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Cardi B.: extravagância e 36 milhões de visualizações em apenas 24 horas.
Cardi B.: extravagância e 36 milhões de visualizações em apenas 24 horas.| Foto: Reprodução/ Twitter

Em um longínquo mês de março, quando o Brasil ainda não havia contabilizado os primeiros casos de morte por Covid-19 e a Organização Mundial da Saúde (OMS) estava prestes a decretar o estado de pandemia, uma postagem da rapper americana Cardi B. circulou exaustivamente nas redes sociais. “Eu não entendo como essa m* de Wuhan, China, de repente está fazendo uma turnê pelo mundo”, desabafou, com o visual e trejeitos extravagantes de sempre. “Coronavírus! Está m* é real!”.

Não foram necessárias 24 horas para que o vídeo, visto 36,1 milhões de vezes no Instagram da cantora, ganhasse versões em forró e brega-funk nas mãos dos brasileiros que, afinal, começavam a se dar conta da gravidade do problema. Nascia assim um dos primeiros – e mais icônicos – memes relacionados à Covid-19. A pandemia se tornou um manancial de piadas que há nove meses unifica páginas de humor dedicadas a estas montagens caseiras, divertidas e, segundo a própria ciência, tão “contagiosas” quanto o vírus.

“O que é interessante no mundo dos memes é que trata-se de um humor produzido pelas pessoas. Geralmente, consumimos humor produzido por profissionais que estão na mídia, nos jornais. Os memes são um espelho de como o público se sente e se comunica. Há 10 anos, as piadas internas que você fazia entre seus amigos não se espalhariam pelo mundo inteiro” diz o pesquisador Mark Boukes, da Universidade de Amsterdam, empenhado em coletar piadas sobre a crise pelo mundo. Ate agora, já foram recebidos mais de 14 mil memes.

Com base no que já foi coletado para a pesquisa, Boukes afirma que as piadas são criadas no mesmo ritmo frenético das notícias – um padrão que se repete nos mais de 25 países que já enviaram seus memes. “Quem produz memes está antenado ao noticiário. O que faz da crise um momento propício para estudá-los é o fato de que muitos países estão enfrentando uma mesma situação. Em geral, os assuntos de cada região são muito diferentes. Logo, poderemos fazer comparações claras”, afirma.

Leveza e nonsense

Sobre o teor das brincadeiras, o pesquisador comenta que são quase sempre leves. “A maioria beira o nonsense, mesmo quando trata de política. Os memes que fazem sucesso não se debruçam sobre a morte e, mesmo quando tratam do medo, o fazem de forma divertida. São o retrato das preocupações e anseios das pessoas, misturadas ao humor necessário para lidar com a situação”, diz Boukes.

Dono de uma das páginas mais populares do Instagram, a “Sou Eu Na Vida”, com 13,2 milhões de seguidores, o publicitário Fábio Santana, 23 anos, foi um dos influenciadores que remou conforme a maré da crise. “Não tínhamos nada na página sobre o assunto, e aí a Cardi B. puxou o bonde. Entramos no ‘mood’ desespero: os primeiros memes retratavam o medo e criticavam os que tentavam estocar comida”, conta o criador.

Com a chegada da quarentena, as piadas mudaram de tom: era a vez de satirizar o tédio do confinamento e os desafios de se trabalhar e estudar em casa até, finalmente, o “novo normal”. Donos de páginas populares contam à Gazeta do Povo que, no começo, brincavam com máscaras improvisadas e, com o tempo, mudaram o tom: o alvo das brincadeiras passou a ser quem desrespeita as medidas de distanciamento.

A política, é claro, também entrou na roda. Nas páginas do grupo South America Memes, que reúne mais de 4 milhões de seguidores no Instagram e é idolatrada, principalmente, pelos mais mais jovens, a Covid-19 apareceu pela primeira vez no final de fevereiro. Por trás da página, o estudante Gabriel Félix, 21 anos, que entrou para o “ramo” aos 16, explica que o universo dos memes passa por transformações. “Faz mais de um ano que nenhum post nosso é retirado do ar. Havia bastante sexualização, algumas discussões que feriam as diretrizes de conteúdo. Hoje, conseguimos conversar mais com o público e trabalhamos para conscientizar”, explica.

Informar ou desinformar

Tempos de crise, afinal, são terreno fértil para que piadas e notícias falsas se misturem em um balaio capaz de influenciar o curso dos fatos. Nos últimos meses, o Facebook e suas redes afiliadas têm concentrado esforços no combate às informações falsas a respeito da pandemia – piadas relacionadas ao coronavírus, por exemplo, não aparecem no topo dos mecanismos de busca, ou vêm acompanhadas de links para o portal oficial do Ministério da Saúde. A tendência, entretanto, é observada pelos próprios criadores de conteúdo, em sua maioria jovens. “As próprias páginas fazem curadoria do que será veiculado e estão empenhadas em informar de forma divertida”, defende Félix.

Para fazer rir, informar ou desinformar, é consenso que os memes não vão embora tão cedo. No Brasil, o Museu de Memes da Universidade Federal Fluminense (UFF), lançado em 2015, já catalogou cerca de 200 “famílias” de memes -  a quem interessar possa, a dos “gatinhos fofinhos” é a mais populosa.

“O meme é uma estrutura comunicacional - uma imagem ou uma frase engraçada - que, ao se repetir, é apropriada por um grupo e ganha significado. Ele funciona como suporte para uma mensagem em comum e serve como âncora de laços sociais. Todos rimos juntos de um mesmo assunto.”, explica o fundador Viktor Chagas, professor da UFF e doutor em História, Política e Bens Culturais pelo CPDOC/FGV.

Um “gatinho fofinho”, por exemplo, só vira meme depois de adquirir um significado, uma mensagem que será reconhecida por quem quer que o compartilhe. “O meme da Bela Gil ‘você pode substituir’ entrou nessa categoria porque nós passamos a ver várias paródias em cima disso, com a imagem da Bela Gil associada à frase. Hoje, você olha para a foto da Bela Gil e pensa em ‘trocar x por y’. Ou pensa em trocar ‘x por y’ e pensa logo na Bela Gil”, explica Chagas.

Biologia 

Apesar da popularização recente, o termo “meme” foi proposto em 1976 pelo biólogo Richard Dawkins, da Universidade de Oxford, que defendia a aplicação do darwinismo ao universo da cultura – uma espécie de sistema de seleção natural das ideias, capazes de se replicar, adaptar e sobreviver como um gene. Daí, portanto, o meme, termo que vem do grego “imitação” e foi reduzido justamente para soar como o “parente” biológico.

Se é verdade que os memes são os “genes” da cultura, as brincadeiras têm o potencial de refletir o que há de melhor na internet: das páginas mais à esquerda ou à direita, há humor para todos os gostos. “Qualquer pessoa que entrar na nossa página pode se divertir”, diz Fábio. “Não vejo a hora de postar o meme da cura da Covid”.

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