Defensor dos sérvios na Guerra dos Bálcãs e fã de Slobodan Milosevic, Hanke acumula prêmios e também desafetos no meio político e literário.| Foto: AFP

Ao longo do ano, ninguém liga para a literatura. Mas em outubro tudo muda. Já no primeiro dia do mês as pessoas se alvoroçam. E começam a jorrar nomes que querem como vencedores daquela que é supostamente a maior honraria da literatura mundial. Este é o ano do McCarthy, dizem, afetando intimidade. Não! Este é o ano de Houellebecq, discorda outro. Quando será a vez de um brasileiro ganhar?, pergunta um ufanista desalentado.

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Daí chega o fatídico dia e a Academia Sueca sempre surpreende os desavisados conferindo o prêmio milionário a um poeta concreto bangladeshiano, um compositor hippie, um jornalista ou um militante de esquerda. O que dizer, então, quando a Academia dá o prêmio para dois escritores no mesmo ano?

Foi o que aconteceu em 2019. Por causa de um escândalo sexual envolvendo alguns membros da Academia Sueca, o Prêmio Nobel de Literatura de 2018 foi adiado. Abriu-se, então, a oportunidade perfeita de se dar o prêmio para duas pessoas no mesmo ano, causando controvérsias, celeumas, polêmicas, discussões e discórdias em dose dupla. Foram agraciados com o Nobel a polonesa Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke.

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Um prêmio como manda o figurino

O prêmio para a polonesa combina com o espírito do tempo que tanto assombra a Academia Sueca. Não só porque ela é apenas a 15ª mulher a ganhar o Nobel de Literatura em 118 anos de história como também porque ela é socialmente consciente, vegetariana, mística e, estranheza das estranhezas, seus livros fazem algum sucesso comercial na Polônia. Tokarczuk também cabe no papel de vítima, já que o conselho municipal de Rowa Ruda retirou o título de cidadã honorária dado à escritora porque ela teria “manchado a imagem da Polônia”.

“O idiota do ano”

Mas é o prêmio dado ao austríaco Peter Handke que chama a atenção. Não pelas qualidades estéticas de sua obra. No meio literário, parece ser consenso o fato de Handke ser um gênio ou, no mínimo, um escritor digno desse tipo de premiação. O problema está na forma como Handke lidou e lida com a última guerra de grande escala travada em território europeu no século XX: a Guerra dos Bálcãs.

E, dessa vez, parece que não é apenas implicância do mundo literário dominado pela esquerda. Para se ter uma ideia, Handke discursou no funeral do genocida Slobodan Milosevic, em 2006, dizendo que o Ocidente não compreendeu o líder sérvio acusado de massacrar os bósnios.

A embaixadora de Kosovo nas Nações Unidas, Vlora Citaku, reagiu imediatamente ao anúncio do prêmio, dizendo que foi uma “decisão revoltante e vergonhosa”. “Um escândalo!”, tuitou ela. O ministro das Relações Exteriores da Albânia foi menos sutil: “deram o prêmio ao negacionista de um genocídio”, escreveu ele.

O mundo literário há muito não vê a persona política de Handke com bons olhos. Mais precisamente desde 1996, quando o autor escreveu um ensaio sobre a Sérvia para o jornal alemão Suddeutsche Zeitug, questionando a forma como os sérvios eram retratados pela imprensa mundial. Em 1999, numa aparição na TV sérvia, Handke foi além, comparando o sofrimento dos sérvios à perseguição aos judeus (mais tarde ele pediu desculpas pela comparação). Neste mesmo ano, Salman Rushdie chamou Handke de “idiota do ano”. Gunther Grass, também “nobelizado”, disse que “as visões políticas dele [Handke] são horríveis. Ele está absolutamente do lado errado”.

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Nada garante, aliás, que Handke vá se dar ao trabalho de viajar a Oslo para receber o prêmio e o dinheiro (aproximadamente meio milhão de euros). Isso porque ele tem um histórico complicado com premiações. Em 2006, ele recebeu o prêmio Heinrich Heine, logo em seguida revogado pelo conselho municipal da cidade de Dusseldorf, responsável pela honraria. Em 2014, ele recebeu o Prêmio Ibsen, devolveu os US$400 mil que lhe foram dados e, no brevíssimo discurso de aceitação, mandou todo mundo “ir para o inferno”.