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Northrop Frye
Northrop Frye: de professor socialista a Universidade de Toronto um dos expoentes do conservadorismo na análise literária do século XX e XXI| Foto: Reprodução

É patente observar, nos dias que se passam, que a alta literatura é deixada de lado como uma velharia de avós, fetiches de acadêmicos ou enfeite de ambientes para fotos no Instagram. Aquele meio que guardou durante milênios os traços de nossos hábitos, que atualizou e ainda atualiza a nossa visão cosmológica, religiosa e política até os dias atuais, agora parece servir apenas para que os influencers ostentem seus invólucros nas redes sem nunca terem avançado neles além da capa. Será que realmente conhecemos a extensão da importância da literatura? Refiro-me à relevância literária que forma a própria manta cultural da civilização ocidental, o elo sem o qual qualquer conhecimento real e social não se faz possível. Tal era a visão de Northrop Frye (1912-1991), talvez o maior crítico literário do século XX, mas com certeza o mais profundo e combativo de seus pares.

Em "A Imaginação Educada", conjunto de palestras ministradas a partir de 9 de novembro de 1962, na Rádio CBC (Canadian Broadcasting Corporation), para todo o Canadá, cujas transcrições foram publicadas no Brasil pela Vide Editorial, Northrop Frye afirma:

"Não se é livre para ir e vir a menos que se tenha aprendido a andar, e não se é livre para tocar piano a menos que se pratique. Ninguém é capaz de manifestar liberdade de expressão a menos que saiba usar a linguagem, e este conhecimento não é uma dádiva: precisa ser aprendido e trabalhado."

A literatura não se trata de mero fetichismo, passatempo ou cenário para o Instagram; ainda que de alguma forma possa sê-lo tudo isso também, a literatura é a janela pela qual a humanidade olha para entender a si, o mundo e os outros. A literatura é, então, o próprio meio de compreensão da realidade, tanto como fato quanto em possibilidade. Mas vamos devagar, vamos entender quem foi o professor Frye.

A Vida

Herman Northrop Frye nasceu em Sherbrooke, Quebec, em 14 de julho de 1912. Filho de Herman Edward Frye (1870-1959) e Catherine Maud Howard (1870-1940), foi o terceiro filho do casal. Seus irmãos Howard e Vera eram seus parceiros de leitura na fria Quebec daquelas dias de juventude. Howard morreu na Primeira Guerra Mundial, o que fez Herman se voltar para a reflexão social e crítica política com mais furor e sagacidade durante seus anos de universidade.

Freye se graduou em filosofia na Victoria College, da Universidade de Toronto. Lá, seu talento nato para as letras e gosto pelo estudo da filosofia da linguagem e da teoria do conhecimento ficou evidente aos professores. Não demorou muito para surgir a possibilidade de trabalhar como editor do jornal da universidade, a Acta Victoriana. Após concluir a formação em filosofia ainda graduou-se em teologia pela Emmanuel College, também pertencente à Universidade de Toronto. Perceberemos mais ao final deste ensaio que a teologia será o seu guarda-chuva crítico, a parte central de sua metodologia.

Após concluir sua graduação em teologia, foi ordenado ministro da United Church of Canada, uma igreja que surgiu em 1925 da união de quatro grupos religiosos protestantes: a Igreja Presbiteriana no Canadá, a Igreja Metodista do Canadá, a União Congregacional de Ontário e Quebec e a Associação de Igrejas locais da União ― esta última uma espécie de união de igrejas protestantes independentes locais. Desde o início a igreja mostrou-se inclinada, teológica e politicamente, a um progressismo liberal; sendo, ainda hoje, um dos mais ativos grupos progressistas que debatem questões sociais e culturais no Canadá.

Após sua ordenação, voltou-se quase que exclusivamente aos estudos literários e filosóficos. Passou brevemente pelo Merton College, em Oxford, e depois voltou para o Victoria College onde se manteve até o fim de seus dias como professor e pesquisador.

Em 1947, após longa e profunda pesquisa, publicou o livro "Fearful Symmetry", uma crítica literária aos escritos do ― até então ― quase incompreensível poeta William Blake (1757-1827). O livro o fez conhecido em praticamente em todo o mundo anglófono e especialista máximo no referido poeta que, até aquele momento, era conhecido pela maioria dos críticos como prolífico e desconexo. Foi Northrop Frye que estabeleceu, assim, o modus operandi para interpretar a obra de Blake a partir da imagem do Paraíso Perdido de John Milton (1608-1674) e da narrativa bíblica.

Ele criou também os dois principais pilares da análise literária do século XX; foi através de seus insights sobre a linguagem analítica e linguagem poética, plenamente desenvolvidos em seu livro "Anatomia da Crítica" ― publicado aqui no Brasil pela editora É Realizações ―, que se estabeleceram vários parâmetros de análises das obras literárias modernas e antigas. O crítico literário americano Harold Bloom (1930-2019) o considerava a maior autoridade em literatura ocidental do século XX e afirmou em outras ocasiões que teria sido Nothrop uma das suas maiores inspirações intelectuais.

Brevemente, de 1974 a 1975, foi professor em Harvard e professor convidado em Princeton; mas retornou a seu país para ser catedrático na Universidade de Toronto ― celeiro de muitos e importantes críticos literários e filósofos da linguagem no século XX. Quando voltou para a sua Victoria College ― instituição onde se graduou em filosofia ― foi honrado com o cargo de reitor.

Em 1937, ele se casou com Helen Kemp Frye (1912-1986), uma editora e artista talentosa. Eles se conheceram no terceiro ano da sua graduação na Victoria College e logo iniciaram um relacionamento. No livro organizado pela editora da Universidade de Toronto: "The Correspondence of Northrop Frye and Helen Kemp, 1932-1939", há diálogos reveladores que apontam para duas gravidezes de Helen Kemp, não se sabe ao certo o que ocorreu com a primeira, mas a segunda foi deliberadamente interrompida por um aborto ilegal orquestrado pela mãe de Kemp com a ajuda financeira de Frye. É também nessa obra, através de suas correspondências, que Northrop afirma que, assim que ele e Helen se casaram, ele enfim encerrou a sua adolescência moral e seu modo de vida irresponsável; denotando, talvez, certo arrependimento em relação ao aborto e demais decisões impulsivas de sua juventude. Fato era que o filósofo e crítico canadense demonstrava um amor real, quase devocional em relação à sua esposa.

Foi em uma dessas viagens, para uma palestra de Frye na Austrália, que Helen acabou falecendo, em 1986. Após dois anos do falecimento de Kemp, Northrop se casou novamente, agora com Elizabeth Brown Frye (1912-1997), companheira que o acompanharia até o fim de seus dias.

Frye morreu em uma noite de quarta-feira, 23 de janeiro de 1991, em sua casa localizada em Toronto, vítima de um ataque cardíaco. O crítico literário também já vinha lutando, por volta de um ano, contra um câncer não especificado por sua família nem em obituários. Entre as honrarias que recebeu, incluem-se 36 doutorados honorários, a distinção do Companion of the Order of Canada, e em 2018 recebeu o título de Pessoa Histórica Nacional, título de alto grau concedido pelo governo canadense por trabalhos e pesquisas que contribuíram com o país.

O progresso desumano

Falar de todas a contribuição de Northrop Frye para o pensamento filosófico e literário dos séculos XX e XXI seria uma pretensão muito pouco provável de caber, com qualidade, em um ensaio apenas. Por isso, nos deteremos nas ideias de filosofia da linguagem e em suas teses principais de crítica literária, os arcabouços teóricos que fizeram das teses dele algo inovador e, até os dias atuais, capaz de promover inúmeras reflexões e atualizações.

Para começarmos a perscrutar o pensamento de Frye, precisamos entender qual a sua interpretação da realidade e o que ele esperava do futuro da humanidade. Em "Anatomia da Crítica" ― e em vários outros ensaios que escreveu ― fica claro que, assim como H. G. Wells (1866-1946), George Bernard Shaw (1856-1950) e Aldous Huxley (1894-1963), Northrop entendia que a humanidade estava seguindo um rumo extremamente danoso para o próprio sentido de “ser humano”.

Sua visão, entretanto, ia muito além de um pessimismo político ou de algum tipo de reacionarismo consciente, tanto que sua visão política ― segundo o editor e ensaísta canadense Robert Fulford ― estava muito mais voltada a um socialismo democrático do que ligada a qualquer apreço pela direita. Uma das críticas mais recorrentes em seus círculos de amizade era o espanto real que ele teve ao chegar na Inglaterra e ver tantas pessoas apoiando as teses de Mussolini e até mesmo do nazismo alemão. Fica óbvio, portanto, que não podemos acusá-lo de ser demasiadamente conservador ― apesar de suas conclusões filosóficas e literárias hoje não conduzirem as mentes sinceras que o estudam a nenhum outro estaleiro que não seja o do pensamento conservador, um paradoxo interessante, e com certeza involuntário.

Pois bem, Northrop Frye acreditava que a tecnologia e as facilidades da vida moderna engoliriam as capacidades de percepção e análise tipicamente humanas, transformando os indivíduos em meras extensões robóticas e/ou manequins desalmados de um sistema tecnocrata. Homens que seriam ― sem nenhuma metáfora ou exageros retóricos ― incapazes de interpretarem a arte, de identificarem a beleza, de notarem minimante a própria herança histórica da civilização da qual eles são partícipes; e, em último caso, sob uma demência gerada a partir do progresso desmedido e desumano, não perceberiam sequer as realidades mais evidentes aos seus sentidos.

No entanto, para o canadense, ao contrário de Gertrude Himmelfarb (1922-2019), G. K. Chesteron (1874-1936) e Roger Scruton (1944-2020), tais aporias advindas do progressismo e da modernidade tecnocrata não são antes um problema moral ou ético-político, e sim um problema de conhecimento e assimilação primária. Ou melhor dizendo, do imaginário moral individual que possibilita a mera percepção básica dos fatos e das possibilidades.

Para Frye ― já na década de 1960 ― a modernidade tinha se tornado uma espécie de grande corporação centralizada, que fingia possuir uma harmonia indiscutível, uma espécie de organização sintética que naturalmente substituiria a própria narrativa da história orgânica, narrativa essa na qual estávamos acostumados a nos reconhecer como parte de um todo construído através das experiências e racionalizações típicas da espécie humana.

Tal estrutura modernista artificial se achava tão sublime e grandiosa que passou a montar suas própria éticas e belezas, abdicando de quaisquer hábitos ou heranças, tal como se a realidade fosse moldável pelas teses dos intelectuais do reino. Northrop afirma então que tal estrutura tecnológica possui sim a sua beleza e racionalidade, que ela de fato ostenta avanços e evoluções indiscutíveis, mas que, em seu âmago, desponta um óbvio vazio desumano, uma coisificação leviana de tudo que o Ocidente transpôs na história durante os séculos, seja em forma de sentido, estética ou conhecimento acumulado.

Conhecendo o “conhecer” através da literatura

Foi por meio desses insigths que Northrop Frye, com as seis palestras de "A Imaginação Educada", ministradas em 1962 ― como apontamos no início do ensaio ―, identificou uma carência primordial de imaginação moral naqueles que tentavam interpretar a realidade a partir dos panoramas que a modernidade pintava. Seguindo na contramão da correnteza, Frye inicia então um projeto de arquitetura do imaginário, uma tentativa de explicar como o conhecimento nasce e como a literatura é, na realidade, o pilar de sustentação da percepção da realidade, a construtora mesma da medula ética do Ocidente.

Temos que entender, agora, qual a relação de linguagem e literatura no pensamento de Frye. A linguagem é o único meio para o homem entender a realidade; do contrário, ele seria talvez uma espécie de mamífero mais complexo, nada além disso. A linguagem é o que faz o homem identificar formas, sons, distinguir coisas, qualificar elementos e recusar banalidades, e, talvez o mais importante: dar sentido a seus atos, identificar e relacionar os significados em suas ideias. E, num grau mais tardio, pensa Frye, conceituar e refletir sobre o mundo em si e sua participação nele. A Literatura, por sua vez, é a cola que une a percepção à imaginação, que faz do homem mais que um mero perceptor e repórter da realidade, e sim um pensador/construtor de seu plano.

Para embasar essas ideias, o filósofo canadense observa que a linguagem se divide em três vias (a fim de facilitar o entendimento final, chamaremos essa divisão de Camada 2), a linguagem de consciência ou percepção, ou seja, a linguagem do monólogo, aquela que utilizamos conosco mesmos a fim de chegar a conceitos ou dissolver aporias lógicas e históricas; a linguagem de senso prático, isto é, linguagem do cotidiano a fim de estabelecer contato com terceiros, seja em nossas vidas pessoais, comunitárias, no trato jurídico, jornalístico, político, etc.; e há também a linguagem literária ou imaginária, que é a linguagem literária em sua completude: a expressão teatral, poética, filosófica, etc.

Assim sendo, é de suma importância compreender que é no nível da linguagem literária que acontece a união das linguagens de consciência e a linguagem prática, possibilitando assim unir a necessidade comunitária alcançada através das interações humanas à consciência individual conceitual e pragmática dos indivíduos. É na literatura, afirma Frye, que o indivíduo encontra a sua herança, o outro e as possibilidades de ser além de si mesmo. E é justamente aqui que o filósofo nos oferece outra distinção importantíssima, trata-se da camada que sustenta o nível de interação de linguagens que acima explicamos.

A linguagem, como um todo, observa o canadense, sustenta-se em dois pilares de expressão linguística (a tal Camada 1): a linguagem analítica e a linguagem poética. A linguagem analítica — ou científica — é aquela que abraça o fato enquanto puro fato, sem previamente levar em consideração as emoções, preferências ou demais gostos qualitativos do indivíduo que analisa; a linguagem poética, por sua vez, é a linguagem que expressa o poder-ser, a possibilidade imaginada ― positiva ou negativa ― a partir do que é observado. Nessa última, misturam-se as preferências, emoções e vontades de cada indivíduo.

No entanto, não se trata aqui de duas colunas que não se tocam efetivamente, a interação entre ambas é constante, uma relação verdadeiramente dialética, relação sem a qual teríamos um mundo de observadores inócuos e improdutivos, ou um hospício de imaginadores alienados. A linguagem analítica tende, assim, a se aproximar naturalmente da linguagem poética, afinal, ainda que científica, a análise é antes realizada por um indivíduo dotado de preferências, vontades e emoções; a linguagem poética, por sua via, tende a se aproximar do puro fato científico em busca de credibilidade e adequação do imaginado à realidade, isto é, a sua prática.

Todas essas interações e camadas estão acontecendo agora mesmo, são simultaneamente realizadas a cada instante por todos nós. Por exemplo, a linguagem científica, isto é, a observação do puro fato, a partir do momento que se torna expressão, seja em linguagem de consciência ou linguagem prática, torna-se também linguagem poética; o que significa, por sua vez, que a subsequente linguagem literária (filosófica, poética, teatral, conceitual, etc.) é a responsável por transpor as informações dos fatos para uma realidade de compreensão e adequação. “A literatura é um mundo que tentamos construir e acessar ao mesmo tempo”, diz Frye em "A Imaginação Educada".

Há aqui, então, uma anatomia da linguagem, da percepção e da origem do conhecimento. E é a partir dessa arqueologia da literatura e do entendimento humano que Northrop ampliará ainda mais as suas ideias literárias, fazendo de suas percepções os novos manuais de crítica literária de seu tempo.

O mito fundamental

“O mito e a literatura estão sempre intrinsecamente unidos”, afirma Northrop. Para entender isso, devemos antes conceber que Frye é conscientemente um romântico, e, como tal, ele sempre pensa a literatura de forma ampla e geral quando vai deduzir as bases de suas críticas, não considerando sociologicamente as diferenças e opções de cada ramo ideológico ou de minorias literárias.

O mito, para o canadense, trata-se de uma metáfora atemporal que a humanidade usou para expressar um entendimento sobre algo, seja esse “algo” cosmológico, teológico ou antropológico. Esse mesmo mito, quando casado com a literatura, torna-se meio transcendente de uma herança que irá sempre muito além de um mero gradualismo de tribos, mas avança ele mesmo sobre as condições e percepções individuais sobre a nossa pátria, ética e hábitos.

O princípio geral desenvolvido ao longo das quatro primeiras palestras é que, na história da civilização, a literatura se segue à mitologia. Um mito é um esforço de imaginação simples e primitivo para identificar o mundo humano com o não humano, e seu resultado mais típico é uma história sobre um deus. Passado algum tempo, a mitologia começa a fundir-se com a literatura, e o mito torna-se o princípio estruturante dela.

Esta transcendentalidade da literatura enquanto expressão dos mitos da humanidade, traz uma carga metafísica para a reflexão; fazendo da realidade um reavivar das experiências intrínsecas da história e da humanidade enquanto peregrina da terra. Pois, afirma o filósofo canadense, o mesmo mito de "Ilíada" de Homero, aparece, de alguma forma, em "Romeu e Julieta", de William Shakespeare (1564-1616); o mito do anel de Giges, que aparece na obra "A República" de Platão, é o mesmo mito que nutre a maravilhosa saga de "O Senhor dos Anéis", de J. R. R. Tolkien (1892-1973). Ora, o mito da Caverna, também parte de "A República", parece ser o próprio enredo de "Matrix".

Vocês poderiam então concluir que a literatura, por fim, não traria nada de novo. Ao contrário, diria Frye, ela é tudo novo o tempo todo. O homem que se liberta dos medos das sombras horrendas que o escraviza na caverna do mito de Platão é o mesmo homem que toma a pílula vermelha em Matrix e descobrirá como a tecnologia do século XXI o encerrou na mesmíssima condição de escravidão que Platão enunciava. O enredo e as imagens mudam, a metáfora substancial dos mitos persiste.

Em uma outra célebre passagem de "A Imaginação Educada", Northrop Frye se defende da ideia de que ele seria um imobilista literário:

"Não estou dizendo que não há nada de novo na literatura; estou dizendo que tudo é novo, mas também reconhecível como a mesma espécie de coisa que o velho, assim como um novo bebê é genuinamente um novo indivíduo, mas também um exemplo de algo muito comum, um ser humano, pertencente à mesma linhagem que o primeiro dos seres humanos."

Essas voltas em torno dos mitos, a reconstrução e refundações das metáforas que vertem o homem para dentro de si em busca de sentido e conserto, esse quase-eterno remoer poético da estética, é exatamente o que formará as moralidades e sistemas políticos humanos durante milênios, trata-se do próprio arcabouço imaginativo da humanidade. “A história da perda e reconquista da identidade é, ao meu ver, o arcabouço de toda a literatura”, diz Northrop em "Anatomia da Crítica". O trunfo da literatura é justamente isso, estar sempre refletindo sobre as condições humanas, buscando em meio às possibilidades literárias, melhorar e recentralizar o homem diante dos princípios e valores que o sustém.

Por isso mesmo que, quando encontramos um bom autor, encontramos simultaneamente um grande assombro de novidade, que não é exatamente novo em sua substância, mas é novo em sua expressão e percepção. Cervantes é maravilhoso pois revela ao homem sua humanidade sob uma faceta determinada, e nela reflete e amadurece sua existência. Dante Alighieri (1265-1321) é assombroso pois consegue revelar ao homem suas aporias, expectativas e frustrações profundas, convidando-o como um sedutor ancião, a conhecer a si mesmo sob uma perspectiva que até há pouco lhe escapava.

No entanto, é na Bíblia que ele encontrará "O Grande Código", o mito fundamental da nossa civilização. "O Grande Código" é o livro que muitos de seus intérpretes e críticos consideram o mais importante escrito pelo autor ― aqui no Brasil, a obra foi recentemente publicada pela editora Sétimo Selo. Frye argumenta nele que a Bíblia é a metáfora primordial que marcou definitivamente o nosso imaginário moral; o caráter tanto ético quanto estético e histórico do códex judaico-cristão fizeram do Ocidente o que de fato ele é. Trata-se do mito dos mitos, algo que vai além da temporalidade ou veneração literária em si, como as obras de Homero ou Virgílio; a Bíblia é o arrimo moral de todo um mundo de ideias.

Não existiria a realidade ocidental ― tal como a conhecemos, com seus defeitos e grandezas ― sem que a literatura desses cantos tenha fincado raízes nas mantas das narrativas bíblicas. Na referida obra, o canadense defende que a estrutura bíblica é a própria estrutura organizacional do imaginário humano, e, com essa afirmação, ele faz o que até então nenhum crítico literário ousou realizar: unificar a crítica literária ocidental sob uma mesma estrutura fundamental.

Para Northrop, tudo se resume ao enredo bíblico em forma de “U” ― do homem no paraíso, passando pela humanidade caída, à redenção da humanidade. Tentemos ser mais assertivos: do mito da queda de Adão e Eva, seguindo pela perda da dignidade do paraíso pelo Homem, o natural padecimento terreno pelas faltas e transgressões, o vazio solitário do abandono de Deus, a esperança do surgimento de um libertador, passando pela vinda do herói-Deus que promete libertar o jugo final dos homens, a ressureição e a volta gloriosa de Cristo no Apocalipse.

Esse conjunto narrativo é a alegoria fundante da nossa civilização, é a tatuagem primeva em nosso imaginário, a pedra fundamental de nossa cultura ― afirma Northrop Frye. Da "Divina Comédia" de Alighieri, passando por "Paraíso Perdido" de Milton, até desembocar em "Demônios" de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), todos os grandes literatos que falaram do Homem, suas angústias e esperanças, falaram desse mito em “U” da Bíblia, seja em sua totalidade, seja parcialmente.

Aquela ligação teórica que faltou a Charles Darwin (1809-1882) na biologia evolucionista, foi encontrado por Northrop Frye na literatura. O elo perdido da crítica literária ocidental não era um mito ― perdoem-me o trocadilho, não me contive.

Por fim

Por fim, Frye foi para a crítica literária moderna o que Thomas Hobbes (1588-1679) foi para a filosofia política, ou que Edward Gibbon (1737-1794) foi para o estudo da história na modernidade. Sua capacidade de percepção filosófica, a clareza nas suas ideias e coragem de contrapor as correntes ideológicas da análise literárias formaram em seu caráter um verdadeiro farol que ilumina ainda hoje esse campo de estudo.

Passeando entre a filosofia e a literatura, Northrop esbanjou erudição e profundidade. Seus críticos podem até discordar de suas conclusões críticas, mas dificilmente de suas bases metodológicas; se discordam de suas bases metodológicas, por sua via, mal conseguem propor uma outra com tamanha extensão e completude para ficar em seu lugar. E é por isso mesmo que o filósofo canadense se tornou uma espécie de contratualista da crítica literária.

Sua defesa da alta literatura, pautada na herança ocidental, sob o conceito de mito fundamental da Bíblia, fez do possivelmente professor socialista da Universidade de Toronto um dos expoentes do conservadorismo na análise literária do século XX e XXI. E não somente por sua defesa literária, mas por sua tese de teoria do conhecimento, uma das mais bem fundamentadas e lógicas que temos no século XXI.

É evidente observar que ler Frye é algo que deve ser feito até com certa urgência no Brasil, dado o nosso pacífico e evidente estado de analfabetismo estrutural. A literatura é a via principal para inaugurarmos o tão sonhado patamar da erudição cultural neste país. Do autoconhecimento ao conhecimento do mundo, é a literatura que pode nos informar e inculcar aquelas experiências que fizeram da civilização ocidental a mais próspera e livre de todos os tempos. A literatura, por fim, é a porta de entrada na grande biblioteca da humanidade; e, se cada século representar uma porta nessa mansão literária, podemos, sem sombras de dúvidas, dizer que Northrop Frye é o bibliotecário ranzinza do século XX.

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