Detalhe da capa do livro "Pequeno Manual Antirracista", da ativista Djamila Ribeiro
Detalhe da capa do livro “Pequeno Manual Antirracista”, da ativista Djamila Ribeiro| Foto: Divulgação

Eu ia resenhar agora o "Pequeno Manual Antirracista" de Djamila Ribeiro, mas é muito difícil. Primeiro, porque há erros demais e incoerências demais. Se Stanislaw Ponte Preta ainda vivesse, poderia dedicar um volume inteirinho de sua obra ao comentário da luminar Djamila Ribeiro. Outro motivo é o fato de militantes identitários viverem numa realidade alternativa. Ao ler forasteiros que tratam do seu mundo, é preciso tomar pé, conhecer a história e demografia do lugar.

Assim, antes de resenhar o Manual de Djamila Ribeiro, vou deixar aqui o beabá da história e demografia da qual partem os militantes identitários -- esses que só querem saber de enquadrar as pessoas pela raça, sexo e orientação sexual. Na minha resenha, os leitores verão que não estou exagerando.

A história do Brasil tem uns 250 anos

O Brasil é descoberto em 1500, os negros vivem em ambiente rural ali pelo XVII, e corta para a ditadura militar. Os séculos XVIII e XIX praticamente não existem, e o XX começa em 1964. Um belo dia, lá por 1500, os brancos saíram da Europa de navio e chegaram até aqui. Por quê? Por pura maldade. Isto aqui era uma espécie de gulag tropical aonde os brancos transportavam os negros que eles sequestravam na África. Desde então, os brancos têm feito complôs para manterem os negros submissos e exercer o seu sadismo. Não há índios nessa história. Se tinha algum, os brancos mataram, e dos tupis não ficou nenhum legado.

Os portugueses são referidos como “os brancos”. Não vem ao caso que os colonizadores tenham sido portugueses, e não espanhóis ou ingleses. As pessoas são categorizadas conforme raça, sexo e orientação sexual. Não há nenhuma diferença entre um senhor de engenho e um degredado, entre uma baronesa e uma quituteira. Se é que existiam degredados e quituteiras… Na verdade, todo branco vivia na Casa Grande.

O Brasil colônia se resumia à região da Zona da Mata do Nordeste durante o ápice da cana-de-açúcar. São Paulo, com seus bravos mamelucos insubmissos à Coroa, não existe. (Os bandeirantes só são lembrados ocasionalmente, quando militantes paulistas querem brigar com o monumento às Bandeiras. Aí dizem que os bandeirantes eram brancos, talvez até da KKK.)

O semiárido, com seus vaqueiros, tampouco existe. O  Brasil colônia é um lugar onde existem negros na senzala e brancos na casa grande. Os negros que não estão na senzala são os que se revoltaram e fundaram quilombos. Cidades não existem, só há um gulag.

Em nenhum momento somos informados do que os negros estavam fazendo no Brasil, nem há uma palavra sobre o ciclo da cana-de-açúcar. Os brancos se deram ao trabalho de vir à América com um monte de negros apenas para ficar fazendo complôs racistas. A escravidão, diga-se de passagem, era uma invenção maquiavélica dos brancos para oprimir os negros: não um fato recorrente na história da humanidade, que afligiu e aflige gente de toda cor.

Os índios são uma meia dúzia que mora lá longe, na Amazônia, e não têm nada a ver com a história. Afinal, não estão na casa grande, nem na senzala, nem no quilombo, e não são pretos nem brancos. No máximo, menciona-se que foram mortos por brancos malvados. Nem uma palavra sobre Arariboia ou Catarina Paraguaçu (que aliás foi interpretada por Camila Pitanga no cinema, que hoje se declara negra e os tribunais raciais da militância aceitam).

O século XVIII só é lembrado por causa do Levante dos Malês, movimento de hauçás que queria transformar a Bahia num Califado. A Inconfidência Mineira e a Confederação do Equador não existiram. A Revolta dos Alfaiates, movimento por uma independência temporária da Bahia que incluía militares mulatos e o intelectual Cipriano Barata, foi transformada numa luta racial e rebatizada com o nome de Revolta dos Búzios.

O século XIX só é lembrado para falar mal da Abolição e da Família Real. Toda a produção cultural do Império, na qual se destacaram muitos mulatos, e até um negro retinto, não existe. Machado de Assis e Lima Barreto não existem. Cruz e Souza não existe. José do Patrocínio não existe. Theodoro Sampaio não existe. Os irmãos Rebouças não existem. O pai deles, deputado no Império, não existe. O Visconde de Cayru não existe.

Ademais, mestiçagem é coisa feia, e fruto invariável de estupro. Os brasileiros hoje são mestiços (de branco e negra, frise-se) porque neste gulag canavieiro, séculos atrás, os brancos da Casa Grande defloraram as negras das senzalas. Como disse Antonio Risério, a história “se congela na cena traumática original da escrava preta violada pelo senhor branco. E, a partir daí, deixa também de existir. Tudo é violação” (Sobre o relativismo…, p. 63).

Na Amazônia e no Nordeste só tem negão

No início do governo Lula, por pressão de ideólogos que já atuavam sob FHC, o IBGE passou a considerar que o termo “negro” significa o somatório de “pretos” e “pardos”. O historiador José Murilo de Carvalho chegou a escrever, à época, um artigo intitulado “Genocídio racial estatístico”  para denunciar a exclusão dos índios da composição populacional brasileira.

“Pardo” é usado há muito para descrever descendentes de índios, miscigenados ou não. Em Manaus, um cristão dificilmente dirá que é índio, pois não vive em aldeia indígena e tem o português como língua materna. Nordeste adentro, fora da Zona da Mata, não houve grande presença negra; por isso, não é de admirar que muitos sertanejos, descendentes de índios, portugueses, holandeses e uns poucos negros, se declarem pardos, sem terem nenhum aspecto africano. (Tem até sertanejo branco, como Lula!) Resultado? Inflação de “negros” em estatísticas.

E que estatísticas! A Amazônia e o Semiárido não são regiões prósperas nem pacíficas. O Semiárido tem um longo histórico de inanição. O município de Altamira, no Pará, é o mais violento do país.

Para quem sabe História, não é de admirar que as regiões do país com grande presença africana sejam relativamente desenvolvidas; afinal, escravo importado custava caro. O escravo da terra, o índio, era muito mais barato. Por isso os negros vieram para as regiões mais capitalizadas do país; afinal, não ia haver no Semiárido muita gente com dinheiro para comprar escravo importado. Aquela frase clichê de militante, “A carne negra é a mais barata no mercado”, é falsa. Na nossa história, negro é caro e índio é barato.

Ao cabo, ficamos assim: militantes negros e mulatos das áreas urbanas e ricas do país, matriculados em programas de pós-graduação, se aproveitam da miséria de populações acabocladas dos rincões do Brasil para dizer que eles próprios são uns pobres coitados. Cada defunto do faroeste caboclo ao sul do Pará é capitalizado pela mana com livro de Angela Davis no sovaco e iPhone na mão. Cada nordestino miserável sem água na seca é usado como prova de que um uspiano concursado sofre muito, coitado, porque é negro.

A cultura surgiu há menos de 100 anos, com a televisão

Ao tratar de cultura – sempre para reclamar “representatividade” ou cotas, nunca para apreciações intelectuais ou estéticas –, os exemplos são sempre recentes. O Padre Quevedo, ao contrário de Machado de Assis, ecziste. As problematizações são sobre o clipe da diva pop, não sobre Hamlet. A produção artística brasileira consiste em… novelas.

E termino esta curtíssima explanação sobre cultura com um espóiler, uma citação da seção “Questione a cultura que você consome”, do "Pequeno Manual Antirracista" da luminar Djamila Ribeiro (Companhia das Letras, 2019): “Na novela A escrava Isaura, por exemplo, uma adaptação de Gilberto Braga do romance homônimo de Bernardo Guimarães (1875), apesar de no livro a personagem-título ser uma mulher negra, a atriz que a interpretou foi Lucélia Santos, uma mulher branca.”

Sim, é isso mesmo. Ela acha que Gilberto Braga inventou a Isaura branca.

Resumo do resumo

A história do Brasil pode ser dividida em fase 1 e fase 2. Na fase 1, o Brasil era um gulag canavieiro onde os brancos viviam na casa grande e estupravam as negras que viviam na senzala junto com os negros. Gilberto Freyre, o único estudioso de história do Brasil que há, é mau porque diz que isso tudo é muito bom e é democracia racial.

Na fase 2, houve um golpe militar muito malvado que os brancos daqui deram porque os brancos Estados Unidos mandaram. Foi a única ditadura da história do Brasil. Depois Lula, um nordestino de cor desconhecida, chegou ao poder representando a democracia e deu cotas raciais aos negros, o que faz dele um homem muito bom e democrático. Afinal, a história do Brasil nada mais é que a luta dos brancos, que estão todos na casa grande, contra os negros, que estão na senzala ou no quilombo.

Pronto, esta é a bagagem cultural necessária para entender os textos dos militantes identitários.

Conteúdo editado por:Jones Rossi
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