto mandato, em uma votação da qual os principais opositores foram barrados. Em nenhum dos dois países havia uma democracia minimamente sólida, o que os afasta da comparação com o Brasil.

Ao assumir o cargo em idade tão avançada, os presidentes mais velhos correm um sério risco de não terminarem o mandato. Foi assim com Béji Caïd Essebsi, eleito presidente da Tunísia aos 88 anos, em 2014, que morreu no cargo. Ele também não entrou na comparação com o petista por ter sido eleito após a Primavera Árabe e liderado o país em uma mudança de regime.

Vencedor das primeiras eleições democráticas livres do país, Essebi era um dos nomes fortes na política do país desde a independência, em 1950. Ele atuou como Primeiro-Ministro interino em um momento de grave instabilidade institucional para acalmar as tensões entre grupos laicos e islâmicos. Sua forte atuação ao tentar consolidar uma democracia ainda frágil o fez ser o escolhido pelo voto popular dos tunisianos. 

Mas o peso da idade e o desgaste das crises governamentais cobraram seu preço nos últimos anos de seu mandato de cinco anos. Em meados de junho de 2019, já aos 92 anos, Essebsi foi internado em estado grave em um hospital militar na capital Túnis devido a uma “crise de saúde severa”, recebendo alta poucos dias depois para se recuperar. 

Porém, em 24 de julho de 2019, seu estado piorou drasticamente. No dia seguinte, quando o país comemorava o Dia da República, Essebsi faleceu no hospital militar faltando apenas cinco meses para o término do seu mandato. 

Se Lula conquistar um novo mandato, poderá superar o recorde de idade na eleição em um regime presidencialista democrático. Resta saber se ele pretende entrar para a história pela longevidade política ou se acabará lembrado apenas pelo apego ao poder, em uma tentativa ineficaz de exceder até o limite do próprio tempo. 

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